segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Sobre a reportagem na Veja (e um pouco da história da minha vida)

Tendo visto pela enésima vez acusações feitas a mim por pessoas inescrupulosas de que eu teria entrado para a igreja para que o meu marido tivesse clientes, resolvi colocar tudo a limpo, não tanto pelos que me acusam mas por aqueles que me defendem; estes merecem saber exatamente como foi.
Em 2002 fui entrevistada por telefone por um reporter da Veja para uma reportagem especial sobre ateismo. Na época eu participava da STR e quem me pediu para participar mostrando uma família ateia foi o Leo Vines, presidente da STR. Tive algumas dúvidas, porque seria a primeira vez que eu realmente me exporia publicamente como ateia, mas a minha família concordou e fizemos.

Como eu disse, a entrevista foi feita por telefone, e acredito que tenha sido por isso que ele não entendeu corretamente o que eu disse, e na reportagem acabou saindo a informação incorreta de que haviamos entrado para a igreja para que o meu marido não perdesse clientes. Na época isso não me pareceu importante, e não me preocupei em corrigir a informação. Por um lado porque existem certamente muitas pessoas que participam da igreja sem crer,  por medo de serem discriminados, por outro lado porque eu nunca imaginei que um dia essa reportagem seria usada contra mim de forma tão deturpada e maldosa como foi.
Não vou ter como explicar as circunstância disso tudo sem entrar no mérito de como foi a minha trajetória de vida em termos de ser ou não ateia nas várias fases da minha vida, portanto o relato será relativamente longo.

Mas para começo de conversa, nós não entramos para a igreja por causa da profissão do meu marido, nem ele dependia disso na época, pois trabalhava como funcionário de uma cooperativa e não como profissional liberal.

Sou ateia de quarta geração. Meus bisavós e avós pelo lado paterno, assim como meus pais, eram ateus. Meu avô participava de uma organização de livrespensadores na Finlândia mais de cem anos atrás, a Prometheus. Cresci portanto sem que me falassem nada sobre religião, sem irmos à igreja e sem rezas e orações. Só entrei em contato com a religião aos 4 anos no Jardim de Infância, e é claro que nada disso era reforçado em casa. Mas aquelas histórias que contavam sobre Jesus, um homem tão bondoso que gostava muito de crianças evidentemente me cativou, como cativaria qualquer criança. Então fui teísta dos 4 aos 8 anos; até ia com alguma amiga para a tal Escola Dominical às vezes, e meus pais nunca proibiram. Lembro de forma muito nítida como foi quando deixei de acreditar, me senti angustiada por não conseguir mais crer e eu até rezei dizendo isso para o deus em que não conseguia mais acreditar.

A partir deste momento me assumi ateia, meus pais inclusive me liberaram das aulas de religião na escola, e nunca vi nenhum problema no fato. Na Finlândia não há esse conceito de que "ateus são imorais", pelo menos eu nunca senti isso nas pessoas com quem convivia. Na verdade o assunto raramente era levantado, não se falava sobre isso e para mim era simplesmente algo normal.

Meu pai veio trabalhar no Brasil em 1970, quando eu tinha 13 anos. Mesmo aqui no Brasil, na época, não parecia ser um problema ser ateu, nunca me senti rejeitada por causa disso. Continuava sendo algo normal, e eu pratcamente não falava sobre isso com ninguém. Não era importante.

Quando casei, aos 18 anos, surgiu a questão por causa do casamento religioso. A família do meu marido era luterana (IECLB - Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil), mas do tipo que pertence à igreja como quem pertence a um clube. Sempre deu para perceber que o meu sogro (a mãe do meu marido já era falecida) não era religioso, nunca iam à igreja e nunca falavam sobre isso. Mas a formalidade do casamento na igreja era importante para eles por causa da tradição, e por causa de uma vó e uma tia pelo lado materno do meu marido, que eram bastante católicas. Da minha parte, nem mesmo o casamento civil chegava a ser importante, mas era outra época (1974), eu estava grávida, e decidimos que casar era o mais acertado. Mas o meu limite era que eu não me batizaria, me recusava a fazer essa concessão porque não estava disposta a ser hipócrita. O meu sogro era parente de um pastor, que concordou em nos casar sem eu ter que cumprir essa formalidade. Casamos e fomos morar no Paraná durante algum tempo, onde terminei o Segundo Grau em uma escola católica; nunca escondi o fato de ser ateia nem mesmo ali.

Depois nos mudamos para o interior do RS, onde o meu marido foi contratado para trabalhar em uma cooperativa, com a função de atender vacas e porcos nas propriedades rurais. Alugamos uma casa cujos donos eram nossos vizinhos, uma família descendentes de alemães muito simpáticos e que nos acolheu muito bem. Eram luteranos da mesma igreja (IECLB) que a família do meu marido, e nós os acompanhamos a um culto para nos entrosar  na comunidade, e fomos muito bem recebidos. Mas ainda não havíamos nos filiado à paróquia local, embora tivessemos batizado os dois primeiros filhos por conta do meu sogro ser membro da paróquia de Porto Alegre. Eu não fingia ser religiosa para ninguém, e não me senti pressionada a ser.

Depois que o nosso segundo filho nasceu, eu já com 21 anos, entramos em contato com os Rosacruzes. Foi assim que me foi apresentada um conceito de deus como sendo um tipo de energia, não mais o deus antropomórfico cristão (esse tipo de crença estava definitivamente descartada por mim). Por algum motivo esse conceito me atraiu e começamos a fazer um curso por correspondência. Depois de algum tempo concluímos que aquilo estava nos exigindo cada vez mais tempo, que nós com filhos pequenos não tínhamos. E também percebemos um certo "comercialismo", como venda de correntinhas, incensos, etc, além de também sutilmente pedir que divulgássemos para conseguir mais membros.

[Aí já estávamos curiosos a respeito dessas coisas todas relacionadas ao "poder do pensamento", e participamos de um curso de "Poder Mental" que apareceu na cidade. Comprei alguns livros sobre gnose, li sobre quase tudo que tinha de pseudociências e misticismos nas revistas da época. Na década de 1980 a ufologia se tornou muito popular, assim como a astrologia. E tudo isso me levou para uma busca que durou mais ou menos dos 21 anos aos 43.]

Voltando, uma das coisas que os Rosacruzes recomendavam era que se participasse de alguma igreja. Aqui cabe explicar que na Finlândia era (e deve ser ainda) muito comum que as pessoas participassem da igreja como forma de socialização, e para fazer algum trabalho comunitário. Não que as pessoas fossem especialmente religiosas, na maioria eram do tipo "light" ou até mesmo ateus, porque a igreja lá é estatal, de modo que muito são membros da igreja porque foram batizados pelos pais e simplesmente não se dão ao trabalho de sair; não é relevante.

Com esse exemplo em mente, e porque na época tínhamos feito amizade com o pastor local que era um homem muito inteligente e esclarecido e que havia me passado inclusive o conceito do "Estudo Histórico-Crítico da Bíblia". Ou seja, não precisamos levar a Bíblia ao pé da letra, e não precisamos acreditar em tudo que está nela. E ele gostava de conversar conosco e eu percebia que ele fazia questão de ouvir as minhas opiniões e as valorizava. Por causa de tudo isso, porque eu queria fazer parte do grupo, porque eu pensei que conseguiria fazer algum trabalho social relevante, e porque havia desenvolvido esse conceito de "deus=energia" que eu conseguia aceitar, decidi me batizar.

Durante vários anos participamos ativamente nas atividades da paróquia, e durante esse tempo todo eu fui deista. Não mais acreditava em um deus personificado, mas em algum tipo de "energia". Mas o mais importante é a parte social, o convívio com as pessoas; somos seres sociais e precisamos deste contato. Durante todos estes anos pagamos a anuidade devida à paróquia. Nossos filhos fizeram o Ensino Confirmatório porque o meu marido achava que era importante cumprir com essas formalidades. Eles tiveram a oportunidade de decidir por si mesmos se queriam continuar fazendo parte da igreja.

Só depois de 20 anos é que eu me afastei da igreja e não quis mais participar. Foi neste momento que o meu marido não concordou em oficializar este afastamento, porque ele havia recentemente deixado de ser funcionário da cooperativa e agora trabalhava como terceirizado; haviam outros veterinários na cidade e ele ficou receoso, achando que um ruptura poderia afastar alguns produtores que eram da nossa paróquia. Não acho que tivesse feito diferença, mas do ponto de vista do meu marido sempre foi importante fazer parte da igreja, essa foi a herança cultural que herdou da família, fazia parte da identidade dele. Portanto a decisão foi dele, não minha.

E para dizer a verdade, foi inútil. Ele não teve nenhuma vantagem em continuar sendo membro da paróquia e pagando a anuidade pontualmente. 

A empresa começou a passar os atendimentos para um veterinário contratado lá dentro, em vez de passá-los para o meu marido comforme o acordo que tinha sido feito quando ele passou a terceirizado. (Ainda bem que ele já tinha conseguido se aposentar.) Desnecessário dizer que a empresa não tinha nenhum conhecimento do que se passava no tocante a participarmos ou não da igreja.

Quando nos mudamos pudemos finalmente nos desligar definitivamente.

Se alguém quiser perguntar mais alguma coisa, fique à vontade.

sábado, 26 de novembro de 2011

Definições de Humanismo | Humanismo Secular Portugal

Definições de Humanismo | Humanismo Secular Portugal

Definições de Humanismo

"O Humanismo é uma postura de vida democrática e ética, que afirma que os seres humanos têm o direito e a responsabilidade de dar sentido e forma às suas próprias vidas. Defende a construção de uma sociedade mais humana, através de uma ética baseada em valores humanos e outros valores naturais, dentro do espírito da razão e do livre-pensamento, com base nas capacidades humanas. O Humanismo não é teísta e não aceita visões sobrenaturais da realidade."

IHEU - Minimum Statement on Humanism


"A palavra Humanismo deriva do latim humanus, que significa "humano". Podemos definir brevemente um humanista como alguém cuja visão do mundo confere grande importância aos seres humanos, à vida e ao valor do ser humano. O Humanismo realça a liberdade do indivíduo, a razão, as oportunidades e os direitos."

Gaarder, Jostein em O Livro das Religiões


"... procura, sem recorrer à religião, o melhor nos seres humanos e para os seres humanos."

Chambers Pocket Dictionary (Dicionário de Bolso Chambers)


"... uma doutrina, atitude, ou modo de viver centrado nos interesses ou valores humanos; em particular: uma filosofia que normalmente rejeita o sobrenatural e dá enfâse à dignidade do indivíduo e ao seu valor e capacidade para a auto-realização pessoal através do uso da razão."

Merriam Webster Dictionary (Dicionário Merriam Webster)


"... um apelo ao uso da razão, em vez de revelações ou autoridades religiosas, como uma forma de partir à descoberta do mundo natural e do destino do homem, e, também, para desenvolver uma base para a moralidade... A ética humanista também se distingue por a sua acção moral ter como objectivo alcançar o bem-estar da humanidade, em vez de procurar cumprir a vontade de Deus."

Oxford Companion to Philosophy (Acompanhante da Filosofia Oxford)



"A rejeição da religião em prol do avanço da humanidade pelo seu próprio esforço."

Collins Concise Dictionary (Dicionário Conciso Collins)


"O que é característicamente humano, e não sobrenatural, o que pertence ao homem e não a forças externas, o que eleva o homem à sua maior altura ou lhe dá, enquanto homem, a maior satisfação."

Encyclopedia of the Social Sciences (Enciclopédia das Ciências Sociais)


segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Revista Época - A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico - notícias em Sociedade

O diálogo aconteceu entre uma jornalista e um taxista na última sexta-feira. Ela entrou no táxi do ponto do Shopping Villa Lobos, em São Paulo, por volta das 19h30. Como estava escuro demais para ler o jornal, como ela sempre faz, puxou conversa com o motorista de táxi, como ela nunca faz. Falaram do trânsito (inevitável em São Paulo) que, naquela sexta-feira chuvosa e às vésperas de um feriadão, contra todos os prognósticos, estava bom. Depois, outro taxista emparelhou o carro na Pedroso de Moraes para pedir um “Bom Ar” emprestado ao colega, porque tinha carregado um passageiro “com cheiro de jaula”. Continuaram, e ela comentou que trabalharia no feriado. Ele perguntou o que ela fazia. “Sou jornalista”, ela disse. E ele: “Eu quero muito melhorar o meu português. Estudei, mas escrevo tudo errado”. Ele era jovem, menos de 30 anos. “O melhor jeito de melhorar o português é lendo”, ela sugeriu. “Eu estou lendo mais agora, já li quatro livros neste ano. Para quem não lia nada...”, ele contou. “O importante é ler o que você gosta”, ela estimulou. “O que eu quero agora é ler a Bíblia”. Foi neste ponto que o diálogo conquistou o direito a seguir com travessões.

- Você é evangélico? – ela perguntou.
- Sou! – ele respondeu, animado.
- De que igreja?
- Tenho ido na Novidade de Vida. Mas já fui na Bola de Neve.
- Da Novidade de Vida eu nunca tinha ouvido falar, mas já li matérias sobre a Bola de Neve. É bacana a Novidade de Vida?
- Tou gostando muito. A Bola de Neve também é bem legal. De vez em quando eu vou lá.
- Legal.
- De que religião você é?
- Eu não tenho religião. Sou ateia.
- Deus me livre! Vai lá na Bola de Neve.
- Não, eu não sou religiosa. Sou ateia.
- Deus me livre!
- Engraçado isso. Eu respeito a sua escolha, mas você não respeita a minha.
- (riso nervoso).
- Eu sou uma pessoa decente, honesta, trato as pessoas com respeito, trabalho duro e tento fazer a minha parte para o mundo ser um lugar melhor. Por que eu seria pior por não ter uma fé?
- Por que as boas ações não salvam.
- Não?
- Só Jesus salva. Se você não aceitar Jesus, não será salva.
- Mas eu não quero ser salva.
- Deus me livre!
- Eu não acredito em salvação. Acredito em viver cada dia da melhor forma possível.
- Acho que você é espírita.
- Não, já disse a você. Sou ateia.
- É que Jesus não te pegou ainda. Mas ele vai pegar.
- Olha, sinceramente, acho difícil que Jesus vá me pegar. Mas sabe o que eu acho curioso? Que eu não queira tirar a sua fé, mas você queira tirar a minha não fé. Eu não acho que você seja pior do que eu por ser evangélico, mas você parece achar que é melhor do que eu porque é evangélico. Não era Jesus que pregava a tolerância?
- É, talvez seja melhor a gente mudar de assunto...


Leia mais em:

Revista Época - A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico - notícias em Sociedade

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domingo, 6 de novembro de 2011

Resumo da apresentação sobre astrologia

no SiTP em Porto Alegre no dia 05 de novembro de 2011

Estava eu num almoço de aniversário de uma amiga, a maioria do pessoal eu não conhecia, e a conversa girava basicamente em torno de florais, reiki, energias, astrologia, entre outras coisas. Como era uma ocasião festiva em que eu era apenas uma das convidadas, fiquei na minha, e não dei a minha opinião a respeito dos assuntos. Aí alguém me perguntou qual era o meu signo. Perguntei, “qual você acha que é?”. Aí começaram a tentar deduzir o meu signo, e foi muito engraçado. Para começar já disseram que Escorpião não poderia ser. E foram indo, de signo em signo, tentando deduzir pela impressão que eu passo: Câncer (porque é meigo), Virgem (porque é observador), e assim foi, esgotando todas as possibilidades. No final eu disse, “pois é, o meu signo é justamente aquele que vocês descartaram no início: Escorpião. Para vocês verem que isso não funciona.”

Ninguém aceita qualquer pseudociência como válida se não tiver primeiro aceito a noção de “energias” e “vibrações” como fontes válidas que influenciam as nossas vidas de forma invisível.
Então parte-se do pressuposto de que a astrologia é válida, para então estudar os detalhes referentes ao mapa astral e a interpretação que se dá aos diversos aspectos envolvidos.

A astrologia é um assunto muito presente na sociedade em geral, e muita gente culta a considera válida. E isso não significa que são ignorantes, e nem mesmo que são particularmente crédulos. Significa que a astrologia conseguiu se estabelecer com muita eficiência na nossa cultura, e não por acaso. Há bons motivos para que isso tenha acontecido, e uma delas, a principal, é que ela realmente parece funcionar. Eu sei que parece estranho, mas é verdade. E o motivo de eu ter tanta certeza disso é que eu fui astróloga por quase 20 anos. E acreditava sinceramente no que fazia.

Temos uma grande necessidade de conhecimento e uma sensação de controle sobre as nossas vidas. A maioria das “artes divinatórias dão às pessoas apenas uma coisa, que é o conhecimento, a ilusão de saber o que vai acontecer. A astrologia acrescenta outra dimensão que é o autoconhecimento, a ilusão de sabermos mais sobre nós mesmos e do que nós somos capazes. Eu suponho que é por isso que a astrologia é tão popular, porque dá os dois lados, a ilusão do autoconhecimento, e a ilusão de saber o que vai acontecer. E dá um terceiro aspecto, que é a ilusão de poder saber mais sobre outras pessoas através do mapa astral deles.
E o mapa astral, sendo um gráfico, dá uma ilusão de objetividade e de racionalidade. 

Sempre me interessei por psicologia, e sempre quis entender melhor a mim mesma, tanto quanto queria entender os outros. Morava no interior e não tinha acesso a muita coisa, mas descobri um curso básico de astrologia por correspondência. Tive que aprender a fazer cálculos complicados, que envolvia uma tábua de logaritmos e um livro de efemérides, à mão para determinar a posição dos planetas no mapa astral. Não havia internet nem computadores, e a calculadora não ajudava muito. Cada mapa que eu fazia levava uma hora entre calcular e desenhar tudo. E tinha a parte da interpretação, que envolvem vários elementos nas mais diversas combinações. Eu me aprofundei naquilo o mais que pude, comprei livros e estudei muito. Para mim, o que mais importava era a análise psicológica, da personalidade e do potencial de cada um.
A análise dos signos é vaga o suficiente para que qualquer pessoa se identifique com as características descritas, assim como as previsões feitas no jornal. Quando alguém alega que não encaixou com ele, sempre tem alguém para dizer que tem que fazer o mapa astral completo, porque às vezes o signo sozinho não é determinante.

O mapa astral é basicamente um desenho de como estava o céu no momento do nascimento de alguém, e é calculado de um ponto de vista geocêntrico. São usadas as latitudes e longitudes do local onde a pessoa nasceu, além do horário. Por causa disso há uma distorção, e a movimentação planetária não é linear, e há um movimento que se chama “retrógrado”, em que os planetas aparentemente andam para trás. Isso é levado em consideração na interpretação como sendo um aspecto, ou fase, em que esse assunto está sendo prejudicado na vida da pessoa. O detalhe é que esse movimento “retrógrado” é geral, acontece com todo mundo. 

O mapa é dividido em doze casas, e a primeira casa corresponde à linha do horizonte; o signo que se encontra ali é o que se chama de ascendente. O ascendente é considerado um importante complemento ao signo solar. Por exemplo, uma pessoa de Leão (fogo) teria o seu temperamento modificado por uma ascendente em Touro (terra). Os elementos Fogo, Água, Terra e Ar também são importantes na astrologia.

O mapa astral dá milhões de combinações possíveis

Então podemos ter qualquer combinação dos doze signos com doze ascendentes, o que já dá 144 combinações possíveis. Depois temos a posição da Lua, que também é importante, e que também pode estar em qualquer um dos doze signos; aí já vamos para 1728 possibilidades.
Mas o significado da posição do Sol e da Lua também podem variar de acordo com a Casa em que se encontram. Como são doze casas, aí já temos 20.736 combinações, levando em consideração apenas um deles. 

Bom,  vou parar por aí, porque já deu para ver que com essa miríade de combinações possíveis, e tudo sujeito a vários tipos de interpretação, dá para tirar de um mapa astral praticamente qualquer coisa que se queira. Existem 12 signos, 10 corpos celestes (Sol, Lua e os planetas Mercúrio, Venus, Marte, Jupiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão), e  12 casas. Cada planeta vai ser interpretado de acordo com a casa e o signo em que está, além de se considerar os aspectos (ângulos) entre os diversos elementos.  Existem aspectos positivos, quando há um ângulo de 60 ou 120 graus entre dois deles (sextil e trígono), e negativos, quando há um ângulo de 90 ou 180 graus (quadratura e oposição). Conforme a combinação de todos esses fatores, uma característica pode ser enfatizada ou abafada, pode se expressar de forma positiva ou negativa. 

A questão não é se a astrologia “funciona”, é óbvio que não. Atribuir uma capacidade de influência de um planeta sobre a vida de uma pessoa, ainda mais atribuindo a esse planeta uma vibração específica, como associar as qualidades da deusa romana Vênus a ela, e alegar que a posição dela no momento do nascimento de alguma forma atribui uma determinada característica a uma pessoa é absolutamente incompreensível quando olhamos de forma racional e objetiva.

Então, porque a astrologia tem tanto apelo popular? O fato é que ela parece funcionar. E na verdade há um bom motivo para isso.
Aqui temos que diferenciar entre dois tipos de astrólogos. Existem os charlatães, sem dúvida, mas existem também aqueles que, como eu no passado, realmente acreditam no que fazem. E aí cabe analisar porque é possível que a própria pessoa se iludir dessa forma. 

Quem me deu a pista para eu começar a questionar a validade da astrologia foi o meu pai. Ele sempre deixou claro que não acreditava em nada disso. Um dia me surpreendeu me pedindo que eu fizesse o mapa astral dele. E me disse uma coisa que eu nunca esqueci: “de fato, eu não acredito em astrologia, mas eu acredito que você seja uma boa astróloga; seria interessante ouvir o que viria através de um filtro como você”.

 Quase sempre fiz as análises pessoalmente, sentada com a pessoa na minha frente. Eu costumava dizer que o mapa “criava vida” nessas circunstâncias; as poucas vezes que analisei um mapa sem a presença da pessoa foi muito mais difícil, parece que “trancava”. 

Voltando ao meu pai, eu realmente fiz o mapa dele, mas não consegui sentar com ele e analisá-lo.  Percebi que não conseguiria sustentar nada daquilo diante de um cético, como meu pai sempre foi. O que o meu pai queria era saber o que eu pensava dele, como eu o via, e estava disposto  a me deixar usar o mapa astral para isso. Com o tempo percebi que o que funcionava era eu, não a astrologia. Sendo uma pessoa naturalmente empática e intuitiva, eu captava muito rapidamente algumas coisas sobre as pessoas em geral, na verdade eu não precisava do mapa, ele era só um elemento de intermediação, um instrumento.

E é isso que acontece com aqueles astrólogos que acreditam no que fazem; são intuitivos e empáticos e conseguem “ler” as pessoas, mas acreditam com toda sinceridade que é a astrologia que os faz ter essa habilidade.

Teve também uma “evidência anedota”. Fiz o mapa astral de um amiga, mas quando analisei sento que o mapa não “parecia” com  ela. Perguntei se ela tinha certeza do horário, e ela perguntou para a mãe dela, que deu um horário um pouco diferente. Refiz o mapa e aí parece que estava muito mais de acordo com a personalidade dela. Isso me serviu de “prova” por muito tempo.  Uma outra vez me pediram para descrever a personalidade pelo mapa de uma pessoa que eu não conhecia.  De alguma forma consegui “acertar” o suficiente para ser convincente.

Isso tudo já faz mais de dez anos, e o meu desligamento definitivo se deu quando descobri a STR onze anos atrás e li alguns textos com pesquisas que mostravam de forma bem objetiva porque a astrologia não tinha validade. Aproveitei o momento da mudança de cidade para me livrar de toda a tralha: mapas, textos e livros. Foi um processo difícil e bastante demorado, mas quando finalmente tomei a decisão, foi um grande alívio.

Descartar a astrologia simplesmente sem analisar o porque dela ser tão apelativa é um erro. Ainda mais que a grande maioria dos astrólogos são sinceros no que fazem.  Seria simplista dizer que são todos charlatães que tem por objetivo explorar as pessoas, porque é certo que comigo não foi assim, e conheci muitos outros que também acreditavam sinceramente no que faziam.
Como qualquer outro fenômeno social, psicológico, é importante ter em mente que as coisas não dividem em preto-branco.

Curiosidade

Quanto à possível influência da Lua sobre os partos, uma crença muito popular, tenho um relato bem interessante e peculiar. O meu marido foi veterinário durante muito tempo, e manteve um registro bastante rigoroso sobre os atendimentos que fazia. Um dia reunimos mais de 20 anos de informação sobre todos os partos de vacas que ele atendeu. Combinamos as datas com as fases da Lua, e descobrimos que a incidência de partos era simplesmente distribuída de maneira uniforme em todas as fases. Não havia mais partos na Lua Cheia, como popularmente se acredita.

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Já escrevi anteriormente sobre a minha experiência na Astrologia nessa postagem - Porque a astrologia parece funcionar.

[Se alguém quiser saber mais alguma coisa sobre quais são os elementos principais na astrologia, tem um resumo aqui.]


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quinta-feira, 3 de novembro de 2011