sábado, 21 de abril de 2012

A 'obrigação' de sofrer

 Na minha postagem anterior, A vida sem vida , reproduzi a opinião de Patrícia Pranke publicada na Zero Hora sobre a questão da interrução da gravidez em casos de anencefalia.

Hoje apareceu uma outra postagem, "Há vida sem vida?", por Flavio Mansur, Médico, apresentando a opinião contrária à dela. O que vi ali foi nada mais nada menos que a mesma coisa que já tinha observado antes, ou seja, para certas pessoas o feto é mais importante que a mulher e a mulher tem obrigação de sofrer.

Destaco algumas passagens:


"Parece que a confusão da professora é entre a gestante que preza o que carrega no ventre, lhe dá a dignidade humana, e a mulher que prefere resolver vicissitudes na forma de apagá-las da sua existência."

"Temos duas possibilidades. Há uma gestante, que pretendia ser mãe de um filho saudável, e recebeu a pior notícia possível – que seu filho não sobreviverá – e se prepara para seu funeral durante a gestação, funeral este a ser realizado após o nascimento.

E há uma mulher que eventualmente estava grávida, recebeu a mesma notícia, e a entendeu como sendo não um filho, mas um “tumor” que crescia no seu útero, e a solução prática é extirpá-lo sem delongas."
 A primeira é uma mãe, a segunda uma mulher que estava grávida, categorias completamente diversas.

Fica muito evidente a tentativa de demonizar as mulheres que não estão dispostas a continuar sofrendo, sendo que esse sofrimento é inútil e não terá nenhum resultado positivo ou prático.

E fica evidente que vivemos em uma sociedade de mentalidade misógina, que exige da mulher esse sofrimento inútil; não só nestes casos mas em muitos outros. E não estou dizendo que são só os homens que tem essa mentalidade, muitas mulheres a incorporam também.

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Abaixo o artigo na íntegra:

Professora da UFRGS e pesquisadora de células-tronco emitiu suas opiniões sobre o caso do abortamento de anencéfalos – usando o eufemismo de interrupção da gestação – na ZH de 18/04/12.

Inicia preocupada com ter a gestante que se preparar para o velório do filho, ao invés de uma nova vida. Que meses de gestação significam um funeral prolongado.

Segue dizendo que o debate filosófico e legal é questão de opiniões, mas cientificamente 20 profissionais não podem estar enganados ao enxergar um tumor, e que se pode fazer a analogia com anencéfalos.

Não seria de esperar opinião diversa, haja vista que pesquisa com células-tronco significa em grande parte destruição de embriões humanos. É um pequeno passo a mais destruir um embrião “mais crescidinho” e localizado no útero.

Todavia, o que me chamou a atenção foi o fato de dizer que a gestante se prepara para o funeral do filho caso prossiga com a gestação. Enterra-se, vela-se, o que nunca teve vida? Ou se descarta no balde da sala cirúrgica o “tumor”? Há vida sem vida?

Parece que a confusão da professora é entre a gestante que preza o que carrega no ventre, lhe dá a dignidade humana, e a mulher que prefere resolver vicissitudes na forma de apagá-las da sua existência.

Temos duas possibilidades. Há uma gestante, que pretendia ser mãe de um filho saudável, e recebeu a pior notícia possível – que seu filho não sobreviverá – e se prepara para seu funeral durante a gestação, funeral este a ser realizado após o nascimento.

E há uma mulher que eventual- mente estava grávida, recebeu a mesma notícia, e a entendeu como sendo não um filho, mas um “tumor” que crescia no seu útero, e a solução prática é extirpá-lo sem delongas.

Ambas estão certas, não é possível criticar a segunda por querer ver-se livre do “tumor”. Contudo, há uma diferença, fundamental, entre uma e outra. A primeira é uma mãe, a segunda uma mulher que estava grávida, categorias completamente diversas. Quem tem ou teve mãe – e infelizmente nem todos a têm – sabe do que falo.

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7 comentários:

  1. Quanta hipocrisia!

    É triste perceber como (parte d)a sociedade (des)valoriza as nossas vidas e o nosso sofrimento, achando-se no direito de cercear a liberdade e autonomia sobre nosso próprio corpo, em nome de um feto sem vida, sem sentimentos, emoções ou sensações.

    A minha pergunta aos "pró-vida" é: vocês são a favor da vida de QUEM?
    Porque eu sou a favor da vida de seres humanos autônomos, que pensam e sentem. No caso, as mulheres.

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  2. Que comparação horrível. Quem extirpa um tumor fica feliz porque isso vai prolongar sua vida. A mãe que aborta um bebê anencéfalo passa por um trauma terrível de não completar a realização da maternidade.

    Na argumentação dele, me parece implícito que a mãe já não queria o bebê e que o fato de ele ser anencéfalo seria apenas uma brecha pra realizar um suposto aborto desejado.

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    1. Sim, em nenhum momento ele leva em consideração que a mulher desejava ter um filho e sofre muito ao descobrir que ele não tem condição nenhuma de sobreviver.
      Outra coisa que não levam em consideração é que 50% dos fetos anencéfalos morrem ainda dentro do útero e isso é um risco enorme para a saúde da mulher, só para dar UM exemplo.

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  3. Coisa 1: Existe algum caso cientificamente confirmado de alguma criança que sobreviveu por vários anos após nascer com esta anomalia? Se existir, este aborto pode ser um erro por excluir a mínima possibilidade que seja de que tal criança sobreviva mais do que o previsto.

    Coisa 2: Há quem é dado o Direito de decidir até que ponto o fruto de uma reprodução humana pode ou não ser considerado humano o bastante para viver, nem que seja por alguns segundos? Acaso estes abortos não seriam apenas uma forma de "jogar a sujeira debaixo do tapete"? Estariam as mulheres modernas e feministas (ou femistas) buscando apenas o meio mais simples de resolver um problema que não é só delas?

    Coisa 3: Por que será que a opinião do PAI nunca é levada em consideração? Por acaso, o feto (com ou sem cérebro) é fruto de uma reprodução assexuada? Como diria nosso saudoso caminhoneiro, isso tudo parece uma cilada, Bino.

    ... Só o comentário de um anônimo que passou por engano e seguiu outro caminho... Fiquem com DEUS! (tá... isso foi trollagem mesmo. :-D)

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    1. 1 - Os casos em que uma criança sobrevive por alguns meses ou anos, o caso NÃO FOI de anencefalia, mas outros problemas, como acrania ou microcefalia. O diagnóstico de anencefalia é inequívoco e o tempo que o bebê anencéfalo vive fora do útero é em média 51 minutos.

      2 - Já foi suficientemente explicado que no caso de anencefalia os riscos para a mulher são muito grandes e que não há sentido em prolongar um sofrimento inútil, posto que a criança não viverá.

      3 - Você, se estivesse na condição de marido de um mulher nessas condições, se importaria mais com ela ou com o feto sem chance de viver?

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  4. 1 - 51 minutos ainda é bastante tempo para muitos seres vivos presentes na natureza. Por que não seria para um ser humano?

    2 - Não há sentido para muitas coisas. Pular na frente de um carro para ser atropelado junto com uma vítima que você tentou salvar de um acidente inevitável não tem muito sentido, mas... acontece (São aqueles casos típicas de "bondade humana" que encantam muita gente por aí...). Uma mãe JAMAIS deve abandonar o próprio filho, a não ser que considere esta suposta criança apenas uma "coisa" dentro dela. Mas para isto, teriam que redefinir o que é um ser humano. Se um bebê, feto, etc, anencéfalo for considerado não-humano, não deve ter problema abortar este "tumor". Do contrário, uma mãe se arriscaria mesmo tendo quase certeza de que a criança morrerá. Não dá para racionalizar isto e chamar de "sem sentido".

    3 - A família é o que importa, e se o bebê é anencéfalo, paciência... são males da vida... ele faz parte da família. Você pode ter um bebê que vai morrer ao nascer por causa de uma anomalia. Você também pode ter um bebê que vai morrer ao nascer porque uma enfermeira estúpida aplicará ácido nele ao invés de um medicamento qualquer. A diferença é que no primeiro caso você já tem quase certeza de que ele vai morrer, logo "vamos abortar! É arriscada a gravidez inútil!"... Sinceramente, saber que ele vai morrer não tira dele a filiação. O colega Anõnimo aqui não concordaria com o aborto porque não dá pra medir o amor de um pai ou de uma mãe a um filho, nem compara-lo com o amor de um cônjuge. Não consigo pensar em amar mais o filho supostamente saudável e menos o filho anencéfalo, tão pouco amar mais ou menos a esposa que passa por uma gravidez de risco.

    Será que minha suposta esposa, a Sra Anônima, vai me largar depois dessa? rs

    (É... voltei... igual aqueles vilões dos quadrinhos!)

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    1. E como seria de esperar, você só confirma a impressão que eu tive. A nossa sociedade tem uma mentalidade cruel e misógina:

      "Mulher tem obrigação de sofrer!"

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