domingo, 24 de fevereiro de 2013

Cantada de rua - conte o seu caso

Sim, sou a dona da página, supondo que alguém ainda não saiba


 Quando criei a página, em 7 de novembro de 2012, a intenção era descobrir como as mulheres se sentiam com relação a isso. Fazia tempo que eu via comentários e algumas postagens sobre o assunto, percebi que era um assunto cada vez mais abordado nas redes sociais. Também via comentários dizendo que não era nada demais, que algumas mulheres até gostavam, e que não deviam dar importância. Que não era razoável querer que os homens não abordassem as mulheres na rua. 

Ao mesmo tempo eu via notícias de outros países, onde havia reclamações das mulheres por causa do assédio que sofriam nas ruas. E tem um projeto, The Everyday Sexism Project (também no Facebook) que também me inspirou, além de uma página em espanhol, "No quero tu piropo, quiero tu respeto!" ('não quero a tua cantada, quero o teu respeito'). O fenômeno é geral e acontece em muitos países pelo mundo, não só no Brasil.

 



 
Fiquei curiosa e decidi saber mais sobre a realidade brasileira. A minha expectativa inicial era de que haveria tanto relatos positivos quanto negativos. Fiquei bastante surpresa com a intensidade dos relatos que vieram. Percebi que muitas mulheres não se sentiam seguras para postar as suas histórias, e decidi abrir espaço para que postassem de forma anônima. Aí vieram relatos ainda mais pesados, alguns abordando tentativas de estupro, assédio no trabalho, abuso na infância. A princípio eu tentei separar as coisas dizendo que aquele relato não era pertinente, mas percebi que aquelas mulheres tinham uma ânsia por contar as suas histórias e que elas não tinham nenhum outro lugar onde desabafar. Acabei mudando o enfoque da página e passei a acolher todo tipo de relato, não tive como negar a elas essa oportunidade. E, pensando bem, acaba tudo fazendo parte de uma mesma mentalidade, a de que um homem tem o 'direito' de se impor a uma mulher, seja por meio de um assobio, cantada, assédio, grosseria, ou por passar a mão sem permissão, até chegar ao estupro. É um continuum. Não quer dizer que quem faz uma dessas coisas fará todo o resto, apenas que o modo de pensar faz parte de um padrão.




O resultado são mais de 350 relatos até o momentos, a maioria deles anônimos, e a página tem mais de 2.500 curtidores. Isso proporcionou uma excelente troca de ideias, em que as mulheres podem manifestar apoio e aconselhar umas às outras. Há inclusive a presença e participação de vários homens solidários (e também algumas manifestações contrárias por parte de homens que não entendem e/ou não admitem perder o seu 'privilégio').  

Nestes poucos meses de existência já houve uma sutil mudança. Cada vez com mais frequência vem relatos de mulheres que conseguiram reagir e responder a um assédio que sofreram. E cada vez que isso acontece, as outras exultam e dão os parabéns.





Esse é um projeto que vai continuar, e vai se expandir. Já surgiram ideias de ações concretas, como distribuir cartões e folhetos para conscientizar as pessoas do problema. Existem algumas páginas que tem tudo a ver, "Responda uma cantada hoje", e a "Feminismo que cola". Também tem uma em inglês, "Hollaback" (literalmente "grite de volta") que forneceu algumas ideias boas




Para finalizar o assunto é preciso fazer a ressalva de que não se trata de querer proibir qualquer contato entre homens e mulheres em espaços públicos. Há alguns relatos positivos na página, mas que constituem em torno de 1 (um) % do total dos relatos que recebi. E esses tem um fator em comum - respeito. Foram abordagem muito respeitosas e que não fizeram com que a mulher se sentisse constrangida nem ameaçada. Um exemplo é o relato de número 334. Outro é esse - https://www.facebook.com/CantadaDeRua/posts/173228569488665

Teve também uma discussão sobre qual seria o limite do bom gosto para abordar uma mulher, considerando que o homem estivesse realmente interessado em conhecer melhor a mulher - https://www.facebook.com/CantadaDeRua/posts/171166753028180

Aos que estão com os dedos coçando para escrever comentários contra essa postagem, peço que leiam mais relatos na página e se informem melhor. E, principalmente, ativem a sua empatia, por favor. Mesmo um elogio pode estar fora de propósito por vários motivos. Vocês não sabem se ela é casada/tem namorado, não sabem se ela não acabou de sair de algum relacionamento e só quer ser deixada em paz, ou ela pode estar triste ou perturbada por algum outro motivo, ou então simplesmente está concentrada em seus afazeres. Há muitos bons motivos para deixar as mulheres em paz na rua. 

Sugiro a leitura do meu post anterior para melhor compreensão da história das cantadas, e também o post  A 'santa' e a 'puta' - a origem das cantadas de rua.


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sábado, 23 de fevereiro de 2013

Cantada, galanteio, assédio e agressão nas ruas


Já abordei o assunto anteriormente em uma postagem aqui no blog - A 'santa' e a 'puta' - a origem das cantadas de rua  mas percebo que ainda falta muito para podermos compreender o fenômeno.

Conversando com uma senhora de quase noventa anos, perguntei como era quando ela era jovem nas décadas de 40 e 50 em Porto Alegre. Era comum naquela época de passear pela rua do centro, a Rua da Praia, para fazer compras ou simplesmente espairecer. Ela me contou que acontecia de passarem por rapazes que diziam coisas como "Que linda!" e "Essa é a nora que a minha mãe queria!". Mas ficou claro que na época isso era dito em tom respeitoso e em nenhum momento causava mal estar às moças. Às vezes algum rapaz perguntava, "Posso lhe acompanhar?" e podia acontecer da moça aceitar. Se a moça dissesse que não, que estava com pressa, isso era imediatamente aceito e respeitado, sem caras feias. Eu perguntei se era possível que algum rapaz tivesse a ideia de ir à casa dos pais da moça para pedí-la e namoro, mas ela disse que isso talvez acontecesse no tempo da mãe dela (isso seria uns cem anos atrás). Perguntei se podia acontecer de aquilo acabar em namoro, e ela disse que por vezes isso acontecia, mas falou de um jeito que deu a entender que não era frequente.

A conclusão a que cheguei (posso estar errada) é que houve um tempo em que os galanteios de rua faziam parte do processo de cortejar. Temos que levar em consideração que as cidades eram menores, as pessoas muitas vezes se conheciam ou pelo menos sabiam de que família eram as pessoas com quem cruzavam. Suponho que um rapaz que chamasse a atenção de uma moça e conseguisse dela um olhar ou um sorriso pudesse pensar que valia a pena ir à casa dos pais dela para pedir para conhecê-la melhor. E quando essa fase acabou, o galanteio sobreviveu como uma atividade lúdica e social.

A minha postagem anterior já se situa na década de 70, onde uma moça que ficasse impassível diante de um assobio ou de um 'pssiu', fingindo que não tinha visto nem ouvido nada, era admirada e ganhava 'pontos' com isso, porque seria considerada uma moça 'direita', 'de família'. Nessa época, o silêncio da moça era algo positivo e era respeitado, o rapaz não insistiria em uma resposta, muito menos se ofenderia com a ausência dela.

Atualmente o que vemos é uma situação muito diferente.

Analisando os relatos na página do facebook, "Cantada de rua - conte o seu caso" fica claro que o que as mulheres passam na rua passa longe de galanteios e comentários inofensivos.

O que ocorre é que 99% das histórias que recebi na página relatam grosserias, assédios, agressões verbais e físicas, invasão do espaço das mulheres a tal ponto que muitas mulheres desistem de fazer exercícios como caminhar, correr ou andar de bicicleta. Houve um caso em que um mulher teve que desistir de um emprego por causa do assédio que sofria no trem, outro em que as mulheres são obrigadas a mudar de trajeto para um mais longo para evitar situações constrangedoras. 

O objetivo é muitas vezes constranger a mulher, não elogiar, e isso fica claro pelo contexto e pela reação posterior. Por exemplo, se a mulher não responde é cobrada grosseiramente e chamada de 'mal-educada' (sic!), se a mulher mostra que não gostou e se sentiu incomodada, às vezes é xingada e agredida. 
E o pior é que muito freqüentemente a mulher não tem o apoio dos circundantes e nem mesmo da própria família e amigos.

Enfim, a situação é séria, mas parece haver um ponto cego, em que a própria sociedade não reconhece o problema. Mães e pais continuam recomendando que as filhas ignorem as cantadas, como se ainda estivéssemos no tempo em que isso gerava admiração pela moça; recomendam que se vistam de forma mais discreta, quando já ficou claro em inúmeros relatos que a vestimenta não faz a menor diferença. E de qualquer forma, não importa se a mulher está com roupa curta (mulher não sente calor??), não é um bom motivo para tratá-la como se isso fosse um 'convite'. A moda mudou. 

O assunto é longo e ainda há muito a ser dito a respeito. Por enquanto vou pedir que quem teve a paciência de ler até aqui, acesse a página "Cantada de rua" e veja por si mesmo como as mulheres se sentem a respeito do que passam. 
[A página também tem outros tipos de relatos porque acabou se tornando o único espaço onde as mulheres podiam desabafar sobre as várias situações de abusos, assédios e até estupros.]

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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

A cortina de fumaça de Silas Malafaia

Na minha postagem anterior eu apontei para onde de fato o discurso de Silas Malafaia leva. É um discurso de ódio que infunde pavor na mente daqueles que não tem elementos suficientes para lidar com esse discurso de forma crítica e cética. Ele promove a desunião das famílias na medida em que as induz a rejeitar e maltratar os seus próprio filhos e filhas homossexuais. Mas sem um propósito seria um discurso vazio, mesmo que muito destrutivo. Ontem uma amiga e aluna (obrigada, Jaqueline!) me passou uma postagem de Rogério Beier que dá uma perspectiva mais ampla da questão:
- Silas Malafaia contra a laicização do Estado brasileiro
"Bertone Sousa, professor do curso de História da Universidade Federal do Tocantins, acaba de escrever um texto bastante interessante em seu blog sobre a entrevista de Silas Malafaia ao programa da Marília Gabriela, neste último domingo (03/02).

Em seu texto, Sousa faz inicialmente uma breve diferenciação entre Malafaia e os principais líderes e televangelistas brasileiros (Edir Macedo, R. R. Soares e Valdemiro Santiago), passa em seguida a falar de onde veio Silas Malafaia e para qual público ele fala, menciona suas alianças e estratégias para se diferenciar de outros líderes evangélicos com perfil semelhante ao seu (Estevam Hernandes e R. R. Soares), toca no assunto vital da necessidade dos holofotes estarem sempre voltados para si e, por isso, seu foco no discurso anti-homosexual como forma de ganhar projeção nacional, para finalmente falar de seu principal objetivo, isto é, “alcançar poder para intervir diretamente nas decisões políticas do país”.

Neste ponto ele insere o texto de Bertoni de Oliveira Souza, do qual vou postar apenas alguns trechos:
"Para ele, estar na mídia é uma questão de sobrevivência no ramo. Por isso ele precisava de algo que fizesse os holofotes estarem constantemente voltados para ele. E encontrou isso no discurso anti-homossexual. Comprando uma briga com o movimento LGBT (outro segmento que também ascendeu junto com os neopentecostais), Malafaia pretendia não apenas estar na mídia, mas fazer algo que nenhum outro líder protestante ainda conseguiu: unir os evangélicos em torno de um líder. E você apenas pode unir segmentos tão heterogêneos criando um inimigo, uma ameaça comum. Não importa que o inimigo seja imaginário, o importante é que as pessoas comprem a ideia. Nesse sentido, ele segue o exemplo de Pat Robertson nos Estados Unidos que, na década de 1960, criou a Maioria Moral (Moral Majority) para combater o feminismo, o divórcio, o aborto, o homossexualismo, a cultura secular."


"Malafaia usa o discurso contra o homossexualismo como plataforma para conseguir essa projeção em nível nacional entre os evangélicos. O objetivo vai além: alcançar poder para intervir diretamente nas decisões políticas do país, criando um grupo forte e coeso para fazer lobby junto ao Congresso, ao Senado e à própria presidência da República. A Igreja Católica sempre fez isso, mas nunca deram muita atenção. Suas idas a Brasília para discursar na Câmara ou na Esplanada dos Ministérios tem por objetivo criar essa ponte entre o público evangélico e o poder. Por isso ele tem criticado outros líderes religiosos por não o apoiarem em sua cruzada contra a legalização do casamento homossexual."


"Embora tenha conseguido avançar bastante em seus objetivos, Malafaia tem esbarrado na resistência dos evangélicos brasileiros de se unirem em torno de um líder. Por outro lado, à medida que ele e outros líderes protestantes avançam, ocupando vagas na Câmara junto à bancada evangélica e legislando em torno de princípios religiosos, a democracia e a laicidade do Estado tendem a perder com isso. A nova classe média brasileira é predominantemente desescolarizada e conservadora e tem sido interpelada por esses discursos a tornar-se militante de causas antisseculares. Após as eleições de 2010, esses líderes têm percebido a força de sua atuação junto a esses segmentos. A médio e longo prazo, as consequências sociais da ação de Malafaia e de outros líderes pentecostais no Brasil podem ser devastadoras. A junção de religião e política historicamente sempre foi uma ameaça às liberdades individuais e na jovem democracia brasileira é um fantasma que está sempre por perto."

 [Texto completo aqui:   "O que quer Silas Malafaia" ]
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 Também não podemos esquecer do livro
"A Estratégia" que ele traduziu, divulgou e distribuiu, e que é uma verdadeira "teoria de conspiração", atribuindo aos homossexuais a intenção de "dominar o mundo", algo muito similar ao que se fez com "Os Protocolos dos Sábios de Sião" (uma falsificação da polícia secreta russa) com relação aos judeus.
Vejam uma ótima refutação a esse livro feita por Sergio Viula.

 
O assunto foi abordado no site Eleições Hoje em  Por trás da cortina de fumaça homofóbica do Silas Malafaia :

 "Na edição Nº 84 referente ao mês de Maio/2012 da “Revista Fiel”, distribuída pela Editora Central Gospel que pertence à Associação Vitória em Cristo, o Pastor Silas Malafaia utiliza-se do seu habitual terrorismo psicológico para convencer os seus fiéis a pagarem a quantia de R$ 50 por um livro homofóbico e emprestarem tal livros para conhecidos e familiares.
Trata-se do livro “A Estratégia: O plano dos homossexuais para transformar a sociedade”, uma adaptação/tradução do livro “The Agenda”, do reverendo norte-americano Louis P. Sheldon."
"Assim como o reverendo Louis Sheldon que fazia sua cruzada homofóbica nos EUA e recebia “atrás das cortinas” dinheiro de corrupto, o que esconderá o Pastor Silas Malafaia atrás desta cortina de fumaça da sua cruzada homofóbica?"

[Leia Mais Em: http://www.eleicoeshoje.com.br/por-tras-da-cortina-de-fumaca-homofobica-do-silas-malafaia/#ixzz2Kalc0b9o  ]
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sábado, 9 de fevereiro de 2013

O discurso de ódio


Nessa polêmica toda sobre a entrevista do Silas Malafaia pela Marília Gabriela e o video do Eli Vieira falou-se inclusive que não devia ser relevante se a homossexualidade tem ou não alguma contribuição da genética. O próprio Eli concordou com isso e fez uma declaração posteriormente dizendo isso, e mesmo durante o video ele fez questão de dizer que a sexualidade humana é complexa e não existe determinismo genético.

De fato eu mesma penso que, mesmo que a homossexualidade fosse um escolha consciente, ela não deveria ser considerada um problema. Porque seria? As pessoas também optam por práticas como o BDSM, voyeurismo, etc, e a maioria das pessoas não acha que essas pessoas devem ser condenadas e/ou discriminadas.

Então, deveria ser irrelevante. 

Deveria.

Mas porque não é irrelevante? Porque foi tão importante desmentir as alegações de que a homossexualidade é 'apenas' um comportamento, sem nenhuma origem genética ou biológica?

É importantíssimo porque essa alegação é parte integrante do discurso de ódio do pregador.

Esse discurso veio muito bem camuflado, mas está lá. No final da entrevista com Marília Gabriela ele diz, "O Diabo quer destruir a família." No final da entrevista ele disse a que veio. Vamos ver qual é a 'lógica' por trás disso:



- A homossexualidade não tem origem interna, natural.

- Portanto ela não tem respaldo para existir com algo que é inerente à pessoa. 

- Segue-se que a 'causa' da homossexualidade deve ser externa. 

- Esse suposto fator externo seria um abuso na infância, ou uma 'escolha' consciente.


Até aqui não seria problema, e a discussão poderia muito bem se encerrar neste ponto. O problema surge aqui:

- O fator externo da 'causa' da homossexualidade pode ser encontrado no mundo sobrenatural.

- A homossexualidade é condenável porque é um fator que contribui para a 'destruição' da família.

- Os homossexuais são na verdade induzidos a ser assim por uma 'tentação demoníaca' .

- Os homossexuais por consequência são 'instrumentos' do Diabo para destruir a família (e o mundo).


Percebe-se que a sequência do 'raciocínio' coloca os homossexuais em uma categoria altamente demonizada. Na mente daquelas pessoa que acreditam em tudo que esse pregador diz, os homossexuais são pessoas que devem ser temidas, e assim eles são tomados de medo e pavor diante de qualquer pessoa que saibam que é homossexual. Isso é muito perigoso.

O medo leva a um comportamento extremamente irracional, e ao ódio. No momento em que se consegue induzir um grupo grande de pessoas a odiar veementemente uma categoria, temos uma situação em que a violência eclode com muita facilidade. Isso porque sempre haverá alguma mente desquilibrada que acredita piamente que é justificado reagir de forma violenta para se 'defender'. O problema é que está se defendendo de um problema totalmente imaginário.


Desmontar os argumentos contidos no discurso de ódio do pregador, seja em que nível for, é essencial para expor esse discurso pelo que é, um simples discurso de ódio.


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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Eli Vieira



Abro meu Facebook hoje e dou de cara com essa imagem hilária feita por Elano Oliveira.

Creio que ilustra muito bem o embate que vem sendo travado desde segunda-feira, quando o Eli postou o seu video contestando as afirmativas de Silas no campo da genética sobre a homossexualidade.




No momemento o video está com 1.130.911 de acessos.

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domingo, 3 de fevereiro de 2013

Egoismo, passividade e inconsequência


Na postagem de ontem falei sobre o perigo do 'pensamento mágico' por dar às pessoas uma sensação ilusória de 'proteção' e assim não tomam as devidas providências para se cuidar. Esqueci de mencionar um pensamento ainda mais nefasto que é a atitude fatalista  - "a hora dele(s)/dela(s) havia chegado", pensamento que reforça ainda mais a tendência a não tomar precauções.

Hoje foi bastante gratificante ver que na Zero Hora havia pelo menos quatro publicações que falavam coisas muito parecidas com o que eu havia exposto ontem. Vou colocar os links abaixo, mas como alguns só podem ser acessados por assinantes do jornal, vou postar alguns parágrafos que achei particularmente interessantes e ilustrativos.


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"Ainda sob o impacto da tragédia que matou pelo menos 236 jovens em Santa Maria, especialistas consultados por ZH apontam que falta atitude ao brasileiro. Não sugerem, é óbvio, que cada pessoa se invista em fiscal do vizinho. Mas a passividade pode ser fatal. Abdicar do exercício da cidadania é compactuar com a negligência, o desapego à lei, a corrupção. É estimular a burla dos gananciosos que descumprem normas na busca do lucro fácil, como forrar a boate com uma espuma barata e de baixa qualidade, que expele fumaça venenosa se pegar fogo."
"DaMatta diz que o Brasil contraiu um pacto com o ente apelidado de Sobrenatural de Almeida, segundo o qual “não vai dar nada”, “nada acontecerá de ruim” e pequenas transgressões serão perdoadas. É por isso que se dirige acima do limite de velocidade, não se é cordial nas filas, solta-se sputniks em uma boate superlotada com arquitetura de gaiola. "

Uma sociedade que apenas reage
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"Além da omissão do cidadão e da incapacidade permissiva do Estado, há outro ingrediente preocupante: não se assume as próprias responsabilidades. Segundo o cientista político e sociólogo Emil Sobottka, para o brasileiro, o diabo é sempre o próximo: atribui aos outros posturas negativas que tem, mas jamais admite.

– Experimente chamar a atenção de um motorista que está falando no celular. Ele certamente vai lhe destratar – previne o cientista político."

Pouco se pensa no coletivo
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"No Brasil, é corrente terceirizar toda a culpa na inação dos poderes públicos, mas a origem dos acidentes reside muitas vezes na incúria do cidadão que administra, de alguma forma, situações de risco. O motorista que ultrapassa em local sem visibilidade na estrada, torcendo para que não venha um carro em sentido contrário, está a dois segundos de matar a sua família e a de outros. Não há fatalidade nenhuma aí, como não há azar em um pitbull que dilacera uma criança ou no barraco mantido em área irregular soterrado pela lama na chuvarada. Existe é uma propensão nacional para desdenhar da morte à espreita."
"Por fim, há o individualismo, traço ocidental exacerbado no Brasil, no qual a vontade individual se sobrepõe ao direito coletivo, e que abrange desde o sujeito inconveniente que põe o som a todo o volume, desprezando os vizinhos, até o extremo de quem suborna ou se deixa subornar. No individualismo está também o germe da obtenção da vantagem a qualquer preço que contamina a vida em sociedade e desenvolve a perversa noção de que investir em segurança é um mal desnecessário."

O coquetel fatal não é fatalidade
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"O conjunto de inépcias que emerge da investigação sobre a tragédia de Santa Maria evidencia um dos grandes males do país, que é a burla rotineira de normas legais e recomendações técnicas por pessoas interessadas em auferir vantagens. Ocorre em todos os setores da sociedade, da administração pública à portaria do edifício. É o lado sombra do famoso jeitinho brasileiro, já incorporado à identidade cultural do nosso povo. Às vezes, nos orgulhamos desse artifício que expressa a nossa criatividade, a nossa tolerância, a nossa cordialidade ou a nossa capacidade de improvisar. Mas, em muitas situações, ele nos envergonha, pois é usado como cobertura para a malandragem, para a corrupção e para a ruptura de normas sociais, que invariavelmente causam prejuízos para terceiros."

"O país convive historicamente com a cultura da irresponsabilidade – e, infelizmente, a maioria de nós tem sido conivente com ela. Até costumamos denunciar e cobrar irregularidades de governantes, políticos e agentes públicos, mas nem sempre percebemos que a incúria e a inação espraiam-se pelos estratos mais básicos da sociedade. O lixo fora da lixeira é um indicativo não apenas de que alguém descumpriu uma regra de cidadania, mas também de que a tolerância vai estimular o delito e a impunidade. O carro estacionado em local não permitido indica não apenas que um condutor infringiu a lei, mas também que o agente público descumpriu a sua atribuição de fiscalizar. A expressão “não dá nada”, que se ouve com extrema frequência no cotidiano brasileiro, transformou-se num verdadeiro atestado nacional de permissividade."

O PIOR DO JEITINHO

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sábado, 2 de fevereiro de 2013

"Mais sorte que juízo" - e o perigo do 'pensamento mágico'.

Essas foram as palavras de um oficial do Corpo de Bombeiros sobre a incidência de tragédias como a de Santa Maria  na terça feira dia 29 de janeiro.


"Há milhares de cidades e de boates, mas este fato foi em Santa Maria. Essas outras (cidades e boates) têm mais mais sorte do que juízo. Num universo de milhares ocorreu em Santa Maria".
Hoje, 02 de fevereiro essas palavras foram repetidas por Claudia Laitano em sua coluna na Zero Hora.


"Ao dizer que os frequentadores de casas noturnas no Brasil têm “mais sorte que juízo”, o subcomandante do 4º Comando Regional do Corpo de Bombeiros, major Gérson da Rosa Pereira, acabou cunhando a frase que sintetiza o tipo de comportamento que causou, direta ou indiretamente, o desastre do último domingo. Mais do que isso: major Gérson expressou, inadvertidamente, uma verdade íntima nacional – um sentimento que todo brasileiro, em maior ou menor intensidade, já terá sentido alguma vez na vida, ou irá sentir.

Trata-se de uma espécie de modus operandi da nação. “Mais sorte que juízo” poderia substituir o “Ordem e Progresso” na bandeira e em todos os símbolos nacionais. Podia estar estampado nas notas de real, na entrada de hospitais e escolas, nos tribunais, em outdoors nas estradas, na letra do hino: “Onde te falta o tento/ O lábaro ostentas estrelado”.

Sorte é o que não nos falta mesmo. Não precisamos nos preocupar com terremotos, o que nos livra da chateação de planejar prédios que resistem a tremores de terra. No auge do inverno, o frio jamais é acompanhado daquelas inconvenientes tempestades de neve que dão trabalho e exigem organização. Temos sorte porque ondas terríveis não arrebentam as nossas praias e porque o sol brilha quase o ano todo. Países solares costumam ser povoados por gente que não se deprime por qualquer coisa e que se acredita abençoada por morar em um lugar onde tudo o que se planta cresce e floresce.

O problema com a sorte é que ela não é infalível. Ninguém se responsabiliza pelo seu fornecimento regular e não temos de quem cobrar quando ela nos falta. É por isso que muitos países não tão afortunados quanto o nosso aprenderam a contar menos com a sorte do que com o juízo – que nada mais é do que tudo aquilo que podemos providenciar para não dependermos unicamente dos humores do acaso. O juízo, porém, não vem apenas de cima para baixo, na forma de leis muito boas, mas que ninguém respeita. Se o juízo não é prezado por todos, acaba valendo tanto quanto um trevo de quatro folhas na mão de quem não tem sorte.

Talvez por isso não foi apenas comoção o que se viu no Brasil nos últimos dias: foi pânico. O incêndio em Santa Maria assustou o país porque todos sabem que a irresponsabilidade dos donos daquela boate e daquelas autoridades que deveriam fiscalizá-la não é uma exceção, mas a regra – e não apenas em casas noturnas. Vivemos em um país em que não podemos confiar em edifícios aparentemente sólidos, em parques de diversão aparentemente seguros, em hospitais aparentemente bem equipados, em creches com piscina, em motoristas – e em quem deveria nos proteger. Somos como um personagem de videogame desviando de arapucas em série: pisos que desaparecem, pontes que pegam fogo, tetos que desabam. Às vezes, temos sorte, mas nem sempre.

E, enquanto apenas a sorte nos parecer o bastante, o som de celulares tocando sobre o corpo de meninos e meninas que podiam ser nossos filhos – que eram nossos filhos – vai continuar nos assombrando. Como um lamento dilacerante, mas também como um pedido de explicações."
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Eu mesma venho pensando há tempos como tudo é feito no improviso no Brasil. A minha filha comentou há pouco tempo como tudo no Brasil é feito de forma amadorística, parece que nada é profissional. Por um lado temos pessoas interessadas simplesmente em gastar o mínimo e ganhar o máximo, e há pouco controle e fiscalização sobre esses especuladores psicopatas que exploram a falta de conhecimento e boa fé dos outros.

Mas eu também venho pensando em como a tendência ao 'pensamento mágico' influi nas atitudes das pessoas. O povo brasileiro tende muito ao misticismo em suas mais variadas formas, o que frequentemente resulta em crenças como "pensamento positivo", "energias", "corpo fechado", "proteção divina", etc. Isso leva a uma atitude de "isso não vai acontecer", "tudo vai dar certo", "estou protegido".

Isso é MUITO PERIGOSO! Parece muito bonito ter toda essa fé, mas o resultado pode ser desastroso quando não se toma os devidos cuidados. 


[OBS - Nada contra a pessoa ir em frente com alguma coisa sem ter total certeza, com um pouco de 'fé' (=confiança), desde que tenha antes disso feito tudo que estava ao seu alcance para garantir o resultado.]

Mas o que se vê frequentemente são pessoas se arriscando muito, indo 'na cara e na coragem', de qualquer jeito, sem ter tomado todas as precauções que podiam, sem planejar. As pessoas se orgulham do 'jeitinho brasileiro' e da capacidade de improvisar, se orgulham de ter 'fé', e nessa convicção de sua invulnerabilidade se metem em situações que podem acabar em tragédia. E quando isso acontece, a perplexidade, "Como isso pode acontecer? Eu tinha tanta fé!" E muita gente já se deu muito mal e até morreu por causa dessa confiança cega de que estava 'protegida' por alguma 'força' qualquer.

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