segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Sobre a reportagem na Veja (e um pouco da história da minha vida)

Tendo visto pela enésima vez acusações feitas a mim por pessoas inescrupulosas de que eu teria entrado para a igreja para que o meu marido tivesse clientes, resolvi colocar tudo a limpo, não tanto pelos que me acusam mas por aqueles que me defendem; estes merecem saber exatamente como foi.
Em 2002 fui entrevistada por telefone por um reporter da Veja para uma reportagem especial sobre ateismo. Na época eu participava da STR e quem me pediu para participar mostrando uma família ateia foi o Leo Vines, presidente da STR. Tive algumas dúvidas, porque seria a primeira vez que eu realmente me exporia publicamente como ateia, mas a minha família concordou e fizemos.

Como eu disse, a entrevista foi feita por telefone, e acredito que tenha sido por isso que ele não entendeu corretamente o que eu disse, e na reportagem acabou saindo a informação incorreta de que haviamos entrado para a igreja para que o meu marido não perdesse clientes. Na época isso não me pareceu importante, e não me preocupei em corrigir a informação. Por um lado porque existem certamente muitas pessoas que participam da igreja sem crer,  por medo de serem discriminados, por outro lado porque eu nunca imaginei que um dia essa reportagem seria usada contra mim de forma tão deturpada e maldosa como foi.
Não vou ter como explicar as circunstância disso tudo sem entrar no mérito de como foi a minha trajetória de vida em termos de ser ou não ateia nas várias fases da minha vida, portanto o relato será relativamente longo.

Mas para começo de conversa, nós não entramos para a igreja por causa da profissão do meu marido, nem ele dependia disso na época, pois trabalhava como funcionário de uma cooperativa e não como profissional liberal.

Sou ateia de quarta geração. Meus bisavós e avós pelo lado paterno, assim como meus pais, eram ateus. Meu avô participava de uma organização de livrespensadores na Finlândia mais de cem anos atrás, a Prometheus. Cresci portanto sem que me falassem nada sobre religião, sem irmos à igreja e sem rezas e orações. Só entrei em contato com a religião aos 4 anos no Jardim de Infância, e é claro que nada disso era reforçado em casa. Mas aquelas histórias que contavam sobre Jesus, um homem tão bondoso que gostava muito de crianças evidentemente me cativou, como cativaria qualquer criança. Então fui teísta dos 4 aos 8 anos; até ia com alguma amiga para a tal Escola Dominical às vezes, e meus pais nunca proibiram. Lembro de forma muito nítida como foi quando deixei de acreditar, me senti angustiada por não conseguir mais crer e eu até rezei dizendo isso para o deus em que não conseguia mais acreditar.

A partir deste momento me assumi ateia, meus pais inclusive me liberaram das aulas de religião na escola, e nunca vi nenhum problema no fato. Na Finlândia não há esse conceito de que "ateus são imorais", pelo menos eu nunca senti isso nas pessoas com quem convivia. Na verdade o assunto raramente era levantado, não se falava sobre isso e para mim era simplesmente algo normal.

Meu pai veio trabalhar no Brasil em 1970, quando eu tinha 13 anos. Mesmo aqui no Brasil, na época, não parecia ser um problema ser ateu, nunca me senti rejeitada por causa disso. Continuava sendo algo normal, e eu pratcamente não falava sobre isso com ninguém. Não era importante.

Quando casei, aos 18 anos, surgiu a questão por causa do casamento religioso. A família do meu marido era luterana (IECLB - Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil), mas do tipo que pertence à igreja como quem pertence a um clube. Sempre deu para perceber que o meu sogro (a mãe do meu marido já era falecida) não era religioso, nunca iam à igreja e nunca falavam sobre isso. Mas a formalidade do casamento na igreja era importante para eles por causa da tradição, e por causa de uma vó e uma tia pelo lado materno do meu marido, que eram bastante católicas. Da minha parte, nem mesmo o casamento civil chegava a ser importante, mas era outra época (1974), eu estava grávida, e decidimos que casar era o mais acertado. Mas o meu limite era que eu não me batizaria, me recusava a fazer essa concessão porque não estava disposta a ser hipócrita. O meu sogro era parente de um pastor, que concordou em nos casar sem eu ter que cumprir essa formalidade. Casamos e fomos morar no Paraná durante algum tempo, onde terminei o Segundo Grau em uma escola católica; nunca escondi o fato de ser ateia nem mesmo ali.

Depois nos mudamos para o interior do RS, onde o meu marido foi contratado para trabalhar em uma cooperativa, com a função de atender vacas e porcos nas propriedades rurais. Alugamos uma casa cujos donos eram nossos vizinhos, uma família descendentes de alemães muito simpáticos e que nos acolheu muito bem. Eram luteranos da mesma igreja (IECLB) que a família do meu marido, e nós os acompanhamos a um culto para nos entrosar  na comunidade, e fomos muito bem recebidos. Mas ainda não havíamos nos filiado à paróquia local, embora tivessemos batizado os dois primeiros filhos por conta do meu sogro ser membro da paróquia de Porto Alegre. Eu não fingia ser religiosa para ninguém, e não me senti pressionada a ser.

Depois que o nosso segundo filho nasceu, eu já com 21 anos, entramos em contato com os Rosacruzes. Foi assim que me foi apresentada um conceito de deus como sendo um tipo de energia, não mais o deus antropomórfico cristão (esse tipo de crença estava definitivamente descartada por mim). Por algum motivo esse conceito me atraiu e começamos a fazer um curso por correspondência. Depois de algum tempo concluímos que aquilo estava nos exigindo cada vez mais tempo, que nós com filhos pequenos não tínhamos. E também percebemos um certo "comercialismo", como venda de correntinhas, incensos, etc, além de também sutilmente pedir que divulgássemos para conseguir mais membros.

[Aí já estávamos curiosos a respeito dessas coisas todas relacionadas ao "poder do pensamento", e participamos de um curso de "Poder Mental" que apareceu na cidade. Comprei alguns livros sobre gnose, li sobre quase tudo que tinha de pseudociências e misticismos nas revistas da época. Na década de 1980 a ufologia se tornou muito popular, assim como a astrologia. E tudo isso me levou para uma busca que durou mais ou menos dos 21 anos aos 43.]

Voltando, uma das coisas que os Rosacruzes recomendavam era que se participasse de alguma igreja. Aqui cabe explicar que na Finlândia era (e deve ser ainda) muito comum que as pessoas participassem da igreja como forma de socialização, e para fazer algum trabalho comunitário. Não que as pessoas fossem especialmente religiosas, na maioria eram do tipo "light" ou até mesmo ateus, porque a igreja lá é estatal, de modo que muito são membros da igreja porque foram batizados pelos pais e simplesmente não se dão ao trabalho de sair; não é relevante.

Com esse exemplo em mente, e porque na época tínhamos feito amizade com o pastor local que era um homem muito inteligente e esclarecido e que havia me passado inclusive o conceito do "Estudo Histórico-Crítico da Bíblia". Ou seja, não precisamos levar a Bíblia ao pé da letra, e não precisamos acreditar em tudo que está nela. E ele gostava de conversar conosco e eu percebia que ele fazia questão de ouvir as minhas opiniões e as valorizava. Por causa de tudo isso, porque eu queria fazer parte do grupo, porque eu pensei que conseguiria fazer algum trabalho social relevante, e porque havia desenvolvido esse conceito de "deus=energia" que eu conseguia aceitar, decidi me batizar.

Durante vários anos participamos ativamente nas atividades da paróquia, e durante esse tempo todo eu fui deista. Não mais acreditava em um deus personificado, mas em algum tipo de "energia". Mas o mais importante é a parte social, o convívio com as pessoas; somos seres sociais e precisamos deste contato. Durante todos estes anos pagamos a anuidade devida à paróquia. Nossos filhos fizeram o Ensino Confirmatório porque o meu marido achava que era importante cumprir com essas formalidades. Eles tiveram a oportunidade de decidir por si mesmos se queriam continuar fazendo parte da igreja.

Só depois de 20 anos é que eu me afastei da igreja e não quis mais participar. Foi neste momento que o meu marido não concordou em oficializar este afastamento, porque ele havia recentemente deixado de ser funcionário da cooperativa e agora trabalhava como terceirizado; haviam outros veterinários na cidade e ele ficou receoso, achando que um ruptura poderia afastar alguns produtores que eram da nossa paróquia. Não acho que tivesse feito diferença, mas do ponto de vista do meu marido sempre foi importante fazer parte da igreja, essa foi a herança cultural que herdou da família, fazia parte da identidade dele. Portanto a decisão foi dele, não minha.

E para dizer a verdade, foi inútil. Ele não teve nenhuma vantagem em continuar sendo membro da paróquia e pagando a anuidade pontualmente. 

A empresa começou a passar os atendimentos para um veterinário contratado lá dentro, em vez de passá-los para o meu marido comforme o acordo que tinha sido feito quando ele passou a terceirizado. (Ainda bem que ele já tinha conseguido se aposentar.) Desnecessário dizer que a empresa não tinha nenhum conhecimento do que se passava no tocante a participarmos ou não da igreja.

Quando nos mudamos pudemos finalmente nos desligar definitivamente.

Se alguém quiser perguntar mais alguma coisa, fique à vontade.

22 comentários:

  1. O triste, Åsa, é que aos amigos não há necessidade alguma de explicações desse tipo. Já aos inimigos, nem toda explicação do mundo é suficiente. Um abraço

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  2. Najma
    Sim, eu sei que não havia necessidade, mas como pouca gente sabe da história toda achei melhor fazer esse relato. Até porque os que me defendem muitas vezes não sabem bem o que dizer.

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    1. Fez bem de contar
      acho muito acertada essa sua atitude

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  3. Gostei de ver que você está avançando para um estilo de postar com mais delongas, mais detalhes, gosto disso!

    Beijos!

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  4. Eli,
    quando comecei o blog, há mais de dois anos, meu receio era de que textos muito longos não seriam lidos até o fim, e eu também não tinha muita experiência ainda.
    Aquele texto sobre astrologia também foi realtivamente longo, mas recebi um comentário muito encorajador dizendo que mesmo sendo longo é fácil de ler. Acho que estou pegando o jeito. :)

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  5. Delícia te ler.
    Mais pela curiosidade de conhecer uma bela história do que pela necessidade de "prestar contas" do seu ateísmo. :-)
    Beijo.

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  6. Realmente o texto está interessante de ler, tinha curiosidade também nessa história.

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  7. Marcio
    Eu já havia contado parte dessa história em algumas postagens anteriores no meu blog, mas estava tudo separado em várias partes, então resolvi juntar tudo e fazer um relato mais completo.

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  8. Quer dizer que você ludibriou a igreja luterana também com a celebração de um casamento religioso?

    Impressionante... Essa eu não sabia...

    Não mude o texto porque já foi printado.

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  9. Roberto, eu não tenho intenção nenhuma de mudar o texto. Todos, inclusive o pastor, sabiam que eu era ateia, não menti para ninguém. Então quem foi ludibriado?

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  10. Pensando bem, toda essa lenga-lenga de "moral" e "família", vindo de alguém que tem uma filha sem nunca ter sido casado com a mãe dela, e que nunca casou e formou a sua própria família, é no mínimo um tanto esdrúxulo.

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  11. Até Santo Agostinho teve uma filha sem nunca ter se casado, e tinha muito mais moral do que eu e você juntos.

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    1. Roberto,fornicação é pecado,até onde eu sei. Mas cada um tem a sua própria interpretação da bíblia,n'est ce pas?

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  12. Ninguém se torna moralmente mais digno casando-se ou não, mas certamente se torna menos digno envolvendo-se com pedófilos notórios.

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  13. E caluniar e difamar é algo 'extremamente' digno, suponho.

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  14. Caluniar e difamar é uma vírgula! Não há nenhuma mentira no meu blog, simplesmente porque me baseio em tudo aquilo que divulgado não foi oportunamente contestado.

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  15. Você mente e distorce e sabe muito bem disso.

    Mas você 'pode', afinal você se acha 'especial', não é?

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  16. Roberto, por que você simplesmente não consegue perceber que religião é algo pessoal, cada um escolhe o que acha melhor. Se você acredita ou deixa de acreditar na existência de um deus, o problema é, e sempre será seu. Não basta o preconceito que um ateu sofre em variados lugares, você ainda se sente no direito de distorcer as palavras da Asa, e tentar manipular os leitores? Não interessa se ela não crê, eu não creio e a escolha é minha. Tudo bem se unir com um grupo de pessoas iguais e conversar, mas você acha mesmo que você ou qualquer um tem o direito de criticar uma escolha pessoal de alguém? Não você não tem, e já está mais que na hora de você se tocar disso. Eu tenho apenas 13 anos, sou agnóstica, fiz minha escolha da mesma maneira que você escolheu crer.

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  17. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

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  18. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    Que mulher hipócrita e confusa.

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    1. Rogério, você realmente leu tudo que escrevi? A impressão que eu tenho é que não, e que aqueles 'anti-bulistas' também não. Em todo caso, não há nada de errado em estramos confusos em certos períodos da nossa vida, e eu só seria hipócrita se fingisse que isso tudo nunca aconteceu.

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  19. Grande Asa, curti o texto. Muito bacana sua jornada de autoconhecimento. Eu também tive meus momentos de passagem por várias crenças ao longo da minha. Nasci em família espírita e frequentei mocidade espírita na adolescência. Adorava socializar no centro, até que um rapaz gay foi convidado a ser retirar do grupo. Fiquei profundamente decepcionada por um bom tempo. Depois de adulta, passei algum tempo como agnóstica, e, atualmente, estou estudando o paganismo. Abraços!

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