quarta-feira, 24 de agosto de 2011

É para isso que servem os Direitos Humanos!

Para proteger pessoas como este médico, que foi preso injustamente e tratado brutalmente (vejam a entrevista mais abaixo).

Este é um excelent exemplo de como qualquer um de nós pode estar no lugar errado na hora errada, e aí gostaríamos muito se alguém levasse em consideração os nossos Direitos Humanos neste momento.

Espero que algumas pessoas párem de falar que "Direitos Humanos só servem para proteger bandido" depois dessa notícia.

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24 de Agosto (hoje)

O SUSPEITO ERRADO

Participação de médico em assalto é descartada

A polícia descartou ontem, de forma definitiva, a participação do médico aspirante a oficial do Exército Rodrigo Fialho Viana, 32 anos, no assalto ao juiz Rinez da Trindade na noite da última quinta-feira, em Porto Alegre. O militar foi detido pouco depois da ação de dois criminosos contra o magistrado, na Rua Cabral, no bairro Rio Branco, apontado pelo juiz como um dos supostos envolvidos no crime.

Conforme o delegado Abílio Pereira, da 10ª Delegacia da Polícia de Porto Alegre, o depoimento de uma testemunha na manhã de ontem foi fundamental para afastar a hipótese de participação do médico no crime. O homem teria cruzado pelos dois verdadeiros assaltantes durante a fuga.

– Ele viu bem os criminosos depois do assalto. Depois, viu os dois detidos dentro da viatura e chegou a dizer aos policiais que não eram eles, mas não o levaram em consideração – explica o delegado Abílio.

Juiz diz que espera prisão de verdadeiros assaltantes

Somado ao depoimento da testemunha está o registro de uma ligação entre o militar e o amigo no horário aproximado do assalto. Esse fato tiraria o médico da cena do crime, segundo o delegado.

– Agora vamos investigar quem é que assaltou o juiz de fato – finalizou, sem confirmar se já há suspeitos da ação.

O advogado de Viana, Alexandre Dargel, disse que ainda ontem seu cliente deveria estar de volta a sua unidade do Exército em Bagé. Dargel afirmou que o médico não comentou com ele sobre a sua exclusão do caso, mas ressaltou que continuava abalado com a situação.

Sem mudar a rotina depois do assalto, o juiz Rinez da Trindade aguarda o final das investigações e a prisão dos verdadeiros criminosos, cujas características de um deles seriam muito semelhantes às do médico, segundo o magistrado. Trindade tem comentado que se submete à lei se houver “evidências concretas de que não foi ele”, e que “jamais gostaria de ver um inocente ser acusado injustamente”.

O juiz foi atacado por dois homens quando chegava de carro à casa de um amigo. Os assaltantes teriam se assustado com a reação de um amigo do magistrado e fugiram levando a arma, a chave do carro e os documentos de Trindade. Apontado pelo juiz como um dos supostos assaltantes, Viana disse que era médico, mas não portava documentos para provar. Ele foi detido em flagrante depois de ser reconhecido por Trindade. Levado ao 3º Batalhão de Polícia do Exército, foi libertado no final da tarde de sexta-feira.

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23 de agosto (ontem)

POLÊMICA APÓS ASSALTO

Médico relata medo e agressões

Ainda traumatizado pelos acontecimentos, Rodrigo Fialho Viana, 32 anos, médico e aspirante a oficial do Exército, recordou ontem a conturbada noite de quinta-feira, quando foi preso por uma patrulha da Brigada Militar (BM) após o juiz Rinez da Trindade, 53 anos, ser assaltado na Rua Cabral, tradicional via do bairro Rio Branco, um dos pontos movimentados de Porto Alegre.

Ao ser preso, ele disse quem era. Mas ninguém acreditou e o militar não carregava os documentos para provar. Foi detido em flagrante depois de ser reconhecido pelo juiz como autor do crime. Levado para o 3º Batalhão de Polícia do Exército, foi libertado no final da tarde de sexta-feira. Conforme o delegado Abílio Pereira, da 10ª Delegacia da Polícia Civil da Capital, três depoimentos foram colhidos ontem sobre o caso, mas nenhum foi conclusivo. Hoje, uma nova testemunha será ouvida para tentar elucidar o que aconteceu.

Ontem, na companhia de seu advogado, Alexandre Dargel, Viana falou por telefone com Zero Hora antes de seguir viagem para a sua unidade militar, em Bagé. A seguir, trechos da entrevista.



ENTREVISTA

“Não podia ter sido tratado assim, mesmo se fosse culpado”

Rodrigo Fialho Viana, médico aspirante a oficial do Exército

Zero Hora – Como tudo começou?

Rodrigo Fialho Viana –
Recebi uma ligação do Daniel (Daniel Rohde, amigo que reside na Rua Vasco da Gama, a cerca de 50 metros da mãe do médico) me convidando para ir até a casa dele, onde estava um amigo nosso. Troquei de roupa e fui. Chegava ao portão quando fui abordado pelos soldados, que chegaram de moto.

ZH – Ao lhe abordarem, eles pediram documentos?

Viana –
Sim. Mas eu não tinha.

ZH – Por que o senhor saiu de casa sem documentos?

Viana –
A casa do meu amigo é pertinho. Mas me identifiquei para os policiais como oficial do Exército e médico. Eles não deram bola e fui algemado de uma maneira que quase quebrou os meus pulsos.

ZH – Consta que o levaram até o juiz. Como foi levado?

Viana –
Fui colocado algemado dentro de um Vectra. Na hora, cheguei a pensar que estava sendo vítima de um sequestro por pessoas disfarçadas de policiais, eu não queria acreditar no que estava acontecendo. Mas era real. Eles seguiram pela Rua Vasco (da Gama), na contramão, até o local onde tinha acontecido o episódio, na Rua Cabral.

ZH – O que aconteceu quando chegaram lá, na Rua Cabral?

Viana –
Fui colocado contra uma parede, na frente de umas 50 pessoas. Um senhor, que depois vim a saber que era um juiz, apontou o dedo na minha direção e disse: é este. O juiz falava na minha cara e perguntava onde estavam as armas. Respondi que ele estava louco. Senti que a minha vida corria perigo porque fui agredido.

ZH – Ao ser levado para a Polícia Civil, o que aconteceu dentro do veículo da Brigada Militar?

Viana –
Encolhi os joelhos e creio que os policiais pensaram que iria reagir. Daí me bateram novamente.

ZH – O senhor foi preso. Foram feitos os exames de corpo de delito?

Viana –
Fizeram. Mas de uma maneira muito superficial. Depois, no Exército (3º Batalhão de Polícia do Exército, para onde o médico foi encaminhado na manhã de sexta-feira), fizeram um exame mais detalhado, inclusive de urina para saber se havia a presença de drogas.

ZH – Quando o senhor percebeu a dimensão da situação?

Viana –
Logo que a porta da cela se fechou. Fiquei calmo, as lágrimas vieram, e percebi que tinha de esperar.

ZH – O juiz disse que havia observado bem os dois assaltantes, inclusive a roupa. O senhor vestia uma roupa semelhante?

Viana –
A roupa teve um peso, no calor dos acontecimentos. Mas, depois, na Polícia Civil, quando meus amigos falaram sobre mim, o juiz deveria ter prestado atenção aos argumentos. Mas persistiu firme no seu ponto de vista. Eu não podia ter sido tratado como fui, pela polícia e por órgãos de comunicação. Mesmo se fosse culpado, porque nenhum cidadão pode ser agredido ou exposto a uma multidão furiosa. No restante, vou tocar para frente e deixar a cargo do advogado as reparações pelo que passei.

ZH – E sobre sair de casa sem documentos?

Viana –
Nunca mais.

2 comentários:

  1. Eis o estado democrático de direito que vivemos, não basta se identificar, tem que apresentar documentos, a despeito da inexistência de lei obrigando. E na frente de quem ocupa o cargo de juiz de direito.

    Haverá o dia em que as pessoas vão entender o motivo pelo qual existe um poder judiciário.

    Obrigado por compartilhar!

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