sábado, 3 de agosto de 2013

Desabafo de uma trans*

Acabei de ver isso no Facebook e pedi permissão à autora, Daniela Andrade, para divulgar aqui.

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Tantas pessoas trans* confessam para mim que querem se matar, que estão pensando em suicídio, que chego à conclusão de que talvez não haja uma pessoa trans* que não tenha cogitado essa hipótese ao longo da sua vida.

Os motivos sempre se encontram:

"Meus pais não me aceitam".
"A sociedade não me aceita".
"Eu queria fazer todas as cirurgias para que ninguém descobrisse que sou trans*".
"Eu estou enlouquecendo sem poder me hormonizar".
"Eu não vou conseguir viver essa vida sem essa cirurgia".
"Ninguém vai gostar mesmo de mim, por que eu sou trans*".
"Ninguém vai mesmo se importar se eu me matar, quem se importa para as pessoas trans*?"

Essa semana uma mulher trans* me confessou que não aguentava mais trabalhar onde trabalhava, ela é obrigada a usar o banheiro de deficientes físicos pois as mulheres cis reclamaram da presença dela no banheiro feminino. E outros funcionários perguntam para a chefe dela: "O que essa daí é? Não é mulher por que se parece com homem, mas também não pode ser homem por que homem não tem seios". Fazem piadas, ridicularizam, e ela disse que chegou a um ponto que não aguenta mais. Está entregando os pontos.

Uma outra mulher trans* adolescente me disse que está pensando em suicídio, pois foi proibida de se hormonizar pelos seus pais e sente que não aguentará a vida vendo seu corpo transformar-se em algo que ela não reconhece como seu.

Onde encontrar força com o peso do mundo desabando sobre você? Com toda uma sociedade dizendo que você não tem direito de ser um ser humano? Tratando você como ser abjeto?

Eu já pensei muito em suicídio, a vida toda, tentei também o suicídio o que fez meus pais me levarem (mais uma vez) no macumbeiro, no padre, no psicólogo, no psiquiatra. Uns diziam que era encosto, outros diziam que era frescura, outros diziam que era um trauma, outros diziam que era falta de certa substância no cérebro.

Não era nada disso, era apenas a vontade de continuar a ser eu mesma: negada e repreendida.

Penso em suicídio muitas vezes, da última vez pensei em me jogar da janela do sétimo andar onde eu moro; aí procurei o psiquiatra e zás, empanturrei-me com mais uma marca de mais um antidepressivo e mais outro ansiolítico. Parece que para eles tudo se resolve com medicação. A realidade é muito opressiva? Temos a droga certa para resolver isso.

De vez em sempre não sinto vontade de sair de casa, nem para ir para mais uma entrevista de emprego onde sei que o fato de eu ser trans* vai pesar consideravelmente - e na maioria dos casos, fator impeditivo. Não dá para negar isso quando vejo homens cis na mesma área e cargo desempregarem-se hoje e encontrarem uma vaga amanhã nessa área em que estou, mesmo com menos currículo. A falta de vontade é por saber que não haverá surpresas, a transfobia está em toda parte e é sempre preciso fingir ou encontrar outros artifícios para tentar fugir ou enfentrar.

Com o tempo passei a fazer adaptações: andar com fone de ouvido para não precisar ouvir as piadinhas e os traquejos transfóbicos da claque: "olha o traveco", "isso aí é mulher ou homem?" e óculos escuro para lidar melhor com os olhares inquisidores e acusatórios. Muitos não conseguem disfarçar do incômodo que é para eles estarem respirando o mesmo ar de uma pessoa trans* em um mesmo espaço. Algumas vezes cheguei a usar óculos escuro até à noite - deveriam pensar que eu estava muito louca de droga. Mas aí o óculos quebrou e não quis comprar outro, passei a fingir que as pessoas não me olhavam, mas se o olhar se fixava, encarava. E não são poucas! É preciso uma coragem hercúlea de quem sai pronta para enfrentar o exército transfóbico.

Às vezes, pensar em suicídio é como uma brisa, uma terapia para os dias mais difíceis. E não recrimino o suicídio em si, pois acho que o suicídio é também uma coerção social, como analisou Durkheim em sua obra sobre esse fenômeno. Como não pensar em suicídio quando a sociedade está o tempo todo colocando em xeque o seu gênero, a sua humanidade? Como não pensar em suicídio sabendo que as mais simples tarefas para as demais pessoas, como por exemplo, esperar ser tratado pelo nome que você diz que é seu, se torna um fardo quando você é trans*? Como não pensar em suicídio vivendo em uma sociedade que genitaliza as pessoas e transforma homens em pênis e mulheres em vaginas?

Não dá para não pensar e proibir as pessoas trans* de fazê-lo - e, sequer, é uma surpresa pra mim quando mais uma pessoa trans* me diz que está pensando em se matar. Como não se matar quando tantas vezes você de fato já está morta, vivendo uma vida em que todos olham através de você, fazendo o máximo possível para fingir que você não existe, repudiando a sua identidade, negligenciando seus direitos e simplesmente não falando sobre as opressões cissexistas tão enormes contra as pessoas trans*? Como não pensar em suicídio quando parece que não há para onde você virar ou onde buscar ajuda para que consiga se entender, e onde possa obter empatia - a mesma que todo ser humano precisa. Onde não seja recriminada, onde seja acolhida, onde parem de questionar por que você se diz ser isso ou aquilo.

Pensar em suicídio faz parte da vida de muitas pessoas trans*, muitas realmente o levam a cabo, nos EUA 42% das pessoas trans* já tentaram o suicídio. No Brasil não sabemos, não há quaisquer dados sobre a população trans*, o IBGE perguntou em sua pesquisa sobre pessoas homossexuais na casa, mas nenhuma pergunta sobre pessoas trans*, somos invisíveis para o governo, para a sociedade: nossos suicídios também são invisíveis, sobretudo os diários, que nos matam à conta-gotas, diariamente.
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Até quando essa insensibilidade para com quem é trans*? 
Cadê a compaixão?


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