quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Um homem feminista em 1869


Quem pensa que o feminsmo é coisa dos anos 60 se engana muito. É muito mais antigo que isso, e sempre houve também homens que empatizavam e compreendiam a necessidade de tratar as mulheres como gente.

Abaixo reproduzo a resenha do livro A sujeição das mulheres, de John Stuart Millm feita por Fernanda Belo Gontijo.

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Feminismo genuíno

Fernanda Belo Gontijo
 
A sujeição das mulheres, de John Stuart Mill


John Stuart Mill (1806-1873) foi um defensor dos direitos liberais e um homem preocupado com o bem-estar individual e social da humanidade. Suas idéias utilitaristas a favor da maximização do bem-estar deram-lhe destaque no meio filosófico e político. Em consonância com os seus ideais liberais e utilitaristas estão as suas idéias em favor da igualdade de gênero, sendo um dos poucos filósofos de seu tempo a defender ativamente os direitos das mulheres.

Em meados da década de 1860, como membro do Parlamento inglês, apresentou uma petição assinada por 1500 mulheres solicitando o direito nacional de voto das mulheres, cujo resultado foi um massacrante fracasso: 194 votos contra e 73 a favor. No entanto, Mill não desistiu e publicou pouco tempo depois, em 1869, A Sujeição das Mulheres, uma das mais elegantes e claras defesas da igualdade de gênero e dos direitos das mulheres feitas até hoje. Escrita por um homem, o seu objetivo é demonstrar em quatro capítulos o quanto é indefensável a subordinação do sexo feminino ao masculino.

Nos anos seguintes à publicação do livro muitos frutos já eram colhidos como consequência da luta feminista, das quais, com certeza, as idéias de Mill defendidas nessa obra muito contribuíram. O sufrágio universal foi legalizado em muitos países, a empregabilidade feminina, mesmo em condições menos favoráveis que a dos homens, foi notadamente aumentada e a inserção da mulher no ensino básico e superior era uma realidade crescente.

No prefácio do livro, Bernardo de Vasconcelos (Universidade da Madeira) nos informa mais detalhadamente sobre esses avanços e fornece um breve panorama da história das lutas e conquistas femininas, sobretudo na Inglaterra, país em que as idéias de Mill e de mulheres como Mary Wollstonecraft (1759-1797) foram importantes para a emancipação feminina.

O primeiro capítulo do livro é dedicado à defesa da ideia de que a sujeição das mulheres aos homens é arbitrária. Antes de esta sujeição ser estabelecida, não foi dado às mulheres o benefício da dúvida. Foi-lhes negado o direito de exercer as mesmas funções que os homens, de modo a testar a eficácia dos papéis sociais, o que permitiria talvez concluir que a submissão feminina traria maior benefício a ambos. As razões para o estabelecimento de tal costume nem mesmo foram discutidas e ponderadas. Prevaleceu a lei do mais forte e o sexo mais forte fisicamente, o masculino, subjugou o mais fraco, o feminino, exigindo a sua devoção e afeição.

Mas a força dos costumes é tamanha que apesar das diversas conquistas sociais que forçaram o abandono da lei do mais forte e, consequentemente, da escravatura, a sujeição das mulheres se manteve como uma servidão disfarçada de gratidão e justa obrigação. A quem argumente que essa sujeição não é imposta pela força e é voluntariamente aceite, sendo as mulheres co-responsáveis pela sua condição; mas o contra-exemplo de que muitas não o aceitam e lutam contra esse costume prova que esse argumento não funciona.
Mill desmente que a sujeição das mulheres aos homens seja natural. Esta é uma mentira determinista e alimentada por uma opressão tão infundada quanto qualquer outra. Uma das maiores conquistas das sociedades modernas foi perceber que os seres humanos são livres para usar as suas faculdades e oportunidades para viverem conforme desejarem, o que deveria aplicar-se também às mulheres.

O dever imposto às mulheres de se tornarem mães e esposas, fechando-lhe as portas para qualquer outro estilo de vida é comparado a um recrutamento forçado. Visionário que era, Mill previu que se as mulheres tivessem liberdade de escolha e igualdade de condições de exercício de suas faculdades, não aceitariam — como muitas não aceitam hoje — casarem-se, dividir suas posses e ter filhos, se para isto fosse preciso pagar o preço de ceder ao despotismo masculino.

O segundo capítulo é uma reflexão sobre o casamento. Mill trata da sujeição legal da mulher ao marido que, muitas vezes, é pior do que a de um escravo. Tamanha sujeição fez do casamento uma relação na qual muitas vezes impera o despotismo extremo, sendo a mulher objeto e vítima de todo o tipo de violência. O casamento, no entanto, deveria ser como uma sociedade na qual ambos os sócios têm igual poder de decisão, sendo acordados informalmente entre eles os direitos, deveres e funções de cada um.
Mill defende o direito de divórcio e sustenta que dadas as deploráveis condições matrimoniais a que pode ser submetida, a mulher deveria ter o direito de escolher o seu marido, o que incluiria permissão para a tentativa de uma segunda ou posteriores uniões.

Mill encerra o segundo capítulo defendendo duas coisas. A primeira é o direito da mulher de poder manter as suas propriedades mesmo após o casamento, sem, todavia, repelir a comunhão de bens, desde que seja o reflexo da união sincera de sentimentos entre os cônjuges. A segunda é o direito da mulher de poder exercer as suas faculdades fora do lar. No entanto, há a ressalva de que caso a mulher trabalhe, o trabalho pode ser uma faca de dois gumes: tanto a mulher pode perpetuar a sua sujeição sendo explorada pelo marido, quanto pode receber o seu respeito.

Porém, embora argumente a favor de que as mulheres tenham o direito de trabalhar e exercer quaisquer funções para as quais estejam habilitadas, Mill deixa escapar um vestígio de machismo. Considera que o trabalho pode ser prejudicial à mulher porque além do exercício das suas funções fora do lar, terá de se organizar para realizar as tarefas domésticas (limpeza da casa, educação dos filhos, organização das finanças, etc). Numa defesa igualitária de gênero, o certo seria ir um pouco além e sustentar a divisão não só das despesas, mas também de todas as tarefas domésticas.

No terceiro capítulo, Mill avança a defesa da capacidade das mulheres para desempenharem as mais diversas atividades e ocuparem todos os tipos de cargos, além de defender o sufrágio universal.
Neste capítulo encontra-se o melhor argumento de Mill a favor do sufrágio universal e de outras idéias a favor da igualdade de gênero: o argumento de que apesar das diferenças existentes entre homens e mulheres, não há qualquer diferença suficientemente significativa para impedir o direito legal de voto, o desenvolvimento de quaisquer atividades intelectuais, o exercício das profissões livres e a ocupação de cargos públicos. Mill observa que até o seu tempo, nas raras oportunidades que as mulheres tiveram para exercerem essas atividades, como no caso do governo de estados por rainhas, demonstraram ser capazes de fazê-lo eficientemente.

Ainda no terceiro capítulo Mill defende a importância da educação, principalmente para o aprimoramento intelectual das mulheres. A falta de originalidade de que elas são acusadas deve-se ao fato de por muito tempo a maioria não ter sido tão instruída nas diversas áreas do conhecimento quanto os homens. Por conseguinte, demorariam mais tempo a produzir grandes obras, e a princípio tenderiam a copiar o que lhe foi apresentado, isto é, fariam arte, ciência, filosofia, entre outras atividades, imitando os homens.

O quarto e último capítulo é dedicado a demonstrar quais seriam os benefícios da vivência efetiva da igualdade de gênero, dos quais três podem ser destacados como os mais importantes. O primeiro seria viver mais de perto a justiça, uma vez que haveria igualdade de oportunidades e de condições de tratamento entre ambos os sexos. O segundo seria o aumento do número de pessoas atuando em prol do progresso da humanidade, já que ao excluir as mulheres das mais diversas atividades, metade da humanidade estaria excluída de pensar e trabalhar em prol desse progresso. O terceiro seria melhorar a qualidade da influência feminina sobre os homens. Mill pensa que a mulher, apesar de subjugada, sempre influenciou o homem, seja como mãe que orienta o filho a pensar e a comportar-se de determinado modo, seja como esposa que incita ou arrefece os ânimos dos maridos para agirem desta ou daquela maneira. Na medida em que puderem ser mais esclarecidas e livres, esta influência será qualitativamente melhor.

Mill combate a idéia tão disseminada nos dias de hoje de que “os opostos se atraem”. O casamento é uma união, e como tal dificilmente comporta grandes discrepâncias de interesses. Mesmo que a diferença atraia, a semelhança é o que retém (p. 207). Logo, para que os interesses sejam semelhantes e um cônjuge possa “reter” e não subjugar o outro, não pode haver desigualdade entre homens e mulheres.

Nas páginas finais o autor faz um breve elogio da liberdade como ingrediente imprescindível da vida feliz e sustenta que, à parte os benefícios citados, o benefício mais direto da igualdade de gênero seria o aumento da felicidade individual das mulheres, consequência da sua libertação.

Algumas ou talvez muitas das idéias igualitárias de Mill defendidas nesse livro precisam de pormenorização e de aperfeiçoamento. Apesar disso e mesmo sendo um homem do século XIX, Mill sustenta um feminismo genuíno, revelado por alguns dos seus argumentos.

A defesa de Mill é muito diferente do feminismo caricato e tolo que coloca homens e mulheres em posições antagônicas, apregoa a superioridade feminina à masculina como resposta ao machismo, masculiniza as mulheres, extrapola os direitos femininos, chegando ao ponto de afirmar que há diferenças cognitivas intrínsecas entre os sexos. Nesse sentido, Mill encontra-se à frente de muitas feministas contemporâneas, pois não defende que a diferença entre os sexos seja intrínseca ou suficientemente profunda para determinar o que homens e mulheres podem ser e que valores podem ou não escolher.

Muitas das críticas de Mill parecem fazer pouco sentido hoje em dia, já que atualmente é comum que a mulher vote, trabalhe, estude, escolha livremente seu estado civil, etc. Tudo isto mostra as inúmeras conquistas das mulheres desde a época de Mill — conquistas que em parte se devem a defesas como a de Mill. Todavia, em vários países, como o Afeganistão, as condições de vida das mulheres são ainda piores do que a das mulheres inglesas do século XIX. Na Somália e noutros países africanos a mutilação dos genitais femininos ainda é prática comum. E mesmo em países como o Brasil, ações como a implantação da lei brasileira 11340/06 (Lei Maria da Penha) ainda são necessárias e nem sempre eficazes para coibir a violência doméstica. Por isso, defesas do feminismo como a de Mill ainda são indispensáveis.


Fernanda Belo Gontijo
Universidade Federal de Ouro Preto

[Postagem original - http://criticanarede.com/mulheres.html]

9 de Março de 2010 ⋅ Filosofia política

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domingo, 11 de novembro de 2012

REPÚDIO À FEMEN

 Não gosto da FEMEN, ela não me representa e não acho que seja uma organização feminista legítima.

Mas agora foram além e decidiram 'protestar' vandalizando uma Loja Marisa por causa de um comercial de mau gosto. De fato, eu mesma não gostei do comercial, mas protestar de forma educada é o mínimo que se exige de pessoas civilizadas. 


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Garotas do Femen quebram Loja Marisa em BH contra comercial

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Então aqui está o meu repúdio a esse tipo de ato. Definitivamente
  NÃO SOU FEMEN!


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sábado, 10 de novembro de 2012

Mulheres Filósofas

 [postado em 8 de março de 2012, no Blog da Crítica  http://blog.criticanarede.com/2012/03/mulheres.html]

[dica do meu amigo filósofo Matheus Silva]

Mulheres

Comemora-se hoje o dia da mulher. A experiência parece mostrar que o folclore comemorativo não costuma passar disso mesmo. Com o argumento de que é um pretexto para falar de realidades que deviam ser mudadas, não raras vezes contribui mais para exibir falsas consciências do que para mudar seja o que for. E por todo o lado se aproveita para sensibilizar as pessoas para a situação e a importância das mulheres, como se tudo isto fosse apenas uma questão de bons sentimentos. 

Se virmos com atenção, começa a surgir, à conta de tantas comemorações dos dias internacionais das vítimas do passado e do presente, uma nova área publicitária, com profissionais quase a tempo inteiro: trata-se da profissão de sensibilizador. É uma profissão que tem, aparentemente, a vantagem de dispensar os argumentos, quando não mesmo o apelo ao conhecimento dos factos. 

É assim que, apesar do muito que se ficou a saber com tantas comemorações, há ainda quem se indigne (como ouvi esta tarde) por não haver, mesmo nos nossos dias, mais do que uma ou duas filósofas. Até fui indirectamente confrontado com a acusação de que «a filosofia continua a ser uma actividade completamente machista». O autor da acusação referiu Hannah Arendt e Simone de Beauvoir como as duas únicas filósofas entre dezenas de homens. Mas quando pedi meia-dúzia de nomes de filósofos actuais, apenas surgiram os nomes de George Steiner, Habermas, Sartre e Peter Singer, o que não chega sequer a meia-dúzia.

Aproveito, assim -- também eu -- o dia da mulher para, pelo menos, corrigir esta reveladora, mas também enganadora, impressão. Apesar de na filosofia, como na maioria das áreas centrais de investigação, ainda serem os homens a predominar, é falso que praticamente não haja mulheres de destaque. Felizmente, há já muitas e boas filósofas, cuja obra tem sido discutida e influente. Aí vão os nomes de algumas importantes filósofas (e as suas principais áreas de investigação) do último século, grande parte delas vivas e até algumas bastante jovens:

Susan Haack (lógica, epistemologia e metafísica)
Patricia Churchland (filosofia da mente)
Martha Nussbaum (ética e filosofia da cultura)
Ruth Millikan (filosofia da mente, da biologia e da linguagem)
Margaret Boden (filosofia da mente e ciência cognitiva)
Ruth Barcan Marcus, falecida há dias (lógica, metafísica, filosofia da linguagem e ética)
Philipa Foot (ética)
Judith Jarvis Thomson (ética, metafísica)
Jenefer Robinson (estética e filosofia da emoção)
G. E. M. Anscombe (filosofia da acção, ética)
Mary Warnock (ética, filosofia da educação)
Mary Midgley (ética aplicada)
Ayn Rand (ética)
Susanne Langer (filosofia da arte, filosofia da mente)
Christine Korsgaard (ética, filosofia da acção, metafísica)
Carolyn Korsmeyer (estética e filosofia da emoção)
Kathleen Stock (estética)
Susan Wolf (filosofia da acção, ética, metafísica)
Nancy Cartwright (filosofia da ciência)
Amie Thomasson (metafísica, filosofia da arte)
Dorothy Edgington (filosofia da linguagem, metafísica)
Lydia Goehr (filosofia da música)

Como se vê, não são assim tão raras, até porque esta lista está longe de ser exaustiva. Algumas pessoas incluiriam ainda nomes como Simone Weil e outros. Mas, como assinalou o Desidério no post anterior, o que Simone Weil escreveu -- reflexões de carácter místico e para-religioso -- merece talvez outro nome. Seja como for, encontram-se na amostra anterior filósofas de todas as principais áreas da filosofia. É certo que as mulheres estão em minoria, mas o panorama não é o que algumas pessoas filosoficamente distraídas pintam. Para se ter uma ideia das proporções, nos Estados Unidos da América (não encontrei dados sobre outros países) cerca de 21% dos filósofos activos são mulheres. 

Nas fotos (de cima para baixo): Susan Haack, Patricia Churchland e Kathleen Stock
 
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sábado, 3 de novembro de 2012

EU NÃO SOU FEMEN! [pelo blog Luzes & Velas]

 Uma amiga postou no seu blog     Luzes & Velas    um texto com o qual concordo, então estou divulgando aqui:
 
 
"Eu sou muito desconfiada quando movimentos tomam proporções midiáticas tão rapidamente. Muitas vezes fico me perguntando se ser feminista é aceitar tudo ou discordar também. O que me chamou atenção sobre o FEMEN foi esta imagem nada agradável."
[Para ver a imagem e ler a postagem completa, siga o link no final desta postagem]
 [......]
"Nunca falei, mas vou falar: Nem todo protesto pede que se mostre os seios. Na Marcha das vadias a ideia é dizer "eu estou mostrando os seios aqui, agora, para deixar claro que ninguém tem o direito de me tocar mesmo eu fazendo isso aqui em público". Não quer dizer que as mulheres que fazem isso lá na Marcha façam isso em qualquer outro lugar, é um protesto específico e bem delimitado. Há uma grande diferença entre exibicionismo, mídia e Movimentos Sociais. Mostrar os seios é tão pessoal que tornar uma obrigação, abandona os ideiais do Feminismo. Nem puta, nem santa. EU NÃO SOU FEMEN!"
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Link para a postagem completa original:


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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O estupro e a ameaça aos Guarani-Kaiowá [Blogueiras Feministas]

O estupro e a ameaça aos Guarani-Kaiowá

Publicamos, semana passada, o texto de Daiara Tukano sobre as inúmeras violências que os povos indígenas sofrem no Brasil. Especialmente no caso das mulheres, a violência sexual tem sido o elemento mais cruel.

Além das denuncias de redes de pedofilia e prostituição infanto-juvenil, uma índia guarani-kaiowá de Pyelito Kue foi estuprada por oito pistoleiros em Iguatemi/MS, no final do mês de outubro. Uma clara tentativa de coagir sua comunidade por meio da violência, agora que o caso da disputa territorial finalmente está ganhando a mídia.

Enquanto M.B.R se dirigia do tekoha Pyelito Kue para o centro urbano de Iguatemi, Mato Grosso do Sul, nesta quarta-feira, 24, o motoqueiro que a levava mudou de rota, entrou numa fazenda chamada São Luís e lá oito pistoleiros aguardavam a indígena, que passou a ser violentada sexualmente.
De acordo com relatos da própria indígena, os pistoleiros a amordaçaram antes do início das sessões de estupro. Enquanto se revezavam, um sempre mantinha a ponta de uma faca no pescoço de M.B.R. Logo após as sucessivas violências, um dos homens apontou a espingarda que trazia para a cabeça da indígena e passou a dirigir perguntas sobre Pyelito Kue e suas lideranças.
“Ela contou que depois disso os homens deixaram ela largada por lá. Outro homem a viu e prestou socorro. Foi toda machucada para o Hospital São Judas Tadeu e recebeu medicação, atendimento”, relata Líder Lopes, de Pyelito Kue. M.B.R já está na comunidade e aguarda nova ida ao hospital.
Referência: Kaiowá e Guarani de Pyelito Kue é violentada por oito pistoleiros em Iguatemi, MS. CIMI – Conselho Indígenista Missionário.

Pelo que demonstram, os senhores brancos que se apossaram das terras não deixarão que essa disputa seja decidida nos tribunais ou por decisão do Estado, de maneira limpa. Exercerão seu poder com violência, ameaçando os guarani-kaiowá e tantos outros grupos indígenas.

Marcha indígena por terra e justiça em Dourados/2011. Foto de Egon Heck/CIMI – Conselho Indigenista Missionário.

Essa semana, enquanto os guarani-kaiowá recebiam a notícia da cassação da liminar que determinava a desocupação de área na Fazenda Cambará, em Iguatemi/MS, a Polícia Federal iniciou a retirada de 60 famílias Kadiwéu de uma área de cerca de 160 mil hectares de terra indígena demarcada no município de Porto Murtinho, na região do Pantanal do Mato Grosso do Sul. A área fica dentro da Terra Indígena Kadiwéu.

Segundo, Marta Maria Azevedo, presidenta da Funai, a solução dos conflitos também passa pelo reconhecimento dos governos estadual e federal de que promoveram ‘colonização em terras tradicionalmente ocupadas por terras indígenas’. Marta cobrou a criação de ‘espaços de diálogo, de concertação, de tratamento desses conflitos’.

A sociedade brasileira, que vive no território que pertenciam aos indígenas há mais de 500 anos atrás, tem que reconhecer sua face exploratória e lutar para que os direitos humanos dos indígenas sejam respeitados. Dia 31 de outubro, aconteceram manifestações nas ruas em Brasília/DF e Vitória/ES, em defesa dos guarani-kaiowá.

É fundamental que a sociedade se envolva nessa questão, justamente para compreendermos que o processo de colonização custou a vida desses povos, de sua cultura e tradições. Por isso, apoiamos a Carta Aberta e Manifesto organizada por acadêmicas e ativistas dos movimentos feministas e de mulheres, que cobram da presidenta Dilma Roussef e da Ministra da Secretaria de Políticas para Mulheres, Eleonora Menicucci de Oliveira, uma postura que solucione o problema e que não permita que a violência sexual contra as indígenas siga impune.


CARTA ABERTA E MANIFESTO


À Presidenta do Brasil

Sra. DILMA ROUSSEFF

À Ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República – Sra. ELEONORA MENICUCCI DE OLIVEIRA


Prezadas Senhoras,

Nós, acadêmicas/os e ativistas dos movimentos feministas e de mulheres (e outras pessoas solidárias às nossas causas) abaixo assinadas/os, vimos manifestar nossa veemente indignação e repúdio ao descaso do Estado brasileiro com a situação de extrema violação dos direitos humanos dos índios e índias guarani kaiowás, acirrada pela situação intolerável e alarmante de genocídio dessa etnia e exigimos providências urgentes diante de tal situação.

A situação dos guarani kaiowá tem sido abordada em relatórios nacionais e internacionais, de organizações da sociedade civil, de órgãos governamentais, pelo Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana e por acadêmicos de áreas diversas e, nesses vários documentos, o dado mais alarmante se refere à violação dos direitos humanos dos índios guarani kaiowá e de outras etnias, em todo o Brasil.

Vimos nos manifestar e solicitar urgentes providências aqui, de forma mais específica, contra a permanente situação de violência a que mulheres e crianças guarani kaiowá têm sofrido durante um processo de luta que perdura por mais de 40 anos, na vã tentativa de demarcação das terras desses indígenas e pelo cumprimento efetivo daquelas leis que determinaram essa demarcação. Nos últimos meses, como todos sabemos, o conflito entre fazendeiros e políticos do Mato Grosso do Sul e os guarani kaiowá tem se acirrado e as suas mulheres e as crianças têm sido um dos mais atacados alvos das forças que impedem a conclusão desta disputa. Elas, como é comum em conflitos e guerras ao redor de todo o mundo, têm sido foco de inúmeros e continuados episódios de tortura e de humilhações que ferem brutalmente não só a sua dignidade e humanidade, amplamente defendidas na Declaração Universal dos Direitos Humanos, mas também a de tod@s nós, mulheres e homens brasileir@s que compartilham com elas o conjunto desses direitos inalienáveis.

A notícia recente de que uma índia guarani kaiowá foi raptada, estuprada por um grupo de homens que estavam em um carro oficial da prefeitura da cidade e que foi posteriormente abandonada em uma estrada é eloqüente por si só de que tais torturas já superaram, em muito, o limiar do aceitável e do digno em termos humanos. Esta notícia estarrecedora se junta a outros fatos narrados pelas/os guarani kaiowá sobre inúmeros outros episódios de torturas, lesões e agressões corporais às mulheres dessa etnia. A violência sexual praticada contra mulheres guarani kaiowá é, como já afirmado, característica entristecedora de contextos de conflito e guerra e tem efeitos sórdidos e humilhantes para as mulheres, para a toda a etnia guarani kaiowá e para todos os brasileiros e brasileiras. Neste sentido, a permanência da omissão/inação do Estado brasileiro será tão criminosa quanto são criminosos tais atos de violação dos direitos básicos desses brasileiros e seres humanos.

Diante desses inaceitáveis acontecimentos que afetam as/os guarani kaiowá, e em especial de suas mulheres e crianças, e que ultrajam a humanidade de todas/os nós, exigimos, em caráter de urgência, ações IMEDIATAS da primeira mulher Presidenta deste país – Sra. Dilma Rousseff – e da ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República – Sra. Eleonora Menicucci de Oliveira. Medidas imediatas destinadas à assegurar os direitos básicos de preservação da integridade humana dessas mulheres e crianças guarani kaiowá, bem como a IMEDIATA punição dos agentes desses crimes, e também a instauração de ações mais enérgicas no sentido da efetiva resolução PACÍFICA E JUSTA DESTE CONFLITO. Se estamos efetivamente num Estado que se apresenta à comunidade internacional como sendo um Estado Democrático de Direitos, nossas dignas representantes e dirigentes não poderão se furtar a mediar uma solução urgente para tais impasses e violações que são completamente intoleráveis.


Assinam esse Manifesto,

Claudia Mayorga – Universidade Federal de Minas Gerais
Marlise Matos – Universidade Federal de Minas Gerais
Jandira Queiroz – ativista lésbica e feminista, assessora da Relatoria do Direito Humano à Saúde Sexual e Reprodutiva da Plataforma Dhesca Brasil
Karla Galvão Adrião – Universidade Federal de Pernambuco
Lenise Santana Borges – Pontifícia Universidade Católica de Goiás e Grupo Transas do Corpo
Mary Garcia Castro – Universidade Católica de Salvador – FLACSO
Paula Viana – Grupo Curumim
Shirley A. De Miranda – Universidade Federal de Minas Gerais
Sonia Corrêa, pesquisadora associada da ABIA e co-coordenadora do Observatório de Sexualidade e Política, Rio de Janeiro.
Adriana Piscitelli – Universidade Estadual de Campinas
Carolina Branco de Castro Ferreira – Universidade Estadual de Campinas
Berenice Bento – Coordenadora do Núcleo Interdisciplinar Tirésias/UFRN
Adilson Vaz Cabral Filho – professor do Programa de Políticas Sociais da Universidade Federal Fluminense
Marco Aurélio Máximo Prado – Universidade Federal de Minas Gerais
Jaileila de Araújo – Universidade Federal de Pernambuco
Adriana R. B. Vianna – Universidade Federal do Rio de Janeiro
Bruna Louzada Bumachar – Universidade Estadual de Campinas
Cristiane Faustino – Articulação de Mulheres Brasileiras
Guacira Cesar de Oliveira – CFEMEA e Articulação de Mulheres Brasileiras,
Magaly Pazello, doutoranda, Escola de Serviço Social, UFRJ
Wilza Villela, médica, Universidade de Franca e Universidade Federal de São Paulo.
Andréa Zhouri – Universidade Federal de Minas Gerais
Ângela Sacchi – antropóloga, Fundação Nacional do Índio
Rozeli Porto – antropóloga, UFRN
Liliana de Salvo Souza – jornalista, Fundação Nacional do Índio
Carmen Susana Tornquist – socióloga e antropóloga, professora da UDESC -SC
Barbara Maisonnave Arisi – antropóloga e jornalista, professora de etnologia indígena na UNILA – Universidade Federal da Integração Latino-Americana, Foz do Iguaçu.

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Link para a postagem original:
http://blogueirasfeministas.com/2012/11/o-estupro-e-a-ameaca-aos-guarani-kaiowa/

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