sábado, 3 de março de 2012

"O Prazer das Palavras" de Claudio Moreno

Tenho uma enorme admiração por esse colunista da Zero Hora. Ele mantém a coluna quinzenal "O Prazer das Palavras", e eu sempre aprendo algo novo com ele. E o mais importante, ele escreve de tal maneira que entendo praticamente tudo e ainda me divirto muito.

Essa semana quero compartilhar o que ele escreveu porque me pareceu especialmente relevante. Ele esclarece a diferença entre o dicionário e a enciclopédia, e mostra a diferença de proposta de cada um. O motivo veio de uma tentativa das mais canhestras de "censura" com relação ao dicionário Houaiss.

Mas vou deixar que o próprio autor esclareça:

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Cigano (1)

Esta semana constatei, não sem surpresa, que muita gente graduada não sabe distinguir uma enciclopédia de um dicionário. É verdade que ambos são fontes de referência que organizam suas entradas por ordem alfabética, providenciais bancos de dados a que recorremos quando precisamos de uma informação a la minuta. A grande diferença entre eles, no entanto, é o tipo de informação que um e outro nos fornecem: enquanto dicionários como o Aulete ou o Houaiss nos informam sobre palavras, enciclopédias como a sólida Britânica ou a controvertida Wikipedia nos informam sobre os seres e os fenômenos em geral. E não é pouca diferença! Quero saber o significado de burlantim? Vou ao dicionário (sossegue, leitor; é um simples sinônimo de funâmbulo...). Tenho dúvida sobre o gênero de dó ou hesito na hora de pronunciar o “E” de incesto? Vou ao dicionário e fico sabendo que dó é masculino (“Sentia um dó imenso do padrinho”) e que incesto tem o “E” aberto, rimando com funesto. Agora, se preciso descobrir quanto dura a gestação do elefante, qual foi o último rei de Cartago ou quem descobriu os anéis de Saturno, só uma boa enciclopédia poderá me socorrer.

O dicionário reúne e organiza dados linguísticos; o seu assunto é a própria linguagem e o uso que dela fazemos. A enciclopédia, por seu lado, reúne dados sobre a natureza, os povos, os personagens históricos, as coisas, as obras de arte; o seu assunto é o mundo real, concreto, extralinguístico. Mesmo que o dicionário muitas vezes não possa prescindir de uma certa dose de informação enciclopédica (carrapato – “designação comum aos ácaros da família dos ixodídeos e argasídeos”), ele sempre vai muito além dela, pois tem a obrigação de registrar (o que seria inadequado numa enciclopédia) que carrapato também designa um “indivíduo importuno, que não larga outro; indivíduo que se apega com muita força a algo”. De uma enciclopédia espera-se que apresente os conhecimentos que a Humanidade conseguiu acumular sobre o ilustre carrapato; de um dicionário, exige-se que relacione e discrimine os sentidos que os falantes dão (ou deram) a este termo.

Pois não é que esta semana o Brasil inteligente ficou sabendo, estarrecido, que um procurador da República de Uberlândia quer obrigar o Instituto Antônio Houaiss a retirar de circulação todas as edições do dicionário Houaiss, que contêm, segundo a excelentíssima sumidade, “expressões pejorativas e preconceituosas relativas aos ciganos”? Confesso que há muito eu não ouvia tamanho disparate, e fiquei tão chocado com a notícia que, a princípio – imaginando que fosse mais um desses boatos propagados pelas ondas do mar da internet –, pus minha mão no fogo pelo procurador: “Um membro do Ministério Público não vai cometer o erro primário de confundir o texto de um dicionário com o de uma enciclopédia”, sentenciei – mas, ai de mim, logo me convenci de que teria feito melhor se tivesse deixado a mão no bolso: era tudo verdade!

Ocorre que este dicionário – de longe, o melhor que já tivemos em língua portuguesa – não faz mais do que a obrigação ao registrar que o termo cigano tem oito acepções, entre elas duas que Houaiss expressamente rotula como “pejorativas”: “aquele que trapaceia; velhaco, burlador” e “aquele que faz barganha, que é apegado ao dinheiro; agiota, sovina”. Afinal, este é, como vimos, o compromisso tácito que todo lexicógrafo que se preze assume conosco: apresentar o repertório de significados atribuídos a cada palavra e indicar as particularidades de seu uso (“informal”, “antiquado”, “chulo”, “regional”, etc.). Nosso douto procurador deveria ter percebido que as informações apresentadas pelo Houaiss – que, desculpem lembrar a obviedade, não é uma enciclopédia – se referem ao termo, e não ao povo cigano. No dia em que registrar os valores depreciativos que certos vocábulos assumiram ao longo do tempo for considerado um crime, nossa língua – ou melhor, nossa civilização terá embarcado numa viagem sem volta para a noite escura da desmemória.
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Lembrei-me de duas coisas quando li isso, uma delas foi a história de um certo político (mas não posso jurar que seja verdadeira) que queria revogar a Lei da Oferta e da Procura, já que causava tanto transtorno.
Outra é que o dicionário define o vocábulo "ateu" entre outras coisas como "ímpio" (= impiedoso, que despreza a religião, que ofende a moral e a justiça, etc).

Imagina se a moda pega...

 Eu, hein! 


2 comentários:

  1. Muito bom!
    obrigado por compartilhar :)

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  2. Procuarador...
    O cara veste uma toga e tem delírios de que está vestindo os trajos de um rei e sua coroa. Nunca se pode dar algum poder a um ser humano. O poder sempre corrompe e corrompe a mente, a sanidade mental.
    Pensando bem, não se deve delegar poder algum a qualquer ser humano.
    Pena que tanta gente esteja disposta a emprestar seus ombros como transporte para as pernas de outras pessoas e seus corpos como capachos de seus idealizados messias ou Führers. Esses são nossos maiores inimigos pois são deles que o despostismo dos famintos por poder se alimenta.

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