terça-feira, 31 de agosto de 2010

O amor maduro, sem dependência emocional (e como isso afeta as nossas vidas)

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[entrevista com Flávio Gikovate]

Psicólogo Flávio Gikovate revela como serão as relações amorosas e sexuais no futuro

Escritor lança seu trigésimo livro, focado nas mudanças dos relacionamentos

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"Para o psicólogo Flávio Gikovate, estamos passando por um momento de grandes mudanças nos relacionamentos afetivos. Os homens estão tendo que aprender a lidar com uma nova mulher. Já elas estão percebendo que praticar o sexo casual pode não ser uma boa ideia. Em seu trigésimo livro, Sexo (ed. MG Editores), Gikovate avalia o impacto que os últimos 40 anos tiveram nas relações sexuais e amorosas. Em entrevista à Agência O Globo, o psicólogo explica como serão os relacionamentos no futuro."

Homens e mulheres reclamam que não conseguem achar um par e que estão insatisfeitos com as relações amorosas. Por que isso acontece?


Flávio — Temos evoluído pouco no aspecto sentimental. As pessoas continuam buscando parceiros com os quais não têm afinidades intelectuais, de caráter, projetos e estilo de vida. O erotismo costuma se dirigir na direção da busca de parceiros mais para egoístas, pouco confiáveis e difíceis de provocar envolvimentos de qualidade. Assim, a grande maioria dos casais ainda é constituída por uma criatura mais para generosa e outra mais egoísta. Isso dá um tipo de relação incompleta e que, com os anos, acaba determinando a separação. Os casais se separam pela mesma razão que se casam: as diferenças de temperamento e de caráter. O que funciona bem é o encontro de criaturas afins. Isso já é dito, pois as pessoas falam em "almas gêmeas", mas na prática o medo da felicidade sentimental as leva a buscar mesmo é a "tampa de sua panela".

Leia tudo aqui:
http://tinyurl.com/334ucnb

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Sempre gostei desse autor por suas opiniões bastante sensatas sobre esse tema dos relcionamentos.

Em um outro livro desse mesmo autor, ele dizia que "só quando somos capazes de suportar a solidão é que somos capazes de amar de verdade.".
Se não, o que vai acontecer é que vamos nos "pendurar" na outra pessoa, e isso não gera um relacionamento satisfatório porque a insegurança e o medo de perder a outra pessoa leva a um comportamento manipulador e sufocante.

Só quando estamos com outra pessoa livremente, porque nos sentimos bem e felizes com ela, é que pode dar certo. Não ser dependente emocionalmente não significa de forma nenhuma que não sejamos capazes de amar profundamente essa pessoa, nem significa que ela não nos faria falta se nos deixasse. Significa que, embora eu fosse sofrer com sua ausência, quero que ele ou ela esteja comigo por livre e espontânea vontade, e não por sentimentos de culpa ou obrigação.

E acho também que essa atitude, uma vez alcançada, tem reflexos mais amplos.

Da mesma forma que aprendemos a não manipular ou ser manipulado por outra pessoa no relacionamento amoroso, aprendemos também a não deixar que isso aconteça no âmbito familiar, social e religioso.

A tônica principal das religiões é quase sempre manipulação por culpa e medo (com raras exceções), e é assim que mantém os seus "fiéis".

Percebem a semelhança?

O amadurecimento emocional pessoal nos leva a ter uma vida bem mais gratificante em todos os níveis, e começa com aquilo que eu mencionei no início: a capacidade de suportar a solidão.

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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

[Bule Voador] Por que você ainda não se matou?

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Por Rayssa Gon

É muito comum nós, ateus (e até agnósticos, neste caso), sermos confrontados por pessoas crentes com perguntas que, apesar de aparentemente neutras (para eles), já estão carregadas de preconceitos e idéias, no mínimo, equivocadas. Gostaria de destacar duas delas que me impressionam por sua absoluta falta de sentido e discriminação. O pior é que, muitas vezes as pessoas nem se dão conta do quanto estão sendo preconceituosas!

Logo depois de saberem sobre nossa postura de vida, muitos teístas fazem uma pergunta clássica: se você não acredita em deus, por que ainda não se matou? Sim, já me fizeram essa pergunta algumas vezes e usando exatamente os mesmos termos – na verdade, uma vez colocaram um “meteu uma bala na cabeça” no lugar de “se matou”.

Leia tudo em:
Por que você ainda não se matou?


A propósito desse assunto, há mais ou menos um ano tive uma correspondência com um teísta ("Uma discussão interessante"), em que também ficou muito claro o quanto são preconceituosos e nem notam. A pessoa realmente achou que não estava me ofendendo: http://justprints.multiply.com/journal/item/1/1

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domingo, 29 de agosto de 2010

100 cidades contra o apedrejamento – relato e fotos

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“Eu vim em oração pela vida dela, que bom que vocês estão fazendo isso”, disse ela, tirando da bolsa uma imagem de uma santa. “Esta santa dizia sempre que não se deve atirar a primeira pedra”. Era uma imagem de Maria Madalena.

“Não somos religiosos”, respondemos, “mas ficamos felizes de estar juntos contigo na defesa da vida”. Ela então nos abraçou muito afavelmente, agradeceu mil vezes, tirou uma foto nossa, assinou o abaixo-assinado e foi embora. E outros como ela vieram e assinaram, marcando um evento modesto no Brasil, porém gigante no mundo, com mais de 100 cidades sincronizadas.

É esta uma das imagens que nos marcou no protesto de ontem pela vida da iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani e contra o ritual bárbaro do apedrejamento no Irã e outros países. Apesar de ser um fim de tarde de um sábado chuvoso em Porto Alegre, conseguimos poucas dezenas de assinaturas, com sobrenomes como Koch, Machado, Lereutz, Silvestre, Belloli, Schneider, Cioccani, Festinalli, Porto, Silva, etc. – uma mistura bem característica da cidade. Uma petição simbólica frente a outras com centenas de milhares de assinaturas na internet.

Também foi até lá uma advogada que trabalha na OAB e nos falou da Rede Feminista, que também planeja um protesto semelhante caso a situação não mude."

Leia tudo e veja as fotos:
100 cidades contra o apedrejamento – relato e fotos

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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Entrevista na Rádio Gaúcha sobre o manifesto contra o apedrejamento

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Autor: Audio Gaucha

Categoria: Gaúcha Repórter

Tags: gaúcha repórter, entrevista, eli vieira, apedrejamento, adultério, irã, protesto, mundo, asa Heuser, Liga Humanista Secular do Brasil, Sakineh Mohammadi

Cidades de todo o mundo vão participar de protestos neste sábado contra o apedrejamento da iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, 43 anos, condenada por adultério. Porto Alegre é uma das quatro cidades brasileiras entre as 106 confirmadas na ação, convocada pela ONG Comitê Internacional contra o Apedrejamento. A vice-presidente da Liga Humanista Secular do Brasil, Asa Heuser, fala sobre a mobilização que acontecerá amanhã na Esquina Democrática, às 16h. Segundo ela, o objetivo é repensar os métodos de execução no mundo. No local, serão colhidas assinaturas.

http://mediacenter.clicrbs.com.br/templates/player.aspx?uf=1&contentID=134259&channel=232&forceWmEmbed=true

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O planeta contra o apedrejamento [na Zero Hora de hoje]

Caso da iraniana Sakineh Ashtiani, condenada no Irã por adultério, motiva dia de protesto amanhã

Link para a reportagem aqui.

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AÇÃO GLOBAL
O planeta contra o apedrejamento
Caso da iraniana Sakineh Ashtiani, condenada no Irã por adultério, motiva dia de protesto amanhã

Em meio à indignação mundial provocada pelo caso da iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, dezenas de cidades de todo o planeta participarão, neste sábado, de um dia de protestos contra as sentenças de morte por apedrejamento. Entre as 106 confirmadas na ação – convocada pela ONG Comitê Internacional contra o Apedrejamento –, Porto Alegre é uma das únicas quatro no Brasil.

A manifestação será realizada às 16h, na Esquina Democrática (Andradas com Borges de Medeiros). A iniciativa de inscrever a capital gaúcha no evento foi do mineiro Eli Vieira, estudante de pós-graduação em Genética Humana na UFRGS e membro da Liga Humanista Secular do Brasil (LiHS), um grupo dedicado a “apoiar e representar pessoas não religiosas que buscam viver sem crenças sobrenaturais”. O apelo para participação veio da ativista de direitos humanos iraniana Maryam Namazie.

Os manifestantes empunharão cartazes e reunirão assinaturas em um abaixo-assinado simbólico contra o apedrejamento. Voluntários de qualquer cidade podem inscrever ações no site da ONG (http:// stopstonningnow.com/wpress/2249). Outras informações sobre o evento em Porto Alegre podem ser obtidas pelo e-mail lihsbrasil@gmail.com.

Acusada de adultério, Sakineh, 43 anos, foi condenada a morrer apedrejada. Recentemente, por pressões internacionais, a execução foi alterada para enforcamento. Mesmo assim, outras mulheres e homens estão sentenciados à morte por apedrejamento no Irã.

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sábado, 21 de agosto de 2010

União internacional de humanistas e ateus condena queima do Corão

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União internacional de humanistas e ateus condena queima do Corão

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Por mais que eu não concorde com o conteúdo do Corão, acho um absurdo a idéia de queimá-la.

Também não concordo com o conteúdo da Bíblia, e nem por isso os cristãos achariam correto se eu resolvesse queimá-la.

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quarta-feira, 18 de agosto de 2010

100 cidades contra o apedrejamento [POA 28/08 16h]

Ato público internacional contra o apedrejamento

O regime do Irã recusou a oferta do Brasil de acolher Sakineh Mohammadi Ashtiani.
Depois de ter dado 99 chibatadas nesta mulher na frente de seu próprio filho e a condenado a 10 anos de prisão por "perturbar a paz social",
o regime dos aiatolás insiste em continuar o processo de condenação de Sakineh à morte por apedrejamento sob falsas acusações de adultério.

A pena por apedrejamento consiste em enterrar a mulher até a altura dos ombros e atirar pedras contra sua cabeça,
com tamanho certo para não matá-la de imediato mas fazer com que sofra lentamente com os golpes até o fim.

Convidamos você para se juntar a nós numa manifestação contra essa brutalidade.

Vamos mostrar que os brasileiros não toleram a crueldade e a opressão,
e que o interesse do nosso governo na economia do Irã não é maior do que nosso respeito pela vida humana!

CONDENAMOS O APEDREJAMENTO, A LEI IRANIANA, E O SILÊNCIO DO GOVERNO BRASILEIRO FRENTE À VIOLAÇÃO CONSTANTE DE DIREITOS HUMANOS QUE ACONTECE NO IRÃ!

100 cidades no mundo todo vão protestar ao mesmo tempo. Mais de 58 cidades já confirmaram.

Onde?
Porto Alegre
Esquina Democrática - Av. Borges de Medeiros X Rua dos Andradas

Quando?
Sábado, 28 de agosto de 2010, às 16h.

O que levar?
Cartazes, fotos de Sakineh, e o que sua criatividade puder criar para manifestar sua indignação.

Mais informações: www.stopstonningnow.com
Contato: lihsbrasil@gmail.com

Nos vemos lá.

Eli Vieira - presidente
Åsa Heuser - vice-presidente
Maryam Namazie - sócia emérita
Liga Humanista Secular do Brasil

domingo, 15 de agosto de 2010

Åsa Heuser, ateia de bom humor, é vice-presidente da LiHS

“Saímos do armário justamente para combater o preconceito segundo o qual quem não tem religião não consegue educar uma família com referências morais fortes”. Foi o que disse uma mãe à revista Veja, oito anos atrás, numa raríssima reportagem da grande mídia sobre ateísmo. Uma das fotos da revista era de sua família.

Esta mãe, agora também avó, é Åsa Heuser (pronuncia-se “Ôssa Róizer”). Na época da entrevista, Åsa se dedicava à Sociedade da Terra Redonda, primeira organização de céticos e ateus de que se tem notícia no Brasil. Além da discriminação contra ateus, outro assunto que preocupa a simpática finlandesa são os direitos dos homossexuais – ela criou até um blog para denunciar a pseudociência antigay.

Leia mais em:
Åsa Heuser, ateia de bom humor, é vice-presidente da LiHS

domingo, 8 de agosto de 2010

Meu pai

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Meio lugar-comum, eu sei, mas me deu vontade de escrever sobre isso.

Até porque, se hoje sou o que sou, devo isso em parte a ele, assim como minha mãe, minha vó, e várias outras pessoas que tiveram inflência na minha vida.

Ele era ateu, assim como os meu avós. Era bastante retraído e tímido, mas me emprestava livros sobre os quais conversávamos depois, era o jeito dele. Ele me ensinou muito, e tinha uma postura ética bem definida. Já faz um ano e meio que faleceu, mas ele está sempre presente na minha vida, por todas as lembranças que deixou. Ele era capaz de ser muito gentil, embora tivesse grande dificuldade de expressar sentimentos.

Às vezes sentávamos e tomávamos cerveja ou vinho juntos, e aí tivemos conversas muito significativas sobre assuntos pessoais. Essas lembranças guardo com especial carinho.

Sinto saudades.

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sábado, 7 de agosto de 2010

Mulheres: como evitar canalhas

Alguns dos conselhos mais sensatos que já vi.

Mulheres, meninas, prestem atenção!

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quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Os ateus e o mal [por Hélio Schwartsmann]

Os ateus e o mal [por Hélio Schwartsmann] http://www.folha.com.br/ps777922

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A pedidos, comento a guerra que o apresentador da TV Bandeirantes José Luís Datena declarou aos ateus do Brasil.

Tudo começou no último dia 27, quando o âncora, a pretexto de comentar um par de crimes hediondos, resolveu criar um enquete na qual as pessoas deveriam entrar em contato com o programa e responder se acreditavam ou não em Deus.

Quando o número de "nãos" superou suas expectativas, Datena resolveu intervir, incentivando os fiéis a votar a favor do Todo-Poderoso. A seguir, alguns dos melhores momentos:

"--Como? Nós temos mais de mil ateus? Aposto que muitos desses estão ligando da cadeia."

"--Ateus são pessoas sem limites, por isso matam, cometem essas atrocidades. Pois elas acham que são seu próprio Deus."

"--É só perguntar para esses bandidos que cometem essas barbaridades pra ver que eles não acreditam em Deus."

O apresentador disse ainda que só quem não acredita em Deus é capaz de cometer crimes. Afirmou que ateus são "pessoas do mal", "bandidos", "estupradores", "assassinos". Chegou bem perto de declarar que a culpa da violência e da corrupção no Brasil é dos ateus.

Ao final da diatribe, provavelmente alertado pela produção de que havia protestos, tentou contemporizar. Reconheceu a possibilidade lógica de existir pessoas que não acreditam em Deus e não cometem crimes. E emendou:

"--Mas a maioria de quem (sic) mata, de quem estupra, de quem violenta, de quem comete crimes bárbaros, já esqueceu de deus há muito tempo. Há muito tempo."

A blogsfera dos ateus está em polvorosa. Meu amigo Daniel Sottomaior, da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (Atea), já quer processar o apresentador.

Pessoalmente, não acho que seja o caso. Acredito em liberdade de expressão em sua forma forte. O Datena é livre para dizer o que pensa de ateus, e, nós para afirmar o que quisermos de suas declarações, da religião e da própria ideia de Deus. O debate tende a ficar veemente, mas, enquanto ninguém substituir palavras por fogueiras, estamos num jogo razoavelmente civilizado. Se só pudermos dizer o que as pessoas estão dispostas a ouvir sem ofender-se, a liberdade de expressão nem precisaria estar inscrita na Constituição.

Isto posto, analisemos o mérito das acusações do apresentador. Bem ao modo dos religiosos, valho-me de uma parábola.

Como mostrou reportagem de minha autoria publicada há poucos dias na Folha e na Folha.com, a Cúria Metropolitana de São Paulo foi condenada por litigância de má-fé, mais especificamente, por violar o inciso II do artigo 17 do Código de Processo Civil ao "alterar a verdade dos fatos" nos autos do processo --ou seja, por mentir.

Tal prática não contraria só a justiça dos homens mas também o oitavo mandamento, que reza: "Não levantarás falso testemunho contra teu próximo" (Êx. 20,16).

Consultada, a cúria preferiu não comentar o caso. Disse apenas que já interpôs recurso contra a decisão no Tribunal Superior do Trabalho, em Brasília.

A condenação saiu por unanimidade pela 12ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo. Ela veio no curso da ação movida pelo economista Paulo Roberto Arvate, professor da PUC que havia sido demitido em 2006, no meio de uma ampla reformulação da universidade, que enfrentava séria crise econômica.

O advogado de Arvate, Nelson Rothstein Barreto Parente, acionou não apenas a Fundação São Paulo, mantenedora da PUC, mas também a cúria, por entender que a segunda controla a primeira.

Os defensores da cúria contra-argumentaram, afirmando que a relação entre seu cliente e a fundação se limitava à escolha do reitor, não havendo, portanto, nenhuma possibilidade de ingerência. Com isso, a inclusão da cúria como parte na ação seria despropositada.

Foi aí que a igreja entrou em apuros. Tais declarações contrariavam não apenas os estatutos da PUC, que atribuem ao arcebispo de São Paulo o posto de grão-chanceler e diversos poderes na universidade, como também entrevistas de dom Cláudio Hummes (arcebispo até 2007) e de dom Odilo Scherer (arcebispo a partir de 2007) dadas à Folha em que ambos diziam explicitamente que a reestruturação da PUC foi ordenada pela igreja.

Com isso, Barreto Parente pediu a condenação da cúria por litigância de má-fé, e a Justiça lhe deu razão em dezembro passado. O professor demitido venceu a ação.

O que essa historieta mostra? Ela sugere que é complicado ligar de forma forte virtude a religião. Embora diversas crenças se apresentem como fonte da moral, esse é um vínculo que não resiste às evidências empíricas disponíveis nem à análise da incipiente ciência moral.

Se é da religião que vem a moral, deveríamos, como vivamente prognosticou Datena, encontrar nas prisões um grupo desproporcionalmente grande de ateus e menor de religiosos. Não é isso, porém, o que sugerem os dados. Estatísticas reveladas por uma funcionária do Birô Federal de Prisões dos EUA de 1997 mostraram que a proporção de cristãos era de 80%, mesmo valor da população geral. Muçulmanos, que correspondem a algo entre 1% e 3% dos norte-americanos, eram 7,2% dos presidiários.

Já os ateus declarados, que se contam em 0,4% na população geral, eram 0,2% dos apenados.

É claro que esses dados precisam ser apreciados criticamente. Para começar, é preciso lembrar que especialmente na cadeia as pessoas mudam de religião. É provavelmente isso o que explica a concentração de muçulmanos, que já há vários desenvolvem um forte trabalho de conversão de presidiários.

Outro ponto polêmico é o da confusão entre "ateus" e "sem religião". É bastante razoável supor que, devido ao preconceito, muitos ateus "se escondam" na categoria "sem religião" ou dos que se recusam a revelar sua crença. Daí que a medida mais prudente é considerar apenas os que se declaram abertamente ateus. Aí, é claro, a base fica pequena demais para elucubrações mais sofisticadas.

Seja como for, esses dados servem para mostrar que a religião não oferece efeitos protetores sobre o crime. E, se é verdade que há menos ateus, isso provavelmente se deve ao fato de que essa é uma população mais instruída e, consequentemente, rica. A pobreza é um fator preditivo de criminalidade bem mais poderoso que a religião.

A ausência de vínculo entre religião e "bom comportamento" também foi verificada nos EUA em relação a divórcios (vistos como pecado ou falha moral por várias igrejas) e trabalho voluntário de médicos. Na verdade, médicos ateus e agnósticos se mostraram um pouquinho mais generosos para com os necessitados do que seus colegas religiosos, de acordo com um trabalho citado por Darrel Rey em "The God Virus".

No Brasil, temos pelo menos os dados das separações. Como procurei mostrar numa reportagem publicada (só para assinantes da Folha e do UOL) há algumas semanas, as religiões não bastam para segurar os casamentos.

Esses resultados talvez sejam surpreendentes para o Datena, mas não à luz da biologia. Numa leitura darwinista, a moral nada mais é do que uma coleção de sentimentos como os de justiça, culpa, raiva, lealdade que evoluíram para possibilitar e aprimorar a vida em sociedade. O advento da linguagem permitiu relações muito mais sofisticadas de altruísmo recíproco. É basicamente essa complexidade que nos diferencia de outros primatas.

Evidentemente, tudo isso teve de ocorrer dezenas de milhares de anos antes de o primeiro padre rezar a primeira missa --ou nossa espécie não teria chegado até aqui.
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Hélio Schwartsman, 44 anos, é articulista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha.com.

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