domingo, 23 de setembro de 2012

Paula Berlowitz - candidata a vereadora em Porto Alegre

Como a maioria já sabe, sou estrangeira e portanto não voto nas eleições. E raramente vejo algum/a candidato/a que eu considere merecedor/a.



Mas dessa vez encontrei alguém que gostaria de recomendar, porque me inspira confiança e gostei das propostas. Tive oportunidade de conhecê-la pessoalmente no Primeiro Congresso Humanista Secular do Brasil.



Considerando que atualmente temos uma Bancada Teocrática no Congresso Nacional, e que muitos políticos estão comprometidos com grupos religiosos, é muito importante elegermos pessoas capazes de defender o Secularismo, que vai garantir a liberdade de religião de todos, inclusive a liberdade de não ter uma religião.

Mas vou deixar que ela mesma se apresente através de uma postagem em seu próprio blog :
  

À Lola Aronovich: Muito prazer – Paula Berlowitz

Olá, Lola!
Acompanho o Escreva, Lola, Escreva e te sigo no twitter. Acabo de ler o teu post desta última terça-feira, 18 de Setembro de 2012. Deixei comentário por lá, mas decidi deixar o contato registrado por aqui!


Eu, em 5 de Setembro de 2012, na Audiência Pública pela Criminalização da Homofobia, na Assembléia Legislativa do RS.
Muito prazer: sou candidata à vereadora em Porto Alegre, Rio Grande do Sul e eu sou a tal feminista “de direita” que ainda não conhecias (pra falar a verdade, não me enquadro, totalmente, em lado algum. Como diz Adriana Calcanhoto: “Transito entre dois lados de um lado – Eu gosto de opostos”. Ainda pretendo criar o meu. Estou mais pro estilo Marilyn Manson, em sua letra que, sarcasticamente, diz: “I wasn’t born with enogh middle fingers and I don’t need to choose a side” – mas somos obrigados a escolher um para entrar. A autonomia, pretendo desenvolver depois, à base das únicas armas que sempre tive: sensibilidade, pontos de vista e coragem)!

Adorei o post. Exceto por este teu comentário sobre a direita que foi bastante preconceituoso, afinal, mudanças podem ser feitas de diversas formas e independem de “lados” e em qualquer lado, sempre pode haver reformadores. Como sempre, se deixarmos nossos preconceitos pra lá, poderemos nos surpreender!

Sou blogueira e feminista – administro o site MarchaDasVadias.org, idealizado por mim e aberto à participação de qualquer pessoa que deseje contribuir com manifestos, textos, fotos, denúncias, etc, ou seja, tudo o que for pertinente ao ativismo contra a violência de gênero e divulga material das Marcha das vadias que vem acontecendo em diversas cidades do Brasil. Também escrevo, há 3 anos, o site feminino Cromossomo X, e foi, justamente, ele que me trouxe o convite para a minha candidatura. Também sou musicista – canto, toco, escrevo e componho.

Além de feminista, também sou atéia – outro “contra-senso” para um mulher “de direita”, mas acredito na necessidade de um elemento perturbador onde mais precisamos de mudanças e, sendo assim, não estou no lugar errado, mas sim em um ponto bastante estratégico – e acredito firmemente que Política, enquanto ciência, não pode ser exercida com base em crenças sobrenaturais, mas sim com base em fatos sociais. ;)

Sou filiada, por sinal, ao PP – o mesmo partido do Sr. Jair Bolsonaro, e pretendo ser seu máximo contraponto por aqui, uma vez que como mãe, cidadã e candidata à vereadora em minha cidade (Porto Alegre) sou à favor da Criminalização da Homofobia e A FAVOR DO KIT ANTI-HOMOFOBIA NAS ESCOLAS – inclusive, minha única promessa de campanha (o resto são propostas, pois candidato que promete está mentindo, já que qualquer decisão não cabe só a ele, depende de quorum, etc) é que, caso eu me eleja, desafiarei o Sr. Jair Bolsonaro para um debate sobre liberdade pessoal e pluriafetividade.
Então, concluindo: para vereadora, em Porto Alegre, EU VOU VOTAR EM MIM, pois além de mais mulheres no poder e mais pessoas socialmente liberais em cargos de representatividade, também precisamos de mais Secularistas na Política, antes que vivamos sobre jugo de um Estado Teocrático!

Para que o pessoal que passar por aqui possa me conhecer melhor, deixarei o link de 2 posts meus, um do Cromossomo X, outro aqui do meu site de campanha:
O medo de quebrar barreiras e tabus quando o assunto é Política e Toda forma de amor é válida – por mais respeito à pluralidade das relações afetivas e pelo fim da LGBTfobia.

Concluindo, então: adorei a tua ideia de convidar a mulherada – e os homens, também, por que não? – para votarem nas candidatas mulheres. Só considero que houve certo desserviço ao dizeres que elas TEM de ser de esquerda. Generalizaste. E generalizar NUNCA é bom. Acredito que deva haver mais mulheres na Política, independente de “lados”, até porque, no Brasil não é como nos Estados Unidos, onde povo e políticos se dividem em Democratas e Republicanos – aqui, vivemos uma diversidade não só de etnias e de orientações de gênero, como também de ideologia Política. E isto não é ser “sem ideologia” – isto é não se “engessar” a lados, bandeiras e siglas – que por sinal, tenderão a enfraquecer cada vez mais, visto que o que importa MESMO para uma saudável existência em sociedade, é o real cumprimento do que nos traz a Declaração Universal dos Direitos Humanos, da qual somos signatários!
 O que precisamos MESMO é de mais liberdade pessoal com responsabilidade individual! E isto se constrói com educação libertária, e não com dogmatismos políticos ou religiosos! E, por incrível que pareça, é um conceito de Direita. ;)
Um grande beijo,
Paula Berlowitz

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segunda-feira, 17 de setembro de 2012

História de Onan - A Bíblia condena mesmo a masturbação?

 É comum a noção de que a masturbação é 'pecado' e que deve ser absolutamente reprimido e evitado. Mas analisando a história original na Bíblia, não fica nada óbvio. Dei uma olhada na Wikipédia, e achei isso:


Onã, ou Onan, é um personagem bíblico do Antigo Testamento, mencionado no livro de Gênesis como o segundo filho de Judá e, portanto, um dos netos do patriarca Jacó[1].
Er, o primogénito de Judá, segundo a Bíblia, era mau e teria sido executado por Deus por um motivo não mencionado[1].
Como Er não tinha deixado descêndencia, Judá mandou que Onã, seu segundo filho, realizasse o casamento de cunhado (também chamado de casamento levirato) com Tamar, viúva de Er (Gênesis 38:6-8). Assim, se tivessem um filho, a herança de primogénito lhe pertenceria como herdeiro legal de Er. Porém, se não tivesse um herdeiro, Onã ficaria com a herança de primogénito[1].
Ao ter relações sexuais com Tamar, a Bíblia diz que Onã "desperdiçou o seu esperma na terra" ou seja, não a inseminou, jogando dessa forma fora seu esperma em um coito interrompido, conduta essa que aborreceu a Deus que tirou sua vida (Génesis 38:9-10)[1].


Portanto, a recusa de Onan era de engravidar a viúva de seu irmão. Tem dois aspectos envolvidos aqui. Se ela não tivesse um filho, ficaria desamparada; se tivesse, Onan ficaria sem a herança, porque o filho que nascesse seria considerado de seu irmão falecido. 

O fato é que Onan não cumpriu a lei da época, e por isso teria sido punido.

NADA a ver com masturbação, portanto.

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sábado, 15 de setembro de 2012

A 'santa' e a 'puta' - a origem das cantadas de rua

Eu vim ao Brasil em 1970, e uma das coisas que eu tive que aprender foi que quando alguém fazia 'psst' na rua não era um conhecido tentando chamar a minha atenção, era alguém testando se eu era uma moça 'direita'. Lembro bem quando um rapaz me explicou que eles faziam isso exatamente com esse objetivo.

Eu suponho que em tempos de virgindade obrigatória até casar isso fazia algum sentido, ainda mais em cidades pequenas onde todos se conheciam. O fato é que servia para diferenciar as 'fáceis' das 'casáveis'. Uma amiga me contou que o namorado dela instruiu os amigos a 'testá-la' dessa forma; como resultado ela se obrigava a andar sempre olhando bem pra a frente e ligeiramente para baixo, para não correr o perigo de olhar nos olhos de alguém.

Hoje em dia, ainda mais em cidades grandes, qual o sentido da cantada de rua? Qual a chance de ter algum efeito real? Qual a chance de ver a mulher de novo e quem sabe surgir um relacionamento disso? Praticamente nulas, não é verdade?

Então rapazes, saibam que estão perpetuando um costume arcaico e invasivo. 

Mesmo que seja uma cantada 'elegante', ainda assim estão invadindo a privacidade de uma mulher estranha. Mesmo que seja um elogio sincero, quem diz que ela o apreciará naquela hora e vindo de um estranho? 

Sei que alguns vão dizer que tem mulheres que gostam. Sim, claro que tem, mas na dúvida seria melhor não fazer isso mesmo assim, porque vocês não leem pensamentos nem tem bola de cristal para saber quem gosta e quem não gosta.  

Sei também que muitos homens não conseguem entender porque deveriam parar. Isso acontece porque é algo culturalmente aceito, assim como um dia foi culturalmente aceito que uma mulher que não fosse virgem ao casar podia ser repudiada pelo marido.

Peço encarecidamente que repensem.

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quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Primeiro Congresso Humanista Secular no Brasil



Nos dias 8 e 9 de setembro aconteceu o Primeiro Congresso Humanista Secular no Brasil.



Sergio Viula fez um registro quase em tempo real, atualizando o evento no seu blog Fora do Armário nos intervalos.

Leia tudo aqui:   

 Também tem duas postagens no blog do Bule Voador, o blog oficial da LiHS:

 Fotos do primeiro dia do 1º Congresso Humanista Secular do Brasil

 Fotos do segundo dia do 1º Congresso Humanista Secular do Brasil

Também o palestrante Carlos Orssi escreveu sobre o congresso em seu blog pessoal:

Uma agenda política humanista secular?

Como vice-presidente participei, junto com Eli Vieira (presidente), do discurso de abertura. 

 

O video ainda não está disponível, mas o discurso na íntegra pode ser lido aqui mesmo no meu blog:

Meu discurso de abertura no Congresso Humanista

 

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Pessoalmente achei fantástico. Conheci pessoas com quem só tinha contato via internet, e que são ainda mais legais pessoalmente. 

Quanto á palestras, eu já tinha uma expectativa muito boa, mas a realidade superou um MUITO as expectativas. 

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O encerramento foi emocionante. Todos da equipe que estavam presentes subiram ao palco, mas ainda faltou várias pessoas que ajudaram de longe e nos bastidores.

 

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terça-feira, 11 de setembro de 2012

[Acido Cetico] Para não esquecer a Repressão e a Operação Condor









Hoje quarta (12 de Set) às 19h no Gazômetro estréia o
ciclo de filmes Cine Memória e Justiça, com
uma excelente mesa de discussão na abertura
(o cartaz está anexo); o ciclo se estende até
domingo, com filmes seguidos de debate sem-
pre às 19h














Convite:

Nesta quarta-feira, dia 12 de setembro Às 14h no Auditório da Faculdade de Educação da UFRGS realizaremos o painel intitulado "Para não esquecermos! Do Plano Condor à Comissão da Verdade", com Jorge Zabalsa, Veronika Engler e Carlos Frederico Guazzelli. Está mais que na hora de começarmos a tirar os véus de amnésia que cobrem os anos de chumbo e lutar por justiça onde quer que devida. E a Universidade Pública, que não poderia ficar de fora dessa discussão, rompe os muros entre a academia e a sociedade que nos sustenta promovendo esse importante painel.



Para não esquecermos!
Do Plano Condor à Comissão da Verdade

Universidade para além dos muros é uma atividade promovida pelo Comando de Mobilização dos Professores da UFRGS e tem o apoio daSeção Sindical do ANDES-SN e da ASSUFRGS.

Também convidamos, na sequência a que prestigiem


Nossos convidados:
Jorge Zabalza, advogado, integrou o Movimiento de Liberación Nacional (Tupamaros) tendo sido preso várias vezes, a última delas durante 11 anos, até 1985, quando foi anistiado. Editou os periódicos “Mate Amargo” e “Tupamaros” e foi dirigente do Movimiento de Participación Popular (MPP) que então integrava a Frente Ampla, tendo sido eleito Edil (Vereador) da Junta Departamental de Montevideo, da qual também foi presidente em 1997. Seus escritos atuais denunciam os crimes do terrorismo de estado e a política de impunidade do atual governo uruguaio, além das consequências sociais de atual modelo econômico.
Veronika Engler, pedagoga e escritora, é filha de Henry Engler, ex-refém da ditadura militar uruguaia, tendo vivide muito de perto a vulneração dos direitos humanos em seu país, onde seu pai foi liberado com os últimos presos políticos apenas em 1985. Em 1986 mudou-se para a Suécia, país que recebeu a maior comunidade de uruguaios no exílio, e onde residiu, estudou e trabalhou até 2008. Além de atuar como pedagoga junto a crianças com autismo, paralisia cerebral e outras síndromes, teve participação importante em diversas organizações de latinomericanos no exílio e hoje dedica-se à militância pelos Direiros Humanos além de escrever - poesia e prosa - em diferentes blogues.
Carlos Frederico Guazzelli, advogado e militante dos Direitos Humanos, ex-professor universitário, é Defensor Público Estadual e foi nomeado, em 6 de agosto deste ano, um dos cinco integrantes da Comissão da Verdade do RS.


Blogues e páginas:
http://www.simplesite.com/veronikaengler/
http://www.redescritoresespa.com/V/veronikaengler.htm
http://caleidoscopiodepalabras.blogspot.com/
http://lapoesiadeveronika.blogspot.com/


Contacto:

Jorge Quillfeldt
fone 9979-4325
quillfe@ufrgs.br

sábado, 8 de setembro de 2012

Meu discurso de abertura no Congresso Humanista


A LiHS é acima de tudo Humanista.

Antes de conhecer a LiHS eu já havia participado de outras organizações, mas a ênfase maior nelas era o ateísmo. É importante e louvável defender os direitos dos ateus na sociedade, mas essa ideia é relativamente simples e não demanda muito tempo nem teorias.

Depois de um tempo comecei a pensar, "mas é só isso?" Ateísmo é de fato só uma negação? E aí, o que fazemos com isso?

Então eu cheguei à conclusão de que o ateísmo é um ponto de partida, uma mudança de direção, e não um objetivo em si mesmo. Pensamos, avaliamos e analisamos todos os argumentos, e a partir disso algumas pessoas chegam à conclusão de que o ateísmo é o que faz mais sentido para elas. Mas é basicamente isso, uma conclusão. O que vamos fazer a partir deste ponto é que pode variar bastante. Algumas pessoas se satisfazem com a conclusão e fica por isso. Outras pessoas vão tomar caminhos diferentes, sempre de acordo com a sua própria natureza íntima. Não há uniformidade entre os ateus, assim como não há uniformidade entre religiosos , ou de resto qualquer outro tipo de grupo.

Quando conheci a LiHS percebi que nela se abria um leque de atuação que ia além do ateismo. Quando fui convidada a participar dela, aceitei com prazer.
Humanismo é, em poucas palavras, "Razão a serviço da compaixão". Então na sua essência, humanismo é compaixão. Vou além, humanismo é empatia.
Empatia é a capacidade de "sentir com", de se colocar no lugar do outro e entender como ele/ela se sente. Se formos capazes de fazer isso, já não conseguimos agir de maneira a causar infelicidade e sofrimento.

Quando agimos de maneira insensível, ridicularizando e agredindo alguém por suas convicções e crenças, em 99% dos casos as pessoas vão se afastar. Isso não ajuda em nada, muito pelo contrário.

A melhor estratégia é tratar as pessoas com gentileza, porque há uma probabilidade maior de que parem e escutem o que temos a dizer. Gostaria de dar um exemplo pessoal:

Meu pai era uma pessoa muito racional. Até os meus 21, 22 anos eu fui ateia, mas de alguma forma eu criei uma aversão a essa ideia, entre outras coisas porque o meu pai era praticamente o meu único modelo, e não tínhamos um bom relacionamento. Era pouco acolhedor, distante; hoje eu sei que ele devia sofrer da síndrome de Asperger, que faz com que a pessoa tenha pouca capacidade de interação social.

Uma das coisas que fiz foi estudar astrologia, e acreditava sinceramente na validade dela. Meu pai não acreditava, é claro, mas quando ele tentou me confrontar com a falta de base da astrologia, foi muito natural que eu resistisse, e não me dispus a escutar os seus argumentos.

Com os anos o meu pai se tornou mais tolerante e menos confrontador. Um dia ele me pediu que eu fizesse o mapa astral dele. Ele percebeu que fiquei surpresa e me disse, "não é que eu acredite em astrologia, mas eu acredito que você seja uma boa astróloga". E acrescentou, "acho que seria interessante ver o que viria através de um filtro como você".

O resultado foi que eu fiz o mapa dele, mas não consegui sentar e analisá-lo com ele. Percebi que eu seria incapaz de justificar e sustentar uma argumentação diante de um cético como ele. E entendi também que o que ele queria saber era o que eu pensava a respeito dele. E que eu não precisava de um mapa astral para isso.

Percebi que era isso que eu fazia com todos; o mapa só servia como um catalisador da conversa que eu tinha com as pessoas, o que elas sentiam e pensavam. Eu sempre fui boa ouvinte e sempre me importei em tentar entender as pessoas e dar alguma sugestão que as ajudasse.
E eu podia fazer isso muito bem sem mapa nenhum.

Este foi um passo em direção ao ateísmo também. Não o único, outro fator importante foi quando descobri que a minha filha e um dos meus filhos haviam chegado ao ateísmo de forma independente. Importante frisar que eu não criei os meus filhos para serem ateus, mesmo porque eu não era ateia durante a infância e adolescência deles. Eu também não era teísta, mas deísta. Em todo caso, eles ficaram livres para tomar as suas decisões.

Todos esses fatores juntos acabaram me levando a um ponto em que senti que não conseguia mais acreditar em nada disso. Não foi muito fácil, levou algum tempo.

O que eu queria frisar mesmo com esse relato é que a mudança de atitude do meu pai foi muito importante. A gentileza dele associado ao pedido que ele fez foi fundamental para que eu tivesse condições e a coragem de reavaliar a minha crença na astrologia.

Queria transmitir a ideia de que, assim como a atitude gentil do meu pai teve muito mais efeito do que o confronto, também nós deveríamos agir da mesma forma com as pessoas que tem crenças diferentes das nossas. Acredito que uma atitude verdadeiramente humanista com relação às pessoas pode não convencê-las de nada a princípio, mas as tornará bem mais propensas a pensar e considerar os nossos argumentos.

A LiHS é acima de tudo uma entidade humanista. Gostaria que todos os seus integrantes entendessem que a gentileza é uma das nossas melhores estratégias.

Mas a história do ateismo na minha família vai muito além do meu pai.

O ateísmo na minha família é praticamente uma tradição. Desde a minha bisavó que, tudo indica, era ateia pela forma como ela simplesmente não menciona a religião em seus escritos - cartas e diários - reunidos em um livro e publicados pela minha vó paterna. Por causa desse livro sei muita coisa sobre o passado da minha família.

Há mais de cem anos meu avô paterno fazia parte de uma organização estudantil de livrespensadores na Finlândia chamada Prometheus. A Prometheus existiu entre 1905 e 1914, e lutava por um Registro Civil na Finlândia, o direito dos que não tinham religião de se casar no civil e registrar os seus filhos sem ter que batizá-los. Pode parecer estranho hoje, mas até o ano de 1921, só havia a opção de casar e batizar os filhos em alguma igreja como forma oficial de regulamentação. Também reivindicavam o fim do ensino religioso obrigatório nas escolas, e outras coisas semelhantes.

O fato é que o meu avô e os outros integrantes da Prometheus não lutaram pelo fim da religiosidade em si, eles lutaram por espaço, pela liberdade não ter religião, pelo direito de ocupar o seu espaço em uma sociedade onde todos tivessem as suas convicções respeitadas. Eles também lutaram por um Estado Laico, mas isso eles não conseguiram. Até hoje a Finlândia tem uma religião oficial, a Igreja Luterana.

Erra muito quem pensa que o ateismo na Finlândia tem alguma relação com o comunismo. Na verdade é exatamente o contrário. Uma Associação para discutir filosofia e iluminismo chamada Valhalla existiu entre 1781 e 1786 por influência do Iluminismo francês. Houve uma publicação sobre liberdade de religião em 1863. Em 1889 já se discutia sobre a teoria de Darwin.

Houve uma tentativa de estabelecer uma associação ateista em 1887, mas foi suprimida pelo Csar; a Finlândia ainda pertencia à Rússia na época. Só se tornou independente quando ocorreu a revolução russa, e foi depois disso que a maioria das reivindicações da Prometheus foram atendidas pelo governo.

O meu avô foi secretário dessa organização durante a maior parte de sua existência. Um dos integrantes se chamava Rolf Lagerborg, e ele teve um papel importante. Ele enfrentava a igreja em assuntos como moralidade e também a igualdade entre homens e mulheres. Sobre ele tem uma história bem peculiar. Como ele era contra a obrigação de casar na igreja, ele achou uma forma um tanto inusitada de se casar. Tenham em mente que isso tudo se passou uns cem anos atrás. Ele combinou com a noiva dele que ela o denunciaria ao Juiz por 'se recusar a levá-la diante do pastor', apesar de ter 'coabitado' com ela. Imaginem o escândalo na época e o quanto essa mulher foi corajosa. Ele disse ao Juíz que de fato se recusava a levá-la ao pastor, mas que ele não se recusava a se casar com ela; e que se o juíz assim determinasse e resolvesse julgá-los casados, isso ele aceitaria. Não conheço todos os detalhes dessa história, mas eu a ouvi ainda criança quando foi comentada em conversas familiares.

A Finlândia foi um dos primeiros países onde as mulheres tiveram reconhecido o seu direito de voto. E eu cresci em uma família onde as expectativas que meus pais tinham de mim eram basicamente as mesmas que tinham do meu irmão. É claro que havia machismo mesmo lá, mas menos. Uma das coisas que percebi quando me mudei para o Brasil foi que não havíamos viajado só geograficamente, havíamos viajado para trás no tempo mais ou menos uns vinte anos. O Brasil na década de 70 estava, em termos de moralismo e feminismo, mais ou menos onde a Finlândia estava na década de 50.

Sou uma 'quebra de estereótipos' ambulante. Além de eu não corresponder minimamente ao estereótipo que se tem dos ateus, também não correspondo ao estereótipo de feminista. Na verdade, embora eu sempre tenha sido, eu demorei para entender que eu devia deixar isso claro para as pessoas, que eu sou feminista. A palavra recebeu uma conotação pejorativa com o tempo, muito graças a seus detratores que precisavam abafar esse movimento. Está havendo uma forte reação atualmente para resgatar o termo, e mostrar o que feminismo de fato significa.

Feminismo não é odiar homens, para começar. O nome disso é misandria. Também não é se considerar superior aos homens, o nome disso é femismo (cá entre nós, eu chamo de babaquice mesmo). Somos uma espécie sexuada, homens e mulheres precisam uns dos outros. Como poderíamos conviver satisfatoriamente se uma das partes despreza a outra? Se há competição em vez de colaboração, um casamento não dura. A única solução humanista para um convívio pacífico e satisfatório é se formos capazes de nos ver como gente antes de mais nada.

Isso é totalmente condizente com o Humanismo, cujo enfoque também é o de que devemos ver todas as pessoas como indivíduos com direitos que devem ser respeitados, independente de qualquer outro fator.

domingo, 2 de setembro de 2012

Uma Ateia Humanista

Todos evoluímos, e o que nos parece certo e adequado em um momento das nossas vidas se torna ultrapassado e inapropriado em outro momento.

Decidi mudar o nome do blog, e também a forma como me apresento. Sei que pode não parecer uma mudança significativa, mas para mim é.

A "Ateia de Bom Humor" sai de cena, entra a  Ateia Humanista.

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