sábado, 31 de julho de 2010

Contra o estatuto do nascituro

Porque um Estatuto do Nascituro ameaça a todos nós

O Projeto de Lei 478/07, mais conhecido como Estatuto do Nascituro, ( http://www.camara.gov.br/sileg/integras/770928.pdf ) ameaça a saúde de todos os brasileiros e brasileiras, mas principalmente das mulheres grávidas, em especial as enfermas, as mais pobres, e as sem acesso a informação e cuidados de saúde adequados.

Em sua versão original, o PL proíbia o aborto em TODOS os casos, inclusive quando a gravidez ameaçasse a vida da mulher ou fosse resultante de estupro, e tornava CRIME a pesquisa com células-tronco, embrionárias, usadas em tratamentos de saúde e autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal. Além disso, tornava o aborto crime hediondo, ou seja, inafiançável, e que deve ser cumprido inicialmente sempre em regime fechado (prisão). Basicamente, era um projeto que, entre outras coisas, proíbia uma vítma de estupro de interromper a gravidez e, caso ela tentasse fazê-lo, a lei consideraria o ato dela tão grave quanto o estupro (que também é crime hediondo). Um tapa na cara de todas as vítimas, [....]

Continue lendo aqui: http://contraoestatutodonascituro.wordpress.com/


Rejeite o Estatuto do Nascituro! Proteja a saude das mulheres e a terapia com celulas-tronco!
http://womensrights.change.org/petitions/view/rejeite_o_estatuto_do_nascituro_proteja_a_saude_das_mulheres_e_a_terapia_com_celulas-tronco_2

Clique no TAKE ACTION na barra lateral para assinar a petição.

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A propósito do meu video no Youtube.

Na tarde de quarta-feira, dia 28/07, fiz um video em protesto às declarações de Datena no seu programa Brasil Urgente no dia anterior, 27/07. Desde então já teve uns 5.500 acessos e mais de 200 cometários. A maioria são comentários de apoio, mas também tem alguns negativos, como seria de esperar.

Um desses comentário foi especialmente vulgar (e não vou reproduzi-lo aqui, é chulo demais), e eu respondi ironicamente que foi uma coisa muito "linda" de se dizer para alguém que não conhece. Recebi em resposta que, já que eu respondi, o comentário "deve ter calado fundo". Na verdade a minha resposta foi para ver se (vã esperança) a pessoa conseguia sentir um pouquinho de vergonha pelo que disse.

Previsivelmente a pessoa se revelou uma pessoa totalmente sem sentimentos e de coração empedernido. Esse é um exemplo do que são capazes alguns dos que (dizem) "tem deus no coração". Felizmente esses são minoria, e eu recebi também várias mensagens de apoio de pessoas religiosas que não concordam com o tipo de preconceito manifestado pelo Datena e por esse comentarista que mencionei acima.

O interessante é que tem muita gente que professa uma religião, mas ainda assim cometem crimes. Há muitos exemplos, é só procurar.
Alguns exemplos: A moça que matou os pais porque queria dinheiro para pagar o dízimo; o caseiro que matou os patrôes porque estavam "com o demônio no corpo"; uma mulher nos EUA que matou os cinco filhos porque acreditava piamente que estava "salvando as suas almas".

Outro ponto interessante é que disseram que "o comunismo matou em nome do ateismo", mas as Cruzadas tiveram apenas "motivação comercial e social". Na verdade tanto um caso quanto o outro tinham a ver com poder, e muitas teocracias passadas e presentes também mataram/matam gente que manifesta discordância, porque estes ameaçam o seu poder. Em tempo, o comunismo de Stalin foi uma aberração tão terrível quanto a Inquisição e o Salazarismo, por exemplo. Ditadura é ditadura, não importa o nome que tenha.

No entanto, o argumento é sempre o mesmo: se a pessoa cometeu um crime, então não era um 'verdadeiro' cristão, não tinha verdadeiramente 'deus no coração'.
Então eu perguntei: "Como se distigue um 'verdadeiro' cristão de um 'falso', ANTES dele cometer um crime?"
A resposta deixou claro que isso não é possível, até a pessoa cometer um crime não tem como saber, só depois.

Aí eu chego à conclusão, aparentemente paradoxal, de que uma pessoa que declara honestamente que não tem nenhuma crença religiosa é muito mais confiável do que qualquer pessoa que se declara religiosa, posto que não é possível saber se ela está fingindo ou não.

É de se pensar, não?

terça-feira, 27 de julho de 2010

Datena difama MILHARES de brasileiros!!

No seu programa de hoje (27/7) Datena resolveu extrapolar em um hábito que já tem há muito tempo. Do alto de seu extremo preconceito ele tem o costume de dizer que quem comete um crime bárbaro "não tem deus no coração".

Hoje ele colocou uma enquete no ar, para que as pessoas respondessem se são ateus ou não. Disse que quem estava respondendo NÃO, devia estar votando "de dentro das cadeias", reafirmou o que sempre diz, que só "quem não acredita em deus" é capaz de cometer crimes, e muitas outras enormes besteiras.

Isso desencadeou uma campanha no Twitter: #CalaBocaDatena, e muitas manifestações em blogs contra esse total absurdo!

E não vai parar por aqui!!

HOJE SIM, ESTOU DE MAU HUMOR!!

sábado, 24 de julho de 2010

Martha Medeiros em defesa do casamento gay

Na Zero Hora de domingo (que já é distribuído aos assinantes no sábado à tarde) tem a opinião de Martha Medeiros a respeito do casamento gay

Vou reproduzir abaixo e destacar algumas partes mais relevantes. Sugiro que o máximo possível de pessoas escrevam um e-mail parabenizando-a pela opinião, para contrabalançar os que vão cair em cima dela com seus preconceitos. E também é bom escrever para a coluna do leitor.

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A fé de uns e de outros

Religião deveria servir apenas para promover o amor e a paz de espírito

Apoio que as pessoas se manifestem publicamente contra a violência urbana, contra os altos impostos que não são revertidos em benefícios sociais, contra a corrupção, contra a injustiça, contra o descaso com o meio ambiente, enfim, contra tudo o que prejudica o desenvolvimento da sociedade e o bem-estar pessoal de cada um. No entanto, tenho dificuldade de entender a mobilização, geralmente furiosa, contra escolhas particulares que não afetam em nada a vida de ninguém, a não ser aos diretamente envolvidos, caso da legalização do casamento gay, que acaba de ser aprovado na Argentina.

Se dois homens ou duas mulheres desejam viver amparados por todos os direitos civis que um casal hétero dispõe, em que isso atrapalha a minha vida ou a sua? Estarão eles matando, roubando, praticando algum crime? No caso de poderem adotar crianças, seria mais saudável elas serem criadas em orfanatos do que num lar afetivo? Ou será que se está temendo que a legalização seja um estímulo para os indecisos? Ora, a homossexualidade faz parte da natureza humana, não é um passatempo, um modismo. É um fato: algumas pessoas se sentem atraídas – e se apaixonam – por parceiros do mesmo sexo. Acontece desde que o mundo é mundo. E se por acaso um filho ou neto nosso tiver essa mesma inclinação, é preferível que ele cresça numa sociedade que não o estigmatize. Ou é lenda que queremos o melhor para nossos filhos?

No entanto, o que a mim parece lógico, não passa de um pântano para grande parcela da sociedade, principalmente para os católicos praticantes. Entendo e respeito o incômodo que sentem com a situação, que é contrária às diretrizes do Senhor, mas na minha santa inocência, ainda acredito que religião deveria servir apenas para promover o amor e a paz de espírito. Se for para promover a culpa e decretar que quem é diferente deve arder no fogo do inferno, então que conforto é esse que a religião promete? Não quero a vida eterna ao custo de subjugar quem nunca me fez mal. Prefiro vida com prazo delimitado, porém vivida em harmonia.

Sei que sou uma desastrada em tocar num assunto que deixa meio mundo alterado. Daqui a cinco minutos minha caixa de e-mails estará lotada de agressões, mas me concedam o direito ao idealismo, que estou tentando transmitir com a maior doçura possível: não há nada que faça com que a homossexualidade desapareça como um passe de mágica, ela é inerente a diversos seres humanos e um dia será aceita sem tanto conflito. Só por cima do seu cadáver? Será por cima do cadáver de todos nós, tenha certeza. Claro que ninguém precisa ser conivente com o que lhe choca, mas é mais produtivo batalhar pela erradicação do que torna nossa vida ruim, do que se sentir ameaçado por um preconceito, que é algo tão abstrato.

Pode rir, mas às vezes acho que acredito mais em Deus do que muito cristão.

e-mail: marthamedeiros@terra.com.br
Coluna do Leitor: leitor@zerohora.com.br

Eu simplesmente ADORO essa mulher! Quero ser como ela quando crescer. :)


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Na mesma linha tem um artigo em defesa da adoção por casais homossexuais:
[Zero Hora] A roda dos enjeitados, por Ronaldo Sindermann*

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Encontro de Ateus em Porto Alegre 2010

Educação Básica de qualidade - fator essencial de sucesso

Além da cor da pele - "[na Africa do Sul] a educação básica se tornou prioridade..uma nova classe negra se formou.

Artigo completo aqui.

O grande problema do Brasil é este: a educação fundamental pública é deplorável. Se esse problema fosse solucionado, não haveria necessidade de medidas paliativas e ineficientes com as cotas, por exemplo. Todos teriam condições de competir.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

"Sim, eu aceito"

Brasil ganha campanha "Sim, eu aceito" a favor do Casamento Gay - http://www.athosgls.com.br/noticias_visualiza.php?contcod=29740


Astrid Fontenelle e Cazé Peçanha aderiram à campanha "Sim, eu aceito", que pede a aprovação, pelo Congresso Nacional, do casamento entre Homossexuais.

Os senadores argentinos acabaram de aprovar um projeto parecido no país vizinho e agora os Gays de lá poderão oficializar suas uniões. Por aqui, a proposta de lei espera parecer dos deputados e senadores há cerca de 15 anos.

A campanha é promovida pela Associação Cultural MixBrasil. A apresentadora do programa "Happy Hour", do GNT, e o VJ da MTV foram as primeiras personalidades a posar com o cartaz da iniciativa. De acordo com os organizados, as atrizes Regina Casé e Betty Faria serão as próximas a apoiar a causa.

“Acredito firmemente no direito universal das pessoas firmarem seus compromissos de amor. As relações de uma vida têm direitos adquiridos e que precisam ser preservados. Se em uma sociedade comercial os direitos são preservados, em uma relação de amor também tem que ser assim. Simples assim!”, disse Astrid, ao manifestar seu apoio.

CISSA - por Martha Medeiros

Hoje eu tive a grata surpresa de ver a Martha Medeiros dizer em outras palavras aquilo que eu também penso. Eu costumo dizer que "o que importa são as pessoas e os sentimentos delas, o resto é acréscimo".

Nas palavras dela:
"a única coisa de que precisamos é ter ao nosso lado as pessoas que amamos, o resto é negociável"

A crônica:
Escrevo sob forte emoção. Acabei de saber da morte do filho da Cissa Guimarães, que foi atropelado essa manhã (de ontem) no Rio de Janeiro. Tinha 18 anos, o Rafael. Eu o conheci no apartamento da Cissa, em 2009, quando fizemos uma primeira reunião para discutir sobre a peça Doidas e Santas, baseada em livro meu, que ela estava encenando atualmente no Teatro Leblon. Semana passada, ela ainda me telefonou para dizer que a temporada havia sido prorrogada por mais três meses e brincou: “Sou ou não sou a Cissa Torpedão?”. Com aquela gargalhada gostosa que todos conhecem, ela arrematou: “Estou na melhor fase da minha vida, guria”. Estamos sempre na melhor fase da nossa vida.

[......] Havia preparado uma outra crônica para hoje, mas o tema anterior se tornou irrelevante. Tudo se torna irrelevante diante da perda de um filho, ainda mais quando é o filho de alguém que valoriza a família acima de tudo – como nós, aliás. Eu, que vinha passando por uns dias ruins, agora me pergunto: do que mesmo eu estava reclamando? Cada um sabe o que lhe dói, e todas as dores são respeitáveis, mas às vezes é importante a gente lembrar que a única coisa de que precisamos é ter ao nosso lado as pessoas que amamos, o resto é negociável, e isso vale para artistas, balconistas, diaristas e todos que vivem em alta velocidade, sem perceber que, no balanço das horas, tudo pode mudar.

Leia tudo na Zero Hora.
http://tinyurl.com/2udx9q2

segunda-feira, 19 de julho de 2010

O medo de ser [no blog Homofobia Já Era]

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"Na semana em que a Argentina aprova o casamento gay, peço licença para relatar uma historinha banal. Moro num bairro aprazível e “tranquilo”, sonho de consumo de dez entre dez cariocas. Dos que não vivem lá, obviamente. “A grama do vizinho…”. Pois é. De um tempo para cá, por motivos que me são alheios, alguns playboys deram de gritar “veaaaaaado!!!”
quando me vêem na rua. Outro dia, derrubaram minha pasta no chão. Numa noite anterior, rolou um inesperado banho de uísque com Redbull no casaco novo… Depois disso, a calçada ficou mais longa que uma maratona. Chegar à varanda torna-se uma decisão pesada, difícil de tomar. A pasta, o cheiro do uísque com Redbull… Difícil. Como vocês podem ver, trata-se de uma história de bullying, a palavra do momento. Seria só mais uma, não fosse o caso de atingir um certo cara no auge da meia-idade. Eu.

Nunca havia passado por isso antes. E não pretendia experimentar agora. Mas aconteceu — fazer o quê? Penso em...."
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Leia mais no Blog.

domingo, 18 de julho de 2010

Tradições devem ser sempre questionadas

Aprendi com a minha mãe a analisar de forma objetiva qualquer costume ou tradição, para entender de onde veio e porque surgiu, e principalmente se ainda é válida de alguma forma. A origem em geral tem um cunho simples e prático.

Por exemplo, porque comemos ovos na Páscoa?
Para entender isso temos que primeiro analisar como eram as condições de vida no lugar onde essa tradição surgiu. Na Europa, principalmente no norte, o inverno é muito escuro, além de frio. Antigamente não havia luz artificial como agora, então as galinhas paravam de pôr ovos no inverno. Na primavera, quando os dias ficavam cada vez mais longos e claros, as galinhas recomeçavam a postura. Ao mesmo tempo, as provisões de inverno já estavam acabando. Então, uma das coisas que havia para comer em abundância eram ... ovos!

Um hábito ainda relativamente comum no interior do Brasil é a mulher não lavar o cabelo quando está menstruada ou até 40 dias depois do parto. Hoje não tem nenhuma lógica, mas ainda assim o costume é mantido de forma um tanto supersticiosa.
A verdade é que há uma origem para esse costume, e na época fazia sentido. É porque antigamente as pessoas tomavam banho de açude, e realmente uma mulher menstruada ou que pariu recentemente não deve entrar de corpo inteiro em uma água funda, pois pode entrar água suja e provocar uma infecção. Com o advento do chuveiro, o cuidado se tornou sem sentido, pois não envolve esse perigo. No entanto a idéia de não tomar banho foi incorporada sem que se compreendesse porque, levando à manutenção do costume desnecessariamente.

Esses são só dois exemplos de costumes mal compreendidos.
Alguém lembra de mais algum?

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Análise Histórico-Crítica da Bíblia: [1] A origem da condenação à homossexualidade

Há muitos anos um pastor da igreja que eu frequentava, a IECLB, me falou desse conceito, o estudo histórico-critico da Bíblia. Ele era um homem muito culto, e muito adiantado para o seu tempo, havia feito a faculdade de Teologia e tudo mais. Tinha a mente mais aberta que a maioria.

A idéia é analisar o conteúdo da Bíblia da seguinte forma:
Quem escreveu?
Em que época?
Para quem era direcionado?
Com que propósito?


Ele entendia que a Bíblia não pode ser toda considerada válida para os dias de hoje, no que ele era bem diferente de muitos religiosos que vemos hoje.

Pretendo fazer várias dessas análises, mas a primeira vai ser sobre a origem da condenação à homossexualidade. É um assunto sempre polêmico e muito mal-compreendido, e vale a pena dar uma olhada mais de perto nisso.
O que vou postar aqui é uma opinião particular minha, a partir de várias fontes e leituras no decorrer de muito tempo. Parto de um ponto de vista prático apenas. Se alguém não concordar ou quiser acrescentar alguma coisa, tudo bem.

Quando, onde, como e porque surgiu a condenação veemente da homossexualidade entre o povo hebreu? Era um povo nômade, no meio de uma terra desértica, onde competiam com outros povos pela sobrevivência e a ocupação daquela terra. Qual era o maior fator de sucesso nessas circunstâncias? Simples: gente. Quanto mais conseguissem aumentar o número de membros da tribo, mais rápido conseguiriam ocupar a terra, antes de outras tribos. Como o sistema era patriarcal, só importava quem fosse o pai, portanto as mulheres podiam ser de outras tribos, e um homem podia ter várias esposas, além de poder também produzir filhos com as escravas particulares dessas esposas, que contavam como se fossem dele e da esposa. Também é preciso levar em consideração que a mortalidade infantil provavelmente era grande, nem todos os filhos sobreviveriam até a idade adulta. Mesmo assim, quantos filhos um homem poderia vir a ter? No mínimo 10 ou 12, senão mais. Com sorte, quem sabe uns 20 ou 30. Como era uma questão de sobrevivência, era praticamente uma obrigação para um homem ter tantos filhos quanto pudesse. Um único homem que falhasse nesse aspecto era um prejuízo certo para a tribo. Não surpreende nada que um homossexual fosse considerado um peso morto, quase um traidor, por não cumprir com a sua obrigação e contribuir para o sucesso da tribo. A repressão tinha que ser radical e eficiente.

Até aqui analisei as circunstâncias prováveis ao fenômeno da condenação à homossexualidade na Bíblia.

A pergunta agora se torna óbvia: As circunstâncias atuais são as mesmas? Há razões práticas para achar que hoje a homossexualidade prejudica o grupo?

Deixo as perguntas sem resposta de propósito.
Cada um que pense e tire as suas próprias conclusões.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

[ZH] Os oitenta por cento [por Sérgio da Costa Franco*]

Em junho eu publiquei aqui um artigo de Sérgio da Costa Franco, intitulado Laicidade do Estado e Imparcialidade Religiosa
(link aqui)

Ontem (11/07) ele publicou outro, em que ele relata as reações que ele teve em decorrência daquele artigo. Basicamente, as pessoas pensam que porque a maioria da população é católica, então a minoria tem que "engolir" o catolicismo. Isso caracterizaria uma ditadura da maioria, e não condiz de forma nenhuma com o Estado Laico.
"Uma dama queria até privar-me do direito de escrever em jornal, por ser um ímpio..."

O artigo:

[ZH]-Os oitenta por cento [por Sérgio da Costa Franco*] (http://tinyurl.com/3a4vhq7)

Um tema que sempre ocupou e preocupou os publicistas é o do limite do poder das maiorias na sociedade democrática.

Leio no magistral Tocqueville (A Democracia na América) que é da própria essência dos governos democráticos o império da maioria. Mas o autor passa a discutir, no mesmo capítulo, os resultados da onipotência do número e da tirania que ela por vezes impõe à sociedade. Se admitimos, diz ele, que um homem revestido do poder extremo pode abusar dele contra seus adversários, por que não admitiremos que a mesma coisa possa acontecer com uma coletividade? “Os homens, ao se reunirem, terão mudado de caráter?” E pondera que, acima da lei imposta pelas maiorias, existe uma lei maior que é a da justiça nas relações humanas.

Analisando os efeitos que a tirania do número exercia sobre o caráter nacional e a cultura dos norte-americanos, Tocqueville se alarmava e terminava por afirmar: “Se um dia vier a se perder a liberdade na América, será preciso atribuir esse acontecimento à onipotência da maioria, que terá levado as minorias ao desespero”. Por sorte, a tolerância prevaleceu na sociedade norte-americana, e os temores de Tocqueville não se justificaram.

Quando em meu último artigo defendi o princípio de igualdade no tratamento das religiões e apoiei o ato da direção do Hospital de Clínicas em transformar a capela católica ali existente num espaço neutro, para a prática de todos os credos, recebi várias contestações, algumas por via eletrônica, outras pela imprensa. Uma dama queria até privar-me do direito de escrever em jornal, por ser um ímpio... Mas quase todas fundavam-se no fato de que o catolicismo romano seria majoritário, e por isso poderia atropelar a regra constitucional da laicidade do Estado e de sua neutralidade em face das religiões. Alegou-se até que 80% dos brasileiros seriam católicos, cifra que merece alguma discussão, a menos que se considerem católicos todos os que foram batizados na Igreja romana, e que hoje se limitam a frequentar missas de sétimo dia. A cifra abrangerá também o sincretismo dos católicos umbandistas, kardecistas e outros muitos que apenas engrossam a tabela dos recenseamentos, sem nenhuma identificação com os dogmas da Igreja. Há, de fato, uma cultura católica dominante, que veio ao Brasil com as caravelas de Cabral e que se consolidou com alguns séculos de religião oficial. Mas que haja 80% de fiéis católicos, é matéria mais que discutível.

Entretanto, dando de barato que haja essa proporção (apesar dos seminários fechados, dos templos vazios e do avanço indiscutível de outras confissões religiosas), o fato ou a lenda não alteram a circunstância de haver uma regra constitucional a estabelecer imparcialidade do Estado em face das religiões e proibição ao favorecimento de qualquer delas.

De resto, a doutrina de que as maiorias tudo podem autorizaria o presidente Lula (que também desfruta de 80% de apoios) a proclamar-se imperador, restabelecer a monarquia e consagrar a dinastia dos “da Silva”...
*Historiador


Sobre a importância do Estado Laico, tem uma postagem minha sobre isso aqui.

domingo, 11 de julho de 2010

A PEC do casamento! [por Maria Berenice Dias]

Artigo publicado na Zero Hora - http://tinyurl.com/2v8pa7f

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Acaba de ser aprovada a Proposta de Emenda Constitucional nº 28/2009 – a chamada de “PEC do Divórcio” –, que altera a Constituição Federal, acabando com injustificável intervenção do Estado na vida pessoal e afetiva das pessoas. Até agora, a separação, ainda que consensual, só podia ser obtida depois de um ano do casamento. A separação litigiosa dependia da identificação de culpados e exclusivamente o “inocente” tinha legitimidade para ingressar com a ação. Depois de ultimada a ação de separação – o que podia demorar anos –, era preciso aguardar um ano para converter a separação em divórcio. E, para ser buscado o divórcio direto, havia a necessidade de aguardar o decurso do prazo de dois anos depois do fim da vida em comum.

Tais limitações nunca tiveram qualquer sentido. Afinal, todo mundo sempre foi livre para casar-se, mas não para sair do casamento. A obrigatória identificação de um culpado na ação de separação para depois ocorrer sua transformação em divórcio tornou-se um verdadeiro calvário imposto a quem só desejava ter assegurado o direito de sair de um relacionamento. Aliás, causa, existe somente uma para a separação: o fim do amor! E é todo descabido tentar imputar a somente um a responsabilidade pelo fim do sonho do amor eterno.

A alteração é significativa e para lá de salutar, pois atende ao princípio da liberdade e respeita a autonomia da vontade. Nada, absolutamente nada justifica impor a alguém a obrigação de manter-se casado. Nem as obrigações decorrentes do poder familiar exigem que os pais vivam sob o mesmo teto, muitas vezes em um clima de tanta beligerância muito mais nocivo aos filhos. Também não se pode dizer que a salutar novidade venha a banalizar os “sagrados” laços do matrimônio. Não, ao contrário. Em face da enorme dificuldade de pôr um fim ao casamento, a opção passou a ser a união estável, pois não há a necessidade da intervenção estatal nem prazos ou identificação de culpas para se dissolver.

Os processos de separação, muitas vezes, se arrastavam por anos, com enormes prejuízos ao par e principalmente aos filhos. Previsíveis os danos emocionais e afetivos, ao tomarem conhecimento de que um dos seus genitores foi declarado culpado. Claro que o sabor de vitória do “vencedor” leva-o a desconstruir a imagem do outro, perante a família e a própria sociedade. Parece que ninguém se dá conta de que todos perdiam.

Ainda que a alteração passe a vigorar desde já, cabe lembrar que o divórcio não passou a ser instantâneo, dando margem ao tão propalado período de reflexão. Afinal, mesmo que haja consenso, não existam filhos menores e seja eleita a via extrajudicial, é preciso constituir advogado. Depois, o pedido é encaminhado ao tabelião, que ouve os cônjuges e, inclusive, tem a possibilidade de não lavrar a escritura caso constate dúvidas ou inseguranças.

De qualquer modo, mesmo que haja arrependimento, sempre existe a possibilidade da reconciliação e de um novo casamento, que tem uma simbologia muito mais romântica.

Assim, muitos são os ganhos com a mudança. Além de desafogar o Poder Judiciário, acaba com prazos e elimina anos de conflitos, espantando definitivamente a culpa do âmbito do Direito das Famílias. Mas talvez o grande mérito seja aumentar a responsabilidade de quem opta pelo casamento. Afinal, o investimento de cada um tem que ser maior, pois não mais existe obrigação de sua permanência além do comprometimento afetivo.

Por tudo isso, o melhor é chamar a emenda de “PEC do casamento”. Agora, casar-se impõe muito mais responsabilidades a quem quer ser feliz para sempre.

por Maria Berenice Dias*
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Comentário: Quando eu casei, em 1974, o divórcio ainda não existia; ele só foi regulamentado em 1978. Cabe dizer que eu nunca precisei disso; se o divórcio não existisse, nada mudaria para mim. Estou casada há mais de 35 anos e isso certamente vai até o fim das nossas vidas.
Mas isso nunca me impediu de entender que outras pessoas não tiveram a sorte que eu tive, e eu mesma não estaria casada ainda se o meu casamento não fosse bom.
A obrigação de permanecer casados, ou a dificuldade em se separar, não "salva" um relacionamento ruim.
Por isso fico muito feliz com essa decisão do Judiciário.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Um pequeno poema (não é meu)

Uma amiga me manda um poema, pequeno e simples, mas muito eloquente.
Gostei e pedi para publicar.

"Diabo alado encarne na carne do Deus.
É. É isso que os ateus veem:
Pessoa refem...de quem?
Do sistema....
que não vale mais a pena,
mas que ainda desperta dilema pessoal
e que não acredita na simplicidade do casual...
de uma uma verdadeira ligação universal."

Autoria: Paula Meirelles

terça-feira, 6 de julho de 2010

Celibato & Pedofilia? Não é tão simples assim.

Assim como a explicação simplista da igreja de que a homossexualidade levaria à pedofilia é um argumento dos mais calhordas, e denota uma enorme ignorância sobre o assunto, da mesma forma o argumento de que o celibato leva à pedofilia é falso, na minha opinião.

Acredito que o motivo de haver tantos padres pedófilos tem uma relação indireta com o celibato. A religião sempre tratou as questões sexuais como um assunto que de preferência não deve ser discutido, deve ser reprimido e só praticado sob circunstâncias muito restritas. A religião também transmite a idéia de que basta "se apegar" com ela, e rezar, que tudo se resolve. Dentro desse quadro, seria bem razoável supor que alguém que tem algum impulso ou fantasia pedófila iria pensar que levar uma vida "santa", em celibato, poderia resolver o seu problema.

Só que, como esse assunto é fonte de grande vergonha, não é falado nem discutido, mas fica lá, na cabeça do sujeito. A repressão só funciona até certo ponto, e é muito provável que um dia o impulso venha à tona e se torne incontrolável. Acredito que seja bem possível que haja um grande arrependimento por parte de alguns, e repetidas promessas a si mesmos de que não voltarão a ceder. Mas, como um viciado, ele volta a querer experimentar a satisfação do seu desejo.

E até aí eu não culpo a igreja em si pela existência dessas pessoas. O problema, como estamos cansados de dizer, é que as autoridades da igreja sempre fizeram vista grossa a tudo isso, porque manter os sacerdotes se tornou mais importante do que o bem estar dos paroquianos, que incluem mulheres e crianças (há muitos abusos de mulheres e meninas também).

Importante ressaltar aqui que cada um vai agir de acordo com a sua natureza íntima. Se o sujeito é hétero, vai transgredir seus votos de castidade com mulheres; se for homossexual, vai transgredir com outros homens; só se for de fato pedófilo é que vai abusar de crianças. Não vejo possiblidade de um hétero ou homo atraídos por adultos de repente direcionar seu desejo a crianças, não faz sentido nenhum.

Isso tudo que escrevi é baseado em várias fontes e expressa uma análise pessoal minha. Posso estar errada em algumas coisas, mas por enquanto foi a essas conclusões que cheguei.

Quero agradecer a todos que leem o meu blog, e especialmente aos que comentam.

Grande abraço a todos.