quarta-feira, 4 de junho de 2014

Argumentação machista extremamente irritante.


Costumo ser muito paciente com argumentações toscas, e acho que sempre que possível devemos ter paciência com pessoas desinformadas. Mas o diálogo abaixo é um bom exemplo do porquê alguns espaços feministas (basicamente no Facebook) optarem por não aceitar mais homens, e banir os que se comportam dessa forma. 

Sou da opinião que homens podem ser feministas, e que cada pessoa deve ser avaliada de acordo com as suas atitudes individuais, mas entendo também que ter que aturar  comportamentos como o do sujeito neste diálogo (que foi em particular, por inbox) acaba cansando mesmo.

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[Atualização] Essa foi na verdade a parte final de uma conversa que começou em uma postagem na minha timeline. Durante essa conversa ele fez várias declarações que evidenciaram bastante a sua total falta de compreensão de como as mulheres se sentem quanto às cantadas de rua. Ao lhe ser dito que mesmo quando o comentário é 'educado' as mulheres se sentem desconfortáveis, e que muitas vezes as mulheres são xingadas e até agredidas quando deixam claro que não gostaram, eles disse entre outras coisas:


"Quando um homem corajosamente decide cantar uma mulher na rua (carinhosamente elogia-la), pois ele a achou atraente, no mínimo que a mulher pode fazer é ficar quieta ou explicar educadamente que não quer papo ou que se sentiu incomodada.
A partir do momento que a mulher replica agressivamente a uma cantada cordial ai automaticamente qualquer senso de civilidade se perde, e a situação pode evoluir para os mais variados resultados."
Ou seja, se o homem reagir de forma agressiva quando a mulher deixar claro que não gostou, a 'culpa' é dela...
Depois:


"Se voces nao gostam de alguma coisa, simplesmente evitem/aceitem. Eu odeio ver gente pregando coisas religiosas sem evidencias... mas eu concordo com o direito dessa pessoa de profetizar qualquer nosense ela quiser... quem sou eu pra dizer: "olha eu me sinto super ofendido, eu acho que religiao eh o mal da sociedade, entao por favor pare de profetizar"

Se voces nao gostam de cantada, get over it, tem mulher que gosta."
Resumindo, na opinião dele amulheres não podem querer andar na rua em paz, tem que aceitar qualquer comentário calada...
Tentamos esclarecer que o que acontece nas ruas é basicamente sempre grosserias, e ele:
"Soh por que tem uns homens sem nocao, voce esta querendo banir o sistema de cantadas? hahahaha"
Em uma conversa com mais de 200 comentários ele ficou insistindo e batendo nessa mesma tecla até o fim.

Mais adiante ficamos sabendo do fato de que esse mesmo cara defendeu que um policial oferecer a alternativa de uma mulher fazer sexo com ele em troca dele não lhe dar uma multa era perfeitamente aceitável e não tinha nada demais. 

Tendo explicado tudo isso, será que dá para entender porque eu já não estava com paciência?

O argumento que ele usa, invocando a 'evolução' é altamente questionável. Não podemos afirmar como eram as coisas na pré-história, mas há evidências de que as mulheres não eram assim tão indefesas. 

Pessoalmente eu nunca disse nem acho que o machismo foi construído de propósito, de forma deliberada. Ele me acusa disso sem sequer perguntar o que penso. E diz que as mulheres ajudaram a construir essa cultura de machismo porque de certa forma era 'conveniente' também para elas; isso soa muito como dizer que os escravos colaboraram com o sistema escravagista, como se tivesse havido alguma escolha.

Não dá para querer justificar a existência do machismo hoje, não importa como e porque surgiu no passado. Assim como não se tenta mais justificar a escravidão, não dá mais para justificar o machismo.

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OBS. Era uma pessoa que não estava na minha lista de contatos. No final ele pergunta se deletei o tópico, mas eu só o deixei restrito a amigos para impedir que ele continuasse repetindo os mesmos argumentos toscos. Eu também cansei.

















domingo, 1 de junho de 2014

Privilégios


Privilégio é uma coisa que muitas pessoas nem se dão conta que tem, e é claro que também varia de acordo com a situação particular que cada pessoa vive. A análise que eu vou fazer sobre privilégios tem a ver com a minha vivência pessoal e pode não se aplicar do mesmo jeito para outras pessoas. Não sei se consegui abranger todos os pontos, se alguém tiver alguma coisa a acrescentar, fique à vontade.


 1. Sou branca. E ainda tenho os cabelos loiros e olhos claros. Esse é o padrão mais valorizado na nossa cultura (infelizmente). A única coisa que posso fazer é reconhecer o privilégio que isso me dá. Nunca me olharam com desconfiança ao entrar em uma loja, ou banco ou prédio.

 2. Sou hétero. Nunca precisei me preocupar com ser ou não aceita pela família e pela sociedade por minha orientação sexual.

 3. Sou cis. Isso significa que estou confortável e me identifico com o corpo com que nasci. Nunca quis ser diferente, e nunca fui cobrada pela família e pela sociedade por isso.

 4. Sou mulher. Na minha profissão, ser mulher é vantagem. Digo isso porque eu ia começar dizendo que praticamente a única desvantagem que tenho é ser mulher, mas até isso tem seus prós e contras. Mulheres tendem a ser mais bem vistas na função de ensinar atualmente (antigamente os professores eram todos homens). Dou aulas particulares, o que implica em ir até os alunos, seja em empresas, seja em suas casas. O fato de eu ser mulher (e branca, hétero, cis, casada) se torna uma vantagem nessas circunstâncias.

 5. Sou mais velha.  É considerado que a idade me torna mais experiente, coisa que nem sempre é verdade, só se a pessoa se dispõe a se atualizar sempre.
  
 6. Sou casada e tenho filhos. Na nossa cultura considera-se que eu 'cumpri' com o que se esperava de mim. Ninguém me olha como se eu fosse 'anormal' ou uma 'fracassada' neste aspecto.

 7. Tive a oportunidade de estudar. Minha família teve condições de me dar isso, assim como também fui estimulada a ler desde cedo. 

 8. Sou estrangeira (europeia). O brasileiro tende a achar que estrangeiros de países de primeiro mundo tem algo de 'melhor' que eles próprios ou estrangeiros de países mais pobres. (Esse é um estereótipo, e nem sempre é verdadeiro. Existe gente canalha e grossa em qualquer lugar.)

 9.  Sou profissional autônoma. Trabalho de forma independente e não tenho chefe! 

10. Tenho um corpo médio. Não sou nem magra nem gorda, por isso não chamo atenção especial. E sou baixinha, o que também acaba sendo uma vantagem, porque a minha aparência não intimida ninguém. 

11. Sou classe média. Nunca precisei me preocupar com o básico da sobrevivência, sempre pude ter uma vida razoavelmente confortável. 


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