domingo, 2 de dezembro de 2012

"Legítima Defesa da Honra" - versão 2012


No passado foi muito comum homens matarem as esposas em casos de adultério e depois saírem livres no julgamento com a alegação da "Legítima Defesa da Honra".

Era algo popularmente aceito e as coisas ficaram assim até 1976, quando houve protestos enormes devido ao caso Doca Street.

Doca Street

[Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.]

Raul Fernando do Amaral Street, o "Doca Street", como ficou mais conhecido, é um corretor de ações brasileiro.
Ficou nacionalmente conhecido depois de ter assassinado em 30 de dezembro de 1976 a socialite Ângela Diniz, com quem teve um longo relacionamento amoroso. Para viver o relacionamento com a "Pantera de Minas", como Ângela era conhecida quando namorou o colunista social Ibrahim Sued, "Doca Street" deixou sua mulher e seus filhos. Durante muito tempo foi estigmatizado de gigolô e traficante, embora sempre tivesse trabalhado com o mercado de ações, e chegou a afirmar em várias entrevistas que nunca foi traficante nem "mauricinho". Em primeiro julgamento que teve repercussão nacional dada a grande cobertura da TV Globo, foi inocentado sob o argumento da "defesa da honra", pois teria sido traído. A reação popular resultou em cancelamento desse julgamento e numa segunda ocasião, foi condenado por homicídio.

Este caso foi um marco, e a partir daí não se via mais com bons olhos esse argumento, mas é claro que mentalidades não mudam tão rápido, a força da lei só vai até certo ponto.

Bem há poucos dias tivemos uma reedição 'versão 2012' dessa "legítima defesa da honra". Me refiro ao caso da Karina Veiga, claro. Ela teve as suas fotos nua e fazendo sexo com o namorado expostas na internet, e como era de esperar muita gente colocou a culpa nela, ela é que era 'vagabunda', etc. Tem várias postagens a respeito disso, entre outras a da Lola do blog Escreva Lola Escreva, de modo que não vou me ater aos detalhes, mas ao suposto motivo.


O "motivo" foi que ela alegadamente teria traído o namorado. Quer dizer, o sujeito disse que ela traiu e todo mundo acreditou, mas não se sabe nem se é verdade. Mas digamos que fosse.

O sujeitinho se sentiu no direito de execrá-la publicamente, expô-la da forma mais vil, e tudo porque? 


Porque ela traiu!?

Uma coisa que é de foro íntimo, e que não serve mais como motivo nem para divórcio (já foi lei, acreditam?) e o cara se acha no direito de crucificá-la publicamente!

"Legítima Defesa da Honra" - versão 2012 ??

Gente, párem o mundo que eu quero descer!

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Atualização - 

http://samuellfarias.blogspot.com.br/2012/12/somos-karina-veiga.html

Os boatos na internet davam conta de que Karina Veiga era uma menina de 16 anos, que após trair seu namorado, teve fotos e videos íntimos publicados na rede social Facebook. A verdade, no entanto, é bem diferente.

Karina tem apenas 15 anos e era agredida pelo então namorado, maior de idade. Com o fim do relacionamento deles, o homem, indignado, expôs o conteúdo pessoal da menina na internet para se vingar do que, para ele, era uma traição.

Ou seja, não tinha traição nenhuma nessa história, só o mesmo velho machismo de sempre. Mulher não pode querer se separar, ela é "propriedade".

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4 comentários:

  1. Traindo ou não atitude dele foi imbecil, agora eu acho muito estranho que hoje em dia a traição é vista como banalidade, vejo muitos blogs e sites defendendo a "honra" e a "imagem" de pessoas que traem, mas quem é traído fica como?
    Eu nunca passei por essa situação, mas sei que reagiria de forma extremamente negativa caso fosse traído, e o fato dele expor a intimidade dos dois deve ser a ideia de vingança que ele tem na cabeça, já o julgamento público é apenas o esperado de uma sociedade como a nossa, não é o fato dela ter feito sexo anal, oral ou nasal, e sim de ter se deixado registrar fazendo isso, ou talvez ela seja hipócrita também e agora está sendo julgada por isso, não sei, são apenas conjecturas. Talvez o problema deste mudo seja exatamente isso, pessoas hipócritas de um lado julgando pessoas falsas do outro. Infelizmente não dá pra parar e descer.

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  2. Por algum motivo esse comportamento me lembrou o famoso "estupra mas não mata" do Maluf.
    Eu já desisti de tentar lidar com esse tipo de gente.

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  3. Nossa, Åsa, verdade, muito defesa da honra o negócio! E sabe que acompanhando o caso vi que foi comprovado até que ele agrediu ela fisicamente? Não sei se os machões não ficaram sabendo, simplesmente ignoraram ou se acham que valeu como 'legítima defesa' também...

    Tá aqui: http://jmais.com.br/cidades/item/2455-policia-apreende-material-na-casa-de-rapaz-acusado-de-divulgar-fotos-da-ex-nua.html

    ' "Juntamente com nossa equipe de trabalho, colhemos, no curso do procedimento policial, diversos depoimentos, o Laudo Pericial de Corpo Delito da vítima que prova as agressões físicas sofridas por ela, assim como tivemos uma atenção especial em investigar a divulgação dessas fotos e vídeos que estavam circulando pela internet", explica Iunes. '

    um abraço!

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  4. Realmente é muito triste ter que lidar com esse tipo de coisa em pleno século XXI.
    Só devo discordar da Agislânia em um ponto: não podemos desistir de lidar com gente assim. Precisamos ser vocais e expor esse tipo de coisa sempre que possível pois a situação não melhora sozinha. O privilégio masculino bem como qualquer um outro, sempre vem acompanhado de cabresto.
    Espero sinceramente que a menina possa superar o trauma emocional e seguir com a vida dela.

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