quinta-feira, 18 de julho de 2013

Pelo direito de NÃO ter filhos

Há tempos que vejo isso sendo discutido, e sempre vejo as reclamações dos que não querem ter filhos por causa da pressão familiar e social por causa disso. Hoje me deparei com um desabafo muito contundente, e achei uma boa ideia divulgar. Foi postado no Facebook por Marison Lacerda.





Não querer filhos, espermograma solidário, câncer de próstata e respeitar as diferenças







Giselle e eu nunca quisemos ter filhos. Gostamos de crianças, crianças gostam de nós, tratamos bem, mas nunca de fato tivemos vontade.

Entendemos bem o que significa ser pai ou mãe, sabemos que há coisas boas e ruins no meio, não temos medo de desafio. Só não temos é interesse mesmo.

Só que isso é constantemente cobrado por familiares, amigos, colegas de trabalho e ultimamente, médicos. Mesmo que não venhamos a mudar pela vontade alheia, ainda é um pouco chato escutar algumas coisas de tempos em tempos e ainda pior quando o modo de pensar dos outros impede que façamos algo que julgamos importante para nós.

Uma das cobranças mais pesadas das recentes foi a Giselle escutar que está doente pois não cumpriu com o papel de mulher que é ser mãe. Além de desagradável, desnecessário, não solicitado, e preconceituoso, é machista.

Há um ano e meio Giselle descobriu que tem esse problema de saúde. Passamos por diversos médicos, uns 5. Ninguém a quis operar e as únicas propostas de tratamento foram coisas como "vá levando a dor e os efeitos colaterais" ou "vamos trocar seu anticoncepcional que deve melhorar um pouquinho". E foi só um pouquinho mesmo. Uma das ginecologistas ainda a tratou como um nada pela possibilidade de não ter filhos. Como se a invalidasse como um ser humano. Felizmente, meio que por instinto, a primeira coisa que falei depois dela comentar do diagnóstico foi que é muito mais que a possibilidade de ser mãe. E é mesmo: é uma profissional competente, se formou com bastante mérito e esforço, é uma excelente filha além de ser uma pessoa maravilhosa que me faz querer ser melhor para merecê-la pelo máximo de tempo. Foram algumas das coisas que apontei. Felizmente ajudou um pouco a ela se recompor.

Fui recentemente ao urologista para fazer o preventivo de câncer de próstata. Não tinha certeza de quando era indicado, já havia ouvido falar que é a partir dos 35 e de muitos que dos 40 anos, mas como um tio teve recentemente e passou pelas dificuldades típicas do tratamento, preferi não arriscar e fui fazer com 38. O médico mesmo falou que operou um paciente com 34 anos, mas todos os homens da família, incluindo filhos mais velhos, tiveram câncer. De qualquer forma, façam o exame quando fizerem 40, parem de achar que afeta a sexualidade e temer algo tão besta, tão rápido.

O urologista perguntou se tinha e se queria ter filhos. Respondi não para ambas, ele não concordou, mas não insistiu muito. Ao propor os exames, disse que normalmente indica um espermograma numa primeira consulta. Falei que não era necessário, mas poucos segundos depois voltei atrás e falei que faria. Pensei que se por acaso fosse infértil, facilitaria todas as decisões em relação ao tratamento da Giselle um bocado. Teríamos mais argumentos para combater o grande receio dos médicos em fazer uma cirurgia que possa afetar a fertilidade. Fora que a cobrança não cairia apenas sobre a minha esposa. Mulheres sofrem ainda mais com isso, como se não fossem necessário ambos sexos para uma gravidez e como se os homens fossem sempre férteis. Descobri que sou estéril. Mais que isso, sou surround 5.1!

Felizmente, o meu PSA está bem baixo e não tenho câncer de próstata. A questão da minha infertilidade não tem importância alguma, exceto por agora minha esposa não ser automaticamente culpada sozinha por não termos filhos.

Na sexta, Giselle vai passar por cirurgia incapacitando-a de ter filhos também. Para mim, a única coisa importante é ela sair melhor do que está agora. Parar de sentir dor a todo momento, ter mais ânimo para viver, dormir melhor, se livrar de vários dos efeitos colaterais que possui pelo tratamento que vem fazendo.

Portanto, decidimos expor nossa vida aqui para que as pessoas entendam que não teremos filhos, cessem as cobranças e entendam que estamos bem com essa situação.

Entendemos até as cobranças, somos cobrados normalmente por pessoas que se importam conosco. Sei que podem ser com boa intenção e sabemos que muitas pessoas adoram ter filhos e por isso acreditam que é o melhor para todos. Nunca assumam isso. Não funciona assim e sempre poderá gerar problemas e incomodar os outros.

Respeitar as diferenças é fundamental e inclusive indispensável para a humanidade continuar a se desenvolver. Avançamos muito mais graças a todos que pensaram diferente que por seguirmos regras, leis, dogmas e ideias alheias. A humanidade não será condenada por isso. Sempre teremos novos seres humanos sendo gerados, pois pessoas também pensarão diferente de nós.

E respeito não pode ter pré-requisito. Não deve estar ligado ao fato de você concordar ou não com a pessoa. Respeite pessoas que preferem ficar sozinhos, com parceiros, com vários parceiros, com parceiros de outros sexos. Não importa e provavelmente não afetará sua vida em nada, então aproveite e respeite todos mesmo. Sempre temos algo diferente em nós. Gostaria de ser desrespeitado por ter aquela manchinha que só você tem debaixo do seu queixo?

Podem compartilhar. De repente mais pessoas com decisões parecidas serão respeitadas. Conhecemos pelo menos três casais que decidiram o mesmo e também escutam demais. — com Gi Lacerda.



2 comentários:

  1. Oi, Äsa!

    Este texto já é meio antiguinho, né? Eu me lembro dele, o li todo na época e tenho que dizer infelizmente: Este tipo de situação acontece até hoje!
    O que precisa é conscientizar mais a ter limites quando for questionar as pessoas sobre alguma coisa (principalmente se for pessoal) e o quanto é chato ouvir esta pergunta... Porque até eu tenho que ouvir "por quê você não tem filhos?".

    Beijos !!!

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    1. Sim, as pessoas tem que aprender que não é da conta delas.
      Beijão!

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