quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Guest post - As causas da violência contra a mulher

[por Marison Lacerda]







Oportunidade para fazer do meu primeiro post no Facebook algo relevante. Vai ficar extenso, mas acho que devo. Provavelmente não será o típico post de Facebook, mas não quero que a sociedade continue funcionando dessa forma típica que vemos.

Esse número, 7 em 10 mulheres sofrerão alguma violência em suas vidas, assusta demais. Já o conhecia, mas vendo essa imagem novamente voltei a pensar no quanto gostaria de ter uma garantia que minha esposa estivesse nesses 30%. E minha sobrinha que não tem nem um ano. Minhas mãe, sogra, tias, outra sobrinha, cunhadas, colegas de trabalho...

Infelizmente algumas das mulheres que citei já passaram por isso, já engrossaram a estatística. Nem sempre saberemos, mas seria muito bom que não venham a sofrer nada novamente. A luta continua para todas e por todas. É constante.

O que fazer para diminuir esse número?

Ajudar a reformar a sociedade. Mudar o pensamento. Mulheres não são objetos. Claro, ninguém acha isso, não é?

Quando a única característica de uma cientista que conseguiu um novo tratamento é salientar que ela é bonita (ou feia), você está desvalorizando todas as outras características. A única que se destaca para mim é o fato de ser muito inteligente. O mesmo ocorre para uma contratação baseada apenas na beleza. E existirão mulheres inteligentes e belas assim como existem homens. Não confundam. Só para exemplificar, um grupo de cientistas composto por mulheres curaram um recém-nascido com Aids recentemente.

Podemos perder um objeto. Quando deixamos de ter o convívio com uma mulher por qualquer motivo, não a perdemos da mesma forma. Infelizmente, vários homens sentem assim e matam e ferem ex-mulheres. Ou atuais. Ocorre muito. Devem ser parte bem significativa nessas estatísticas.

Mulheres serem tratadas como vacas ou putas fazendo referência a como se vestem ou se comportam sexualmente é outra faceta dessa forma de pensar que tenta limitar o que uma mulher pode fazer, mas normalmente não se tem uma preocupação similar com os homens. Você só limita (ou deveria), o que é seu. Se você acha que tem direito de fazê-lo com todas mulheres, você está contribuindo para a violência.

Fora que tratar mulheres como descrito acima ainda serve para justificar a violência sexual. É uma vaca mesmo, é feita para isso, está querendo e coisas do tipo, permeiam a mente do pré-estuprador que não precisa ser e quase nunca é uma pessoa doente. Só é muito mal alimentado mentalmente. Pode ser namorado, marido. A mulher pode estar bêbada, desmaiada, sem vontade, ser uma criança ou, mais raro e sempre atormentador, estar andando numa rua qualquer. Não temos o direito de deixar acuadas constantemente metade de nossa população por mantermos ideias preconceituosas.

Toda vez que uma filha é tratada diferente de um filho, que se entende que isso é coisa de mulher ou de homem, que se faz uma piadinha sobre mulher não saber dirigir, loiras serem burras, que ser sensível é coisa de mulher ou qualquer dessas besteiras, estamos caminhando para entender a mulher em nossa sociedade de uma forma diferente, irreal, que serve de justificativa para essa violência e outros tratamentos que sempre a prejudicam. Não apoiem isso. Pense em cada coisa que vão curtir ou compartilhar. Pode parecer engraçado, mas estamos só distribuindo conceitos antigos e sem nenhuma base na realidade, exceto a criada culturalmente, que devem parar por aqui.

E a culpada de um estupro ou violência qualquer nunca é a vítima. Nunca é por serem consideradas bonitas, por como se vestem, por como se comportam. Mulheres vestidas com burcas são estupradas, de vestidos até o pé, até o joelho, de microssaias, de calças jeans. Mulheres que olham para a frente o tempo todo, mulheres que olham para trás para verem se estão sendo seguidas, mulheres que olham para todas pessoas e dão sorrisos. Que não sorriem. Consideradas feias ou bonitas. Nenhuma escapa por nada que possa fazer ou ser. Muito injusto.

Na rua, não ache que é alguma vantagem para uma mulher receber cantadas de todos os desconhecidos. Uma ou outra pode até gostar, pode ajudar em sua autoestima, o que não é errado também, mas a maioria vai se sentir com receio de que numa situação em que um possível agressor pudesse sair impune ou sem um flagrante, ela correria grandes riscos. E corre mesmo, pois os números são altos. Mesmo uma olhada insistente pode ser ruim. E para quê mesmo é isso? Que sentido tem? Você tem o direito de aterrorizar alguém?

Escrevo muito por preocupar demais com minha esposa. Ela está próxima. Convivemos todos os dias um bocado. Ontem não assistimos nada por mais que uns minutos para ajudar a relaxar para dormir. Ficamos discutindo um pouco esse assunto e como sempre foi bom e me inspirou. Quero um mundo mais seguro para ela.

Desejo a todas as pessoas um bom dia para refletir no que desejam para essa mulherada tão legal que existe nesse nosso planeta. No mínimo, todas merecem respeito e não conviverem com o medo constante. — com Gi Lacerda.

sábado, 17 de agosto de 2013

Minha participação no X Seminário LGBT em Brasilia









Em 14 de maio de 2013 aconteceu o X Seminário LGBT promovido pelo Deputado Jean Wyllys. Logo antes da minha fala o Deputado Jean Wyllys anunciou que o CNJ havia regulamentado o casamento igualitário para todo o Brasil. Logo em seguida falei sobre a importância do Estado Laico em relação às liberdades de crença e de direitos individuais.

Mais:
http://ateiadebomhumor.ligahumanista.org/2013/05/x-seminario-nacional-lgbt.html
http://ateiadebomhumor.ligahumanista.org/2013/05/x-seminario-nacional-lgbt-fotos.html
http://ateiadebomhumor.ligahumanista.org/2013/05/jornal-da-camara-de-brasilia.html

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sábado, 3 de agosto de 2013

Desabafo de uma trans*

Acabei de ver isso no Facebook e pedi permissão à autora, Daniela Andrade, para divulgar aqui.

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Tantas pessoas trans* confessam para mim que querem se matar, que estão pensando em suicídio, que chego à conclusão de que talvez não haja uma pessoa trans* que não tenha cogitado essa hipótese ao longo da sua vida.

Os motivos sempre se encontram:

"Meus pais não me aceitam".
"A sociedade não me aceita".
"Eu queria fazer todas as cirurgias para que ninguém descobrisse que sou trans*".
"Eu estou enlouquecendo sem poder me hormonizar".
"Eu não vou conseguir viver essa vida sem essa cirurgia".
"Ninguém vai gostar mesmo de mim, por que eu sou trans*".
"Ninguém vai mesmo se importar se eu me matar, quem se importa para as pessoas trans*?"

Essa semana uma mulher trans* me confessou que não aguentava mais trabalhar onde trabalhava, ela é obrigada a usar o banheiro de deficientes físicos pois as mulheres cis reclamaram da presença dela no banheiro feminino. E outros funcionários perguntam para a chefe dela: "O que essa daí é? Não é mulher por que se parece com homem, mas também não pode ser homem por que homem não tem seios". Fazem piadas, ridicularizam, e ela disse que chegou a um ponto que não aguenta mais. Está entregando os pontos.

Uma outra mulher trans* adolescente me disse que está pensando em suicídio, pois foi proibida de se hormonizar pelos seus pais e sente que não aguentará a vida vendo seu corpo transformar-se em algo que ela não reconhece como seu.

Onde encontrar força com o peso do mundo desabando sobre você? Com toda uma sociedade dizendo que você não tem direito de ser um ser humano? Tratando você como ser abjeto?

Eu já pensei muito em suicídio, a vida toda, tentei também o suicídio o que fez meus pais me levarem (mais uma vez) no macumbeiro, no padre, no psicólogo, no psiquiatra. Uns diziam que era encosto, outros diziam que era frescura, outros diziam que era um trauma, outros diziam que era falta de certa substância no cérebro.

Não era nada disso, era apenas a vontade de continuar a ser eu mesma: negada e repreendida.

Penso em suicídio muitas vezes, da última vez pensei em me jogar da janela do sétimo andar onde eu moro; aí procurei o psiquiatra e zás, empanturrei-me com mais uma marca de mais um antidepressivo e mais outro ansiolítico. Parece que para eles tudo se resolve com medicação. A realidade é muito opressiva? Temos a droga certa para resolver isso.

De vez em sempre não sinto vontade de sair de casa, nem para ir para mais uma entrevista de emprego onde sei que o fato de eu ser trans* vai pesar consideravelmente - e na maioria dos casos, fator impeditivo. Não dá para negar isso quando vejo homens cis na mesma área e cargo desempregarem-se hoje e encontrarem uma vaga amanhã nessa área em que estou, mesmo com menos currículo. A falta de vontade é por saber que não haverá surpresas, a transfobia está em toda parte e é sempre preciso fingir ou encontrar outros artifícios para tentar fugir ou enfentrar.

Com o tempo passei a fazer adaptações: andar com fone de ouvido para não precisar ouvir as piadinhas e os traquejos transfóbicos da claque: "olha o traveco", "isso aí é mulher ou homem?" e óculos escuro para lidar melhor com os olhares inquisidores e acusatórios. Muitos não conseguem disfarçar do incômodo que é para eles estarem respirando o mesmo ar de uma pessoa trans* em um mesmo espaço. Algumas vezes cheguei a usar óculos escuro até à noite - deveriam pensar que eu estava muito louca de droga. Mas aí o óculos quebrou e não quis comprar outro, passei a fingir que as pessoas não me olhavam, mas se o olhar se fixava, encarava. E não são poucas! É preciso uma coragem hercúlea de quem sai pronta para enfrentar o exército transfóbico.

Às vezes, pensar em suicídio é como uma brisa, uma terapia para os dias mais difíceis. E não recrimino o suicídio em si, pois acho que o suicídio é também uma coerção social, como analisou Durkheim em sua obra sobre esse fenômeno. Como não pensar em suicídio quando a sociedade está o tempo todo colocando em xeque o seu gênero, a sua humanidade? Como não pensar em suicídio sabendo que as mais simples tarefas para as demais pessoas, como por exemplo, esperar ser tratado pelo nome que você diz que é seu, se torna um fardo quando você é trans*? Como não pensar em suicídio vivendo em uma sociedade que genitaliza as pessoas e transforma homens em pênis e mulheres em vaginas?

Não dá para não pensar e proibir as pessoas trans* de fazê-lo - e, sequer, é uma surpresa pra mim quando mais uma pessoa trans* me diz que está pensando em se matar. Como não se matar quando tantas vezes você de fato já está morta, vivendo uma vida em que todos olham através de você, fazendo o máximo possível para fingir que você não existe, repudiando a sua identidade, negligenciando seus direitos e simplesmente não falando sobre as opressões cissexistas tão enormes contra as pessoas trans*? Como não pensar em suicídio quando parece que não há para onde você virar ou onde buscar ajuda para que consiga se entender, e onde possa obter empatia - a mesma que todo ser humano precisa. Onde não seja recriminada, onde seja acolhida, onde parem de questionar por que você se diz ser isso ou aquilo.

Pensar em suicídio faz parte da vida de muitas pessoas trans*, muitas realmente o levam a cabo, nos EUA 42% das pessoas trans* já tentaram o suicídio. No Brasil não sabemos, não há quaisquer dados sobre a população trans*, o IBGE perguntou em sua pesquisa sobre pessoas homossexuais na casa, mas nenhuma pergunta sobre pessoas trans*, somos invisíveis para o governo, para a sociedade: nossos suicídios também são invisíveis, sobretudo os diários, que nos matam à conta-gotas, diariamente.
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Até quando essa insensibilidade para com quem é trans*? 
Cadê a compaixão?