quarta-feira, 20 de abril de 2011

O anseio pela pureza

No livro O Nome da Rosa tem um diálogo interessante entre o mestre e o discípulo.

Mestre: "A pureza me assusta."
Discipulo: "O que o assusta na pureza?"
Mestre: "A pressa."

O contexto deste diálogo é bastante óbvio para quem leu o livro ou  viu o filme (onde o diálogo não aparece), mas para quem não sabe, se passa em um mosteiro e tem a ver com a idéia de pureza religiosa. E quase sempre que se tentou alcançar e impor uma idéia de pureza "perfeita", pessoas são sacrificadas, metafórica ou literalmente. A "pureza" é excludente, não admite a presença do "impuro", e assim vai se restringindo cada vez mais até sobrar muito pouco. Enfim, não funciona.

Imagine pegar uma terra esterilizada, plantar uma semente e regar com água destilada. A semente não vai nascer. A vida necessita da "impureza", a "pureza" é estéril e não produz nada. Por exemplo, qual o sentido de um ermitão encerrado em uma gruta ou em cima de um pilar, dependendo dos outros para se alimentar? Qual o sentido de mulheres encerradas em um mosteiro, rezando dia e noite, sem fazer nada de prático?

Houve um caso real, em que vários membros de uma família decidiram não trabalhar mais para preservar a sua "pureza" em vista do fim do mundo que estaria muito próximo (isso já faz mais de dez anos). O resultado foi que todos dependiam de um único membro que trabalhava, e que ficou evidentemente sobrecarregado com tudo isso. E o absurdo da coisa é que este não seria "salvo" de acordo com a crença dos outros familiares, no entanto era este que garantia a sua sobrevivência.

Contraditório, não?

Me arrisco a dizer que toda tentativa de alcançar uma "pureza" absoluta tem como base uma sensação de inadequação da pessoa e uma tentativa dela se "depurar" de alguma forma.

A verdade é que somos uma espécie animal, com necessidades fisiológicas que muitas vezes incomodam, e algumas pessoas não se conformam com isso. E não estou falando só de religião, eu falo de qualquer anseio por "pureza", seja em que aspecto for. O amor é considerado "puro" quando não envolve sexo. Uma alimentação "pura" significa se abster de carne e, em casos extremos, de qualquer produto de origem animal.
Uma ação é considerada "pura" quando não envolve interesse pessoal, só o bem estar de outra pessoa.

Mas é o sexo que produz filhos e desencadeia a produção de várias substâncias em nosso organismo que causam uma sensação de bem estar muito grande (endorfinas, serotonina, oxitocina). Os produtos animais, os nutricionistas são praticamente unânimes em dizer, são necessários em algum grau para o nosso organismo se manter. E as nossas ações tem sempre alguma vantagem para nós mesmos, mesmo que seja apenas a satisfação de sentir que fizemos algo de bom.

A pureza absoluta é estéril, não produz nada. Prefiro ser "impura" e produzir algo de útil.

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sábado, 16 de abril de 2011

Somos dois espíritos livres que se uniram

Essa foi a minha resposta quando o dono da Padaria, muito meu amigo, me chamou de "Dona Åsa", sendo que ele não quer que chame ele de "senhor". Primeiro eu disse que não era "dona" de nada, ao que ele respondeu "bem, dona do seu marido" . Foi aí que saiu a frase que é o título desta postagem, e saiu tão rápido e espontaneamente que fiquei pensando nela depois.

E a grande verdade é que nós nunca nos sentimos "donos" um do outro. Para nós é simplesmente natural sermos fiéis, resultado do grande respeito e admiração que eu tenho por ele e que ele tem por mim. Temos áreas de atuação diferentes, nunca sentimos necessidade de controlar o que o outro faz quando não estamos juntos (mas gostamos muito de estar juntos), e temos inclusive autonomia para tomar decisões, porque confiamos que nenhum de nós vai tomar alguma decisão importante que reflita de forma negativa sobre o relacionamento. Coisas muito importantes discutimos, claro, para chegar a um consenso.

Amor é sempre uma coisa muito subjetiva, mas para mim é basicamente um sentimento de querer o bem estar do outro ao mesmo tempo que queremos o nosso próprio bem estar junto a ele. Admiração, respeito, lealdade, fidelidade e consideração fazem parte do conjunto; também é importante ter valores semelhantes. E tem também o fato de aceitarmos a individualidade do outro, e dar a ele espaço quando necessário, até para ficar sozinho.

Lembro quando o conheci, a sensação de segurança que senti desde o começo na presença dele. Podemos estar no mesmo ambiente, cada um fazendo as suas coisas (cada um no seu computador, como agora), e não sinto em nenhum momento que preferia estar sozinha. Sinto que o mundo é um lugar um pouco melhor porque ele existe. Temos uma intimidade que sempre me pareceu tão natural, mas que descobri não ser tão comum quanto eu imaginava. Correndo o risco de parecer piegas, eu seria capaz de morrer por ele.

Olhando para trás eu vejo que éramos (e ainda somos) dois "outsiders" (termo inglês para pessoas que não sentem que fazem parte do grande grupo, não encontro um termo adequado em português), sempre destoamos do padrão. Tivemos a sorte de nos encontrar e sorte maior ainda de termos conseguido manter esse relacionamento por tanto tempo. Gostamos muito de ler, ver filmes, caminhar juntos pela manhã na praia que tem aqui perto, e temos sempre muito sobre o que conversar. Sempre andamos de mãos dadas, o que até já chamou a atenção do pessoal da vizinhança.

Ele nunca foi arrogante comigo, jamais foi capaz de me tratar como se eu tivesse que obedecê-lo. Foi assim que ele me conquistou, por me respeitar e me tratar com dignidade. Devido a várias circunstâncias eu acabei exercendo a função de dona de casa por vários anos, e ele sempre valorizou o que eu fazia na "administração doméstica" (que foi o termo que passei a usar para descrever o que fazia). Ele nunca assumiu a atitude de que o dinheiro que ele ganhava fosse "dele", sempre tivemos conta conjunta. Quando comecei a trabalhar com aulas particulares, eu também assumi a mesma atitude, o que eu recebia era nosso, não meu. Atualmente o que faço se tornou muito importante, porque aposentado no Brasil, todos sabem, sofrem de 'AIDS' - Alto Indice de Defasagem Salarial - e ele teve o retorno da atitude que teve para comigo no início do casamento.

Parece que estou rasgando seda?
É, acho que estou.  :)

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sábado, 9 de abril de 2011

Sobre o massacre no Realengo

Depois do inevitável "Porque isso aconteceu?"[1], a pergunta mais presente a respeito do assunto é, "Poderia ter sido evitado?"[2]
A próxima pergunta é, "Tem como evitar que aconteça novamente?" [3]
No final da postagem eu dou a minha opinião sobre isso.

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Desde quinta-feira tem se falado muito sobre o assunto, e com as mais diversas abordagens. Uma das postagens mais sensatas é esta: http://ddimensoes.wordpress.com/2011/04/09/a-religiao-e-culpada/
"Sempre após uma grande tragédia as pessoas buscam desesperadamente achar culpados. Seja a queda de um prédio, um terremoto ou um atirador no Rio de Janeiro. Eu ia evitar o tema, mas evitar alguma coisa não a faz desaparecer. Nesse texto vou de certa forma defender a religião. Tentar culpar a crença num homem invisível pelo que aconteceu naquela escola é bobagem, e vou tentar expor os motivos pelos quais acho isso." ...(continua no link acima)

Outra excelentes opiniões encontrei na Zero Hora de hoje (sábado, 09/04), de Claudia Laitano e Milena Fisher.
(Não adianta postar os links porque a Zero Hora só permite visualizar o conteúdo se for assinante, mas vou transcrever alguns trechos.)

[Claudia Laitano] "Que reflexão tirar do ato extremo de uma pessoa desequilibrada? Falta de segurança nas escolas, excesso de armas em circulação, bullying, fanatismo religioso, sexo e culpa misturados... Foram muitas as abordagens da tragédia de Realengo nas últimas horas - algumas apressadas demais, outras irresponsáveis até, mas todas, de alguma forma, refletindo uma necessidade urgente de digerir em conjunto essa dor. Todas tentando entender algo que é, em essência, inabarcável por uma linha única de raciocínio. Porque ninguém entra em uma escola atirando em crianças por um, dois ou três motivos, mas por uma intrincada trama de desacertos em série
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Mais do que o momento em que uma modalidade inédita de crime fez sua infeliz estréia no país, a última quinta-feira vai ser lembrada como o dia em que o Brasil chorou - não apenas as mortes das crianças no Realengo, mas a impossibilidade de proteger nossos filhos do imprevisível."

[Milena Fischer] "... O segundo sentimento que ficou evidente foi 'poderia ter sido na escola do meu filho'. Poderia ter sido em qualquer lugar do mundo essa tragédia de atmosfera norte-americana. O horror não se explica por por situação econômica, social, cultural ou geográfica. Ele pode estar dentro de nós, humanos que somos. Aquela parte sombria, adormecida, terrível e sórdid que, em algum momento, pode tomar a forma de um rapaz que assassina nossos filhos.
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Como explicar o horror?
O horror não se explica.
Não há lógica nele. Por mais que seja possível desvendar o perfil de um assassino de 12 crianças que estavam faceiras dentro do seu mundo, a escola, os pais não tem como proteger seus filhos do exato momento em que um ser (humano?) resolve de fato praticar o seu crime."
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Também vi várias opiniões tentando atribuir à religiosidade dele a origem dos seus atos, e também vi um certo apresentador de TV dizendo o contrário, que neste caso "a religião não tem nada a ver".
De fato, eu acho que a religião não tem nada a ver, só gostaria que esse apresentador fosse coerente e não atribuísse à falta de religião os atos violentos de outros criminosos.

Neste particular gostei muito da opinião de Daniela Halley
http://aesufmg.blogspot.com/2011/04/deus-no-coracao.html :


"Nesse post só queria deixar algo para se refletir, especialmente aqueles que concordam com o Datena...o atirador que matou 12 crianças e feriu outras varias², tinha Deus no coração.Quero deixar claro que não estou afirmando que a religião era necessariamente o motivo nesse caso, acho até que a imprensa tem sido muito especulativa nesse caso, querendo chamar atenção comparando esse atirador com terroristas do 11/9 e coisas do tipo, o que é erronio ao meu ver, já que mesmo que ele tenha sido impulsiodano por certas crenças religiosas, essa não fica exatamente clara em sua carta...mas o fato do qual podemos ter certeza é de que esse homem acreditava em deus.E agora?
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Religião e crenças no divino podem inspirar tanto o bem quanto mal, ninguém está dizendo que só inspira o mal. Mas não me venha dizer que quando alguém religioso faz algo bom é necessariamente sua religião que causa isso, mas que quando faz algo de ruim, aquela pessoa não é religiosa de verdade...ou que a religião em si não faz nada, que a pessoa é quem faz...porque se for assim, aceite também que sua religião nunca fez nada de bom, as pessoas fizeram. Não estou pedindo nada demais, somente coerência."
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Voltando às três perguntas que coloquei no ínício, a minha opinião pessoal é:

[1] - É possível fazer muitas conjecturas e anílises, mas certeza absoluta nunca teremos do porque.
[2] - Não, não poderia ter sido evitado. O sujeito era ex-aluno da escola, nunca havia cometido nenhuma violência, pessoas de fora entravam frequentemente na escola para dar palestras, enfim, não havia porque desconfiar dele.
[3] - Não acredito que se possa prever e evitar uma ocorrência destas, porque as próprias circunstâncias são tão raras e únicas.

Não é muito animador, é verdade. O que nos resta é aceitar que certas coisas estão além do nosso controle. A vida é assim, infelizmente.

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Hoje (11 de abril) vi essa notícia:

Atirador de Realengo provavelmente sofria de transtorno de personalidade e não de doença mental

http://oglobo.globo.com/vivermelhor/mat/2011/04/07/atirador-de-realengo-provavelmente-sofria-de-transtorno-de-personalidade-nao-de-doenca-mental-924185505.asp

Pelo que pude entender,  isso deixa mais claro ainda que simplesmente não haveria como prever ou evitar o que aconteceu. A pessoa busca uma justificativa, qualquer uma, para os seus atos.

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sábado, 2 de abril de 2011

O Menino Velho - Jesus Cristo e os Gays

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Ótimo video! Ele tem toda razão quando diz "ACORDA PESSOAL!"




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