terça-feira, 29 de junho de 2010

Artigo na Zero Hora - "O guarani e a Inquisição" [por Augusto Franke Bier]

"..a religiosidade dos índios não reconhecia o pecado."

Interessantíssimo o artigo que saiu hoje no jornal Zero Hora no Rio Grande do Sul:
O guarani e a Inquisição

Abaixo repeoduzo parte dele:

[...]
Na tarefa cruel de submeter povos gentios à tutela do deus cristão – que se desenvolvia paralelamente na busca por ouro e territórios –, muito sangue nativo foi derramado. Levou tempo até que os guaranis tivessem que optar entre cair nas mãos dos bandeirantes escravizadores e se deixar “domesticar” no aldeamento das missões jesuíticas. Mas a glória da experiência missioneira, sempre evocada na arquitetura monumental e nas artes remanescentes, tem nos nativos uma história de resistência que a própria Santa Madre Igreja evoca com desconforto – quando o faz! E isso vem à baila quando perguntamos o seguinte: por que, em quase século e meio de dominação, as reduções não produziram um único padre índio?

A resposta, ironicamente, vem de um jesuíta paraguaio, padre Bartolomeu Meliá, talvez a maior autoridade em estudos missioneiros ainda viva. Escreve ele que a religiosidade dos índios não reconhecia o pecado. Logo, desprovidos de culpa, não teriam como ser submetidos pelos padres, porque o maior instrumento de coerção da cristandade – a ameaça do castigo eterno – não surtia efeito
[...]
.

Isso confirma aquilo que não é nenhum segredo, mas que é sempre bom ressaltar: se conseguir que as pessoas se sintam culpadas por coisas que não podem evitar (porque são coisas naturias, inerentes às nossas características humanas, como a fantasia e a sexualidade), se torna muito fácil manipula-las e dominá-las.

E usar esse tipo de expediente é uma das coisas mais covardes e calhordas que consigo imaginar. Nojo!

domingo, 27 de junho de 2010

Laicidade do Estado e Imparcialidade Religiosa

Hoje, no jornal Zero Hora, saiu um artigo de Sérgio da Costa Franco, falando sobre a Imparcialidade Religiosa, referindo-se à decisão do Hospital de Clínicas de Porto Alegre de transformar uma capela em um Espaço Espiritual neutro, sem as características nitidamente católicas que tinha antes. Criou polêmica, claro, mas como historiador ele foi capaz de mostrar que a neutralidade do Estado veio beneficiar inclusive a igreja católica na época.
Vale a pena ler o artigo todo:

Imparcialidade religiosa, por Sérgio da Costa Franco*
"Medida adotada pela direção do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, de transformar a capela católica ali existente num espaço neutro para a prática de qualquer culto, suscitou reação de grupos ligados à religião católica, inclusive do arcebispo dom Dadeus, que parece ser amigo de polêmicas.

O estranhável é que até agora, neste avançado ano de 2010, ainda houvesse num hospital público um templo exclusivo da igreja romana. Em tempos de ecumenismo, quando o próprio Papa procura aplainar conflitos com os evangélicos e com os ortodoxos, com os israelitas e com os muçulmanos, é surpreendente que fiéis e clérigos de Porto Alegre pretendam manter privilégios de religião oficial.

Foi a República que pôs um fim à religião de Estado, inserindo em sua Constituição a norma de que “nenhum culto ou igreja gozará de subvenção oficial nem terá relações de dependência ou aliança com o governo da União, ou dos Estados”. Acabou-se então o regalismo, que autorizava o imperador a interferir na hierarquia católica, que permitia aos poderes provinciais criar paróquias e extingui-las, e que transformava os párocos em funcionários públicos. Apesar desses estreitos vínculos, ou em função deles, a Justiça imperial terminou processando bispos e levando-os até ao cárcere. De modo que a separação entre a Igreja e o Estado foi saudada pelos católicos mais lúcidos como um passo à frente no sentido das liberdades da Igreja. Não por acaso, a separação já fora defendida até por Joaquim Nabuco ao tempo da monarquia.

Todas as religiões se beneficiaram da reforma republicana, exceto talvez as de origem africana, que continuaram sendo combatidas por quem as rotulava de “fetichismo” e as discriminava como inferiores, como se o pensamento mágico pudesse ter gradações e hierarquias.

Sociedade multicultural, com a presença de crentes de quase todas as religiões ocidentais e orientais, a sociedade brasileira não poderia consentir numa religião oficial e privilegiada. Tanto mais que a antiga predominância absoluta da igreja romana vai desaparecendo, com a progressiva ascensão dos mais variados credos, evangélicos, pentecostais, afro-brasileiros, budistas e até islâmicos. Assim, sobravam razões ao legislador quando estabeleceu no artigo 72, parágrafo 7º, da Constituição de 1988, que “nenhum culto ou igreja gozará de subvenção oficial nem terá relações de dependência ou aliança com o governo da União ou dos Estados”.

A capela do Hospital de Clínicas era estritamente ligada ao catolicismo, com imagens incompatíveis com outros cultos, mesmo cristãos. Isso caracterizava uma situação de privilégio oficial, dado que seria impossível consagrar, naquele hospital público, espaços próprios para cada uma das confissões existentes na comunidade. Não há reparos a fazer à atitude da direção do Hospital, que obedeceu estritamente à regra constitucional. Se, no passado, houve concessões indevidas e inobservância de regras legais, isso não gera direitos nem cria prerrogativas especiais em favor de ninguém."

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Homofobia mata mais um! Até quando??

A morte de um menino de 14 anos, por motivo claramente homofóbico, é apenas a última das muitas violências que os homossexuais sofrem nesse país.
A comunidade e o blog de Homofobia Já Era publicou um manifesto e está de luto, com o qual me solidarizo. Leia mais aqui


Estou chocada e revoltada.


Mais notícias na Globo, link aqui.

domingo, 20 de junho de 2010

Nem só de meninos....

Tem-se falado muito ultimamente sobre os casos de abusos sexuais de jovens e meninos na ICAR. Sem dúvida o assunto é muito grave, ainda mais pela forma sistemática que a ICAR tem agido para esconder os fatos, sem resolver realmente nada. Agora que a onda maior já passou, gostaria de abordar os casos de abusos de mulheres e meninas que também acontecem, e também são graves.

No blog Index saiu uma matéria a respeito, Violência Clerical: http://index.opsblog.org/04/2010/violencia-clerical/, sobre a tese da socióloga Regina Soares Jurkewicz sobre o assunto.

O PDF de quase duzentas páginas pode ser acessado aqui:
Violência clerical: Abuso sexual de mulheres por padres no Brasil

A revista Época fez uma entrevista com ela em maio deste ano.

Socióloga lança pesquisa que mostra como a Igreja Católica encobre os crimes sexuais cometidos por padres contra mulheres

A socióloga da religião Regina Soares Jurkewicz é católica. Mas do tipo que provoca calafrios na ala conservadora. Ela passou os últimos dois anos e meio dedicando-se a investigar as estratégias usadas pela cúpula da Igreja para silenciar vítimas, proteger agressores e encobrir crimes sexuais cometidos por sacerdotes. A pesquisa, financiada pelo Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem), é parte de sua tese de doutorado em Ciências da Religião desenvolvida na PUC de São Paulo. Ao se debruçar sobre 21 casos denunciados pela imprensa e esmiuçar dois deles em profundidade, Regina concluiu que a Igreja Católica no Brasil se coloca acima das leis do Estado ao tentar - e em geral conseguir - manter os casos de violência sexual dentro de suas sólidas paredes.

ÉPOCA - A senhora escolheu investigar a violência sexual de padres contra mulheres em vez concentrar a pesquisa na pedofilia, que é o tema mais em evidência. Acha mais difícil identificar e punir a violência contra mulheres?
Regina Soares Jurkewicz - É muito mais fácil, no senso comum, aceitar a criança como vítima. Mas quando se fala que uma mulher sofreu um abuso ou foi estuprada, a primeira idéia é de que ela seduziu o agressor. Quando as mulheres denunciam, acredita-se menos nelas, pior ainda se forem adultas. E muito pior se o agressor for um padre, um homem envolto em aura de santidade. De vítima ela vira culpada.

ÉPOCA - A senhora diz que a Igreja brasileira usa estratégias para encobrir crimes e criminosos, colocando-se acima do Estado. Como é isso?
Regina - O padre que abusa tem uma proteção institucional que os outros homens não têm. Homens não-padres estão mais sujeitos às leis civis. O padre também está, porque antes de ser padre é um cidadão. Mas o que acontece na prática é que a Igreja brasileira fez a escolha do silêncio. E, assim, acoberta fortemente o sacerdote.

A entrevista completa aqui: O pecado do silêncio

Vale a pena ler toda a entrevista, assim como vale muito a pena dar uma lida na tese. É comprida, mas preste atenção em depoimentos de mulheres abusadas, para entender como funciona a psicologia da dominação dentro do contexto da Igreja Católica.

A verdade é que a ICAR conseguiu produzir uma sociedade com uma mentalidade extremamente anti-mulher, e isso está melhorando aos poucos, graças ao fato de o secularismo estar mais forte, e a religião está perdendo poder. Espero que essa tendência continue e avançe o mais rápido possível.

Tem também um artigo em um blog de Secularismo da Inglaterra (em inglês): http://www.secularism.org.uk/child-abuse-overshadows-another.html
e outro aqui:
http://tessera2009.blogspot.com/2010/03/sexual-abuse-of-women-in-church.html
"Tem havido uma cobertura geral do abuso de crianças por padres católicos e poucas pessoas hoje ignoram o assunto.
Não tem havido quase nenhuma publicidade quanto aos abuso de mulheres por membros masculinos do clero e, apesar das evidências, a Igreja parece não ter feito nada.
[....]"

o que demonstra bem que o problema é mundial.


[PS: Algumas coisas conseguem me deixar de mau humor...]