sábado, 2 de fevereiro de 2013

"Mais sorte que juízo" - e o perigo do 'pensamento mágico'.

Essas foram as palavras de um oficial do Corpo de Bombeiros sobre a incidência de tragédias como a de Santa Maria  na terça feira dia 29 de janeiro.


"Há milhares de cidades e de boates, mas este fato foi em Santa Maria. Essas outras (cidades e boates) têm mais mais sorte do que juízo. Num universo de milhares ocorreu em Santa Maria".
Hoje, 02 de fevereiro essas palavras foram repetidas por Claudia Laitano em sua coluna na Zero Hora.


"Ao dizer que os frequentadores de casas noturnas no Brasil têm “mais sorte que juízo”, o subcomandante do 4º Comando Regional do Corpo de Bombeiros, major Gérson da Rosa Pereira, acabou cunhando a frase que sintetiza o tipo de comportamento que causou, direta ou indiretamente, o desastre do último domingo. Mais do que isso: major Gérson expressou, inadvertidamente, uma verdade íntima nacional – um sentimento que todo brasileiro, em maior ou menor intensidade, já terá sentido alguma vez na vida, ou irá sentir.

Trata-se de uma espécie de modus operandi da nação. “Mais sorte que juízo” poderia substituir o “Ordem e Progresso” na bandeira e em todos os símbolos nacionais. Podia estar estampado nas notas de real, na entrada de hospitais e escolas, nos tribunais, em outdoors nas estradas, na letra do hino: “Onde te falta o tento/ O lábaro ostentas estrelado”.

Sorte é o que não nos falta mesmo. Não precisamos nos preocupar com terremotos, o que nos livra da chateação de planejar prédios que resistem a tremores de terra. No auge do inverno, o frio jamais é acompanhado daquelas inconvenientes tempestades de neve que dão trabalho e exigem organização. Temos sorte porque ondas terríveis não arrebentam as nossas praias e porque o sol brilha quase o ano todo. Países solares costumam ser povoados por gente que não se deprime por qualquer coisa e que se acredita abençoada por morar em um lugar onde tudo o que se planta cresce e floresce.

O problema com a sorte é que ela não é infalível. Ninguém se responsabiliza pelo seu fornecimento regular e não temos de quem cobrar quando ela nos falta. É por isso que muitos países não tão afortunados quanto o nosso aprenderam a contar menos com a sorte do que com o juízo – que nada mais é do que tudo aquilo que podemos providenciar para não dependermos unicamente dos humores do acaso. O juízo, porém, não vem apenas de cima para baixo, na forma de leis muito boas, mas que ninguém respeita. Se o juízo não é prezado por todos, acaba valendo tanto quanto um trevo de quatro folhas na mão de quem não tem sorte.

Talvez por isso não foi apenas comoção o que se viu no Brasil nos últimos dias: foi pânico. O incêndio em Santa Maria assustou o país porque todos sabem que a irresponsabilidade dos donos daquela boate e daquelas autoridades que deveriam fiscalizá-la não é uma exceção, mas a regra – e não apenas em casas noturnas. Vivemos em um país em que não podemos confiar em edifícios aparentemente sólidos, em parques de diversão aparentemente seguros, em hospitais aparentemente bem equipados, em creches com piscina, em motoristas – e em quem deveria nos proteger. Somos como um personagem de videogame desviando de arapucas em série: pisos que desaparecem, pontes que pegam fogo, tetos que desabam. Às vezes, temos sorte, mas nem sempre.

E, enquanto apenas a sorte nos parecer o bastante, o som de celulares tocando sobre o corpo de meninos e meninas que podiam ser nossos filhos – que eram nossos filhos – vai continuar nos assombrando. Como um lamento dilacerante, mas também como um pedido de explicações."
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Eu mesma venho pensando há tempos como tudo é feito no improviso no Brasil. A minha filha comentou há pouco tempo como tudo no Brasil é feito de forma amadorística, parece que nada é profissional. Por um lado temos pessoas interessadas simplesmente em gastar o mínimo e ganhar o máximo, e há pouco controle e fiscalização sobre esses especuladores psicopatas que exploram a falta de conhecimento e boa fé dos outros.

Mas eu também venho pensando em como a tendência ao 'pensamento mágico' influi nas atitudes das pessoas. O povo brasileiro tende muito ao misticismo em suas mais variadas formas, o que frequentemente resulta em crenças como "pensamento positivo", "energias", "corpo fechado", "proteção divina", etc. Isso leva a uma atitude de "isso não vai acontecer", "tudo vai dar certo", "estou protegido".

Isso é MUITO PERIGOSO! Parece muito bonito ter toda essa fé, mas o resultado pode ser desastroso quando não se toma os devidos cuidados. 


[OBS - Nada contra a pessoa ir em frente com alguma coisa sem ter total certeza, com um pouco de 'fé' (=confiança), desde que tenha antes disso feito tudo que estava ao seu alcance para garantir o resultado.]

Mas o que se vê frequentemente são pessoas se arriscando muito, indo 'na cara e na coragem', de qualquer jeito, sem ter tomado todas as precauções que podiam, sem planejar. As pessoas se orgulham do 'jeitinho brasileiro' e da capacidade de improvisar, se orgulham de ter 'fé', e nessa convicção de sua invulnerabilidade se metem em situações que podem acabar em tragédia. E quando isso acontece, a perplexidade, "Como isso pode acontecer? Eu tinha tanta fé!" E muita gente já se deu muito mal e até morreu por causa dessa confiança cega de que estava 'protegida' por alguma 'força' qualquer.

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