domingo, 6 de novembro de 2011

Resumo da apresentação sobre astrologia

no SiTP em Porto Alegre no dia 05 de novembro de 2011

Estava eu num almoço de aniversário de uma amiga, a maioria do pessoal eu não conhecia, e a conversa girava basicamente em torno de florais, reiki, energias, astrologia, entre outras coisas. Como era uma ocasião festiva em que eu era apenas uma das convidadas, fiquei na minha, e não dei a minha opinião a respeito dos assuntos. Aí alguém me perguntou qual era o meu signo. Perguntei, “qual você acha que é?”. Aí começaram a tentar deduzir o meu signo, e foi muito engraçado. Para começar já disseram que Escorpião não poderia ser. E foram indo, de signo em signo, tentando deduzir pela impressão que eu passo: Câncer (porque é meigo), Virgem (porque é observador), e assim foi, esgotando todas as possibilidades. No final eu disse, “pois é, o meu signo é justamente aquele que vocês descartaram no início: Escorpião. Para vocês verem que isso não funciona.”

Ninguém aceita qualquer pseudociência como válida se não tiver primeiro aceito a noção de “energias” e “vibrações” como fontes válidas que influenciam as nossas vidas de forma invisível.
Então parte-se do pressuposto de que a astrologia é válida, para então estudar os detalhes referentes ao mapa astral e a interpretação que se dá aos diversos aspectos envolvidos.

A astrologia é um assunto muito presente na sociedade em geral, e muita gente culta a considera válida. E isso não significa que são ignorantes, e nem mesmo que são particularmente crédulos. Significa que a astrologia conseguiu se estabelecer com muita eficiência na nossa cultura, e não por acaso. Há bons motivos para que isso tenha acontecido, e uma delas, a principal, é que ela realmente parece funcionar. Eu sei que parece estranho, mas é verdade. E o motivo de eu ter tanta certeza disso é que eu fui astróloga por quase 20 anos. E acreditava sinceramente no que fazia.

Temos uma grande necessidade de conhecimento e uma sensação de controle sobre as nossas vidas. A maioria das “artes divinatórias dão às pessoas apenas uma coisa, que é o conhecimento, a ilusão de saber o que vai acontecer. A astrologia acrescenta outra dimensão que é o autoconhecimento, a ilusão de sabermos mais sobre nós mesmos e do que nós somos capazes. Eu suponho que é por isso que a astrologia é tão popular, porque dá os dois lados, a ilusão do autoconhecimento, e a ilusão de saber o que vai acontecer. E dá um terceiro aspecto, que é a ilusão de poder saber mais sobre outras pessoas através do mapa astral deles.
E o mapa astral, sendo um gráfico, dá uma ilusão de objetividade e de racionalidade. 

Sempre me interessei por psicologia, e sempre quis entender melhor a mim mesma, tanto quanto queria entender os outros. Morava no interior e não tinha acesso a muita coisa, mas descobri um curso básico de astrologia por correspondência. Tive que aprender a fazer cálculos complicados, que envolvia uma tábua de logaritmos e um livro de efemérides, à mão para determinar a posição dos planetas no mapa astral. Não havia internet nem computadores, e a calculadora não ajudava muito. Cada mapa que eu fazia levava uma hora entre calcular e desenhar tudo. E tinha a parte da interpretação, que envolvem vários elementos nas mais diversas combinações. Eu me aprofundei naquilo o mais que pude, comprei livros e estudei muito. Para mim, o que mais importava era a análise psicológica, da personalidade e do potencial de cada um.
A análise dos signos é vaga o suficiente para que qualquer pessoa se identifique com as características descritas, assim como as previsões feitas no jornal. Quando alguém alega que não encaixou com ele, sempre tem alguém para dizer que tem que fazer o mapa astral completo, porque às vezes o signo sozinho não é determinante.

O mapa astral é basicamente um desenho de como estava o céu no momento do nascimento de alguém, e é calculado de um ponto de vista geocêntrico. São usadas as latitudes e longitudes do local onde a pessoa nasceu, além do horário. Por causa disso há uma distorção, e a movimentação planetária não é linear, e há um movimento que se chama “retrógrado”, em que os planetas aparentemente andam para trás. Isso é levado em consideração na interpretação como sendo um aspecto, ou fase, em que esse assunto está sendo prejudicado na vida da pessoa. O detalhe é que esse movimento “retrógrado” é geral, acontece com todo mundo. 

O mapa é dividido em doze casas, e a primeira casa corresponde à linha do horizonte; o signo que se encontra ali é o que se chama de ascendente. O ascendente é considerado um importante complemento ao signo solar. Por exemplo, uma pessoa de Leão (fogo) teria o seu temperamento modificado por uma ascendente em Touro (terra). Os elementos Fogo, Água, Terra e Ar também são importantes na astrologia.

O mapa astral dá milhões de combinações possíveis

Então podemos ter qualquer combinação dos doze signos com doze ascendentes, o que já dá 144 combinações possíveis. Depois temos a posição da Lua, que também é importante, e que também pode estar em qualquer um dos doze signos; aí já vamos para 1728 possibilidades.
Mas o significado da posição do Sol e da Lua também podem variar de acordo com a Casa em que se encontram. Como são doze casas, aí já temos 20.736 combinações, levando em consideração apenas um deles. 

Bom,  vou parar por aí, porque já deu para ver que com essa miríade de combinações possíveis, e tudo sujeito a vários tipos de interpretação, dá para tirar de um mapa astral praticamente qualquer coisa que se queira. Existem 12 signos, 10 corpos celestes (Sol, Lua e os planetas Mercúrio, Venus, Marte, Jupiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão), e  12 casas. Cada planeta vai ser interpretado de acordo com a casa e o signo em que está, além de se considerar os aspectos (ângulos) entre os diversos elementos.  Existem aspectos positivos, quando há um ângulo de 60 ou 120 graus entre dois deles (sextil e trígono), e negativos, quando há um ângulo de 90 ou 180 graus (quadratura e oposição). Conforme a combinação de todos esses fatores, uma característica pode ser enfatizada ou abafada, pode se expressar de forma positiva ou negativa. 

A questão não é se a astrologia “funciona”, é óbvio que não. Atribuir uma capacidade de influência de um planeta sobre a vida de uma pessoa, ainda mais atribuindo a esse planeta uma vibração específica, como associar as qualidades da deusa romana Vênus a ela, e alegar que a posição dela no momento do nascimento de alguma forma atribui uma determinada característica a uma pessoa é absolutamente incompreensível quando olhamos de forma racional e objetiva.

Então, porque a astrologia tem tanto apelo popular? O fato é que ela parece funcionar. E na verdade há um bom motivo para isso.
Aqui temos que diferenciar entre dois tipos de astrólogos. Existem os charlatães, sem dúvida, mas existem também aqueles que, como eu no passado, realmente acreditam no que fazem. E aí cabe analisar porque é possível que a própria pessoa se iludir dessa forma. 

Quem me deu a pista para eu começar a questionar a validade da astrologia foi o meu pai. Ele sempre deixou claro que não acreditava em nada disso. Um dia me surpreendeu me pedindo que eu fizesse o mapa astral dele. E me disse uma coisa que eu nunca esqueci: “de fato, eu não acredito em astrologia, mas eu acredito que você seja uma boa astróloga; seria interessante ouvir o que viria através de um filtro como você”.

 Quase sempre fiz as análises pessoalmente, sentada com a pessoa na minha frente. Eu costumava dizer que o mapa “criava vida” nessas circunstâncias; as poucas vezes que analisei um mapa sem a presença da pessoa foi muito mais difícil, parece que “trancava”. 

Voltando ao meu pai, eu realmente fiz o mapa dele, mas não consegui sentar com ele e analisá-lo.  Percebi que não conseguiria sustentar nada daquilo diante de um cético, como meu pai sempre foi. O que o meu pai queria era saber o que eu pensava dele, como eu o via, e estava disposto  a me deixar usar o mapa astral para isso. Com o tempo percebi que o que funcionava era eu, não a astrologia. Sendo uma pessoa naturalmente empática e intuitiva, eu captava muito rapidamente algumas coisas sobre as pessoas em geral, na verdade eu não precisava do mapa, ele era só um elemento de intermediação, um instrumento.

E é isso que acontece com aqueles astrólogos que acreditam no que fazem; são intuitivos e empáticos e conseguem “ler” as pessoas, mas acreditam com toda sinceridade que é a astrologia que os faz ter essa habilidade.

Teve também uma “evidência anedota”. Fiz o mapa astral de um amiga, mas quando analisei sento que o mapa não “parecia” com  ela. Perguntei se ela tinha certeza do horário, e ela perguntou para a mãe dela, que deu um horário um pouco diferente. Refiz o mapa e aí parece que estava muito mais de acordo com a personalidade dela. Isso me serviu de “prova” por muito tempo.  Uma outra vez me pediram para descrever a personalidade pelo mapa de uma pessoa que eu não conhecia.  De alguma forma consegui “acertar” o suficiente para ser convincente.

Isso tudo já faz mais de dez anos, e o meu desligamento definitivo se deu quando descobri a STR onze anos atrás e li alguns textos com pesquisas que mostravam de forma bem objetiva porque a astrologia não tinha validade. Aproveitei o momento da mudança de cidade para me livrar de toda a tralha: mapas, textos e livros. Foi um processo difícil e bastante demorado, mas quando finalmente tomei a decisão, foi um grande alívio.

Descartar a astrologia simplesmente sem analisar o porque dela ser tão apelativa é um erro. Ainda mais que a grande maioria dos astrólogos são sinceros no que fazem.  Seria simplista dizer que são todos charlatães que tem por objetivo explorar as pessoas, porque é certo que comigo não foi assim, e conheci muitos outros que também acreditavam sinceramente no que faziam.
Como qualquer outro fenômeno social, psicológico, é importante ter em mente que as coisas não dividem em preto-branco.

Curiosidade

Quanto à possível influência da Lua sobre os partos, uma crença muito popular, tenho um relato bem interessante e peculiar. O meu marido foi veterinário durante muito tempo, e manteve um registro bastante rigoroso sobre os atendimentos que fazia. Um dia reunimos mais de 20 anos de informação sobre todos os partos de vacas que ele atendeu. Combinamos as datas com as fases da Lua, e descobrimos que a incidência de partos era simplesmente distribuída de maneira uniforme em todas as fases. Não havia mais partos na Lua Cheia, como popularmente se acredita.

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Já escrevi anteriormente sobre a minha experiência na Astrologia nessa postagem - Porque a astrologia parece funcionar.

[Se alguém quiser saber mais alguma coisa sobre quais são os elementos principais na astrologia, tem um resumo aqui.]


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11 comentários:

  1. Olá Asa

    Excelente post, ótimo texto, muito bom e agradável de ler, sem deixar de ser claro, preciso e informativo.:-)

    E não sabia que tinha sido astróloga, foi uma história muito interessante.

    Eu sempre acho que a maioria das pessoas realmente acredita, de boa fé e com sinceridade, nos poderes que pensa ter, o que torna os poucos charlatães escondidos no meio mais daninhos e mais desonestos ainda.

    Um abraço.

    Homero

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  2. Homero,
    muito obrigada pelo comentário. :)

    Foi importante isso de apontar o fato de que os charlatães são tanto mais danosos porque é difícil distinguir entre estes e os bem intencionados. Por isso é importante frisar que a astrologia não funciona, não importam as intenções do astrólogo.

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  3. Eli, seria bom se conseguissemos também o resumo do Horácio.

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  4. Muito interessante o texto e suas conclusões, ainda mais vindos de uma pessoa que já esteve dos dois lados. A história das pessoas tentando adivinhar o seu signo foi muito boa! Comigo nunca funciona; as pessoas geralmente acertam e, a partir daí, já acham que tem evidências sólidas pra justificar a eficiência da astrologia...

    Um abraço!

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  5. Curiso! Achei muto interessante a maioria do pessol não lhe conhecer e, ainda assim, tentar deduzir seu signo, inclusive opinando que não poderia ser Cancer, por ser muito meigo. Cancer meigo? Só se for na astrologia praticado em marte, porque aqui na terra é nào:-)
    Eu tentaria outras justificativas: tentar descobrir o signo solar (por si só um equívoco, se é que vc praticou uma astrologia entendível para os habitantes da terra!) é realmente difícil. Por se tratar de uma festa, é possível que os participantes estivessem em "estado alterado de consciência", se é que estou sendo suficientemente claro.Enfim , não terem sido capazes de descobrir teu signo solar "prova"que a astrologia não funciona? Meu Deus: bota espírito científico nisso:-)))
    Quer saber? Astrologias não funciona pra ti porque tu não entendes patavina de astrologia! Vai estudar que ela começa a funcionar:-))) "Influência" de planetas? Pega quem te ensinou astrologia e dá uma surra porque esta pessoa te mentiu! Praticou astrologia por 20 anos? Desculpe: praticou 240 meses a astrologia que aprendeu em um mes, só pode ser isso! Vai estudar, vai...

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  6. Prezado Anônimo
    (tão confiante que nem se apresenta com o seu próprio nome), evidentemente que o meu relato é necessariamente incompleto e simplificado por se tratar de um blog e não de uma publicação científica. A festa era um almoço, ninguém estava bebendo. Quanto aos signos foram só exemplos, e as pessoas em geral tem uma visão estereotipada sobre Cancer ser meigo, não fui eu que inventei.
    Em todo caso apreciaria muito algum esclarecimento sobre COMO a astrologia funciona realmente na sua opinião.

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  7. Sou médico, e gostaria de completar a sua informação sobre partos. Na década de 1980 foi feito um levantamento dos partos realizados numa maternidade pública no Rio de Janeiro, e além de perceber que os partos são igualmente distribuídos entre as fases da lua, também apresentavam a mesma distribuição entre os 7 dias de cada fase.

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  8. Paulo,
    muito obrigada pela informação. :)
    Grande abraço

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  9. Muito bom post. Acho que se destaca pela lucidez de quem viu os "dois lados da moeda".

    Acredito que não dá para simplesmente ignorar a astrologia de cara simplesmente por ela não condizer com os dados científicos, isso porque, aqui na Terra temos outros dados que são bem claros: muitos acreditam na astrologia. Mas ao invés de pularmos para a conclusão de que se as pessoas acreditam é porque deve funcionar, podemos ver que isso diz algo sobre nós mesmos, sobre a facilidade de acreditarmos nesse controle, sobre o conforto que temos ao viajarmos com um mapa em mãos e como isso explica a nossa busca por um mapa de nós mesmos.

    Sobre a diferença entre o charlatão e o que acredita em si mesmo, Orson Welles conta como - mesmo deliberadamente sendo um charlatão - essa "mágica" pode acontecer. Acho que vai gostar do relato dele:
    http://www.youtube.com/watch?v=IjPsnfysrp8&feature=related

    Abraço.

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  10. Olhei o video e é realmente muito bom, muito revelador. E deve ser por isso mesmo que tem tantos "místicos" por aí que realmente acreditam no que fazem.
    (demorei para postar e responder porque a postagem foi para a caixa de spam, e só olhei lá agora há pouco)
    Grande abraço

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