sábado, 23 de fevereiro de 2013

Cantada, galanteio, assédio e agressão nas ruas


Já abordei o assunto anteriormente em uma postagem aqui no blog - A 'santa' e a 'puta' - a origem das cantadas de rua  mas percebo que ainda falta muito para podermos compreender o fenômeno.

Conversando com uma senhora de quase noventa anos, perguntei como era quando ela era jovem nas décadas de 40 e 50 em Porto Alegre. Era comum naquela época de passear pela rua do centro, a Rua da Praia, para fazer compras ou simplesmente espairecer. Ela me contou que acontecia de passarem por rapazes que diziam coisas como "Que linda!" e "Essa é a nora que a minha mãe queria!". Mas ficou claro que na época isso era dito em tom respeitoso e em nenhum momento causava mal estar às moças. Às vezes algum rapaz perguntava, "Posso lhe acompanhar?" e podia acontecer da moça aceitar. Se a moça dissesse que não, que estava com pressa, isso era imediatamente aceito e respeitado, sem caras feias. Eu perguntei se era possível que algum rapaz tivesse a ideia de ir à casa dos pais da moça para pedí-la e namoro, mas ela disse que isso talvez acontecesse no tempo da mãe dela (isso seria uns cem anos atrás). Perguntei se podia acontecer de aquilo acabar em namoro, e ela disse que por vezes isso acontecia, mas falou de um jeito que deu a entender que não era frequente.

A conclusão a que cheguei (posso estar errada) é que houve um tempo em que os galanteios de rua faziam parte do processo de cortejar. Temos que levar em consideração que as cidades eram menores, as pessoas muitas vezes se conheciam ou pelo menos sabiam de que família eram as pessoas com quem cruzavam. Suponho que um rapaz que chamasse a atenção de uma moça e conseguisse dela um olhar ou um sorriso pudesse pensar que valia a pena ir à casa dos pais dela para pedir para conhecê-la melhor. E quando essa fase acabou, o galanteio sobreviveu como uma atividade lúdica e social.

A minha postagem anterior já se situa na década de 70, onde uma moça que ficasse impassível diante de um assobio ou de um 'pssiu', fingindo que não tinha visto nem ouvido nada, era admirada e ganhava 'pontos' com isso, porque seria considerada uma moça 'direita', 'de família'. Nessa época, o silêncio da moça era algo positivo e era respeitado, o rapaz não insistiria em uma resposta, muito menos se ofenderia com a ausência dela.

Atualmente o que vemos é uma situação muito diferente.

Analisando os relatos na página do facebook, "Cantada de rua - conte o seu caso" fica claro que o que as mulheres passam na rua passa longe de galanteios e comentários inofensivos.

O que ocorre é que 99% das histórias que recebi na página relatam grosserias, assédios, agressões verbais e físicas, invasão do espaço das mulheres a tal ponto que muitas mulheres desistem de fazer exercícios como caminhar, correr ou andar de bicicleta. Houve um caso em que um mulher teve que desistir de um emprego por causa do assédio que sofria no trem, outro em que as mulheres são obrigadas a mudar de trajeto para um mais longo para evitar situações constrangedoras. 

O objetivo é muitas vezes constranger a mulher, não elogiar, e isso fica claro pelo contexto e pela reação posterior. Por exemplo, se a mulher não responde é cobrada grosseiramente e chamada de 'mal-educada' (sic!), se a mulher mostra que não gostou e se sentiu incomodada, às vezes é xingada e agredida. 
E o pior é que muito freqüentemente a mulher não tem o apoio dos circundantes e nem mesmo da própria família e amigos.

Enfim, a situação é séria, mas parece haver um ponto cego, em que a própria sociedade não reconhece o problema. Mães e pais continuam recomendando que as filhas ignorem as cantadas, como se ainda estivéssemos no tempo em que isso gerava admiração pela moça; recomendam que se vistam de forma mais discreta, quando já ficou claro em inúmeros relatos que a vestimenta não faz a menor diferença. E de qualquer forma, não importa se a mulher está com roupa curta (mulher não sente calor??), não é um bom motivo para tratá-la como se isso fosse um 'convite'. A moda mudou. 

O assunto é longo e ainda há muito a ser dito a respeito. Por enquanto vou pedir que quem teve a paciência de ler até aqui, acesse a página "Cantada de rua" e veja por si mesmo como as mulheres se sentem a respeito do que passam. 
[A página também tem outros tipos de relatos porque acabou se tornando o único espaço onde as mulheres podiam desabafar sobre as várias situações de abusos, assédios e até estupros.]

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