domingo, 21 de março de 2010

A carta do Papa protege a ICAR, não suas vítimas

A carta do Papa sobre abuso infantil protege a igreja, não as vítimas

Tradução:
Humberto S. Berwanger: http://twitter.com/BertmanSB
Giulia Raquel Cantarutti: http://twitter.com/eugiu
Texto original de Michael Nugent
Link para o texto original
http://www.michaelnugent.com/2010/03/21/popes-letter-protects-church-not-its-victims/


A carta do papa possui lições para a sociedade civil

O que ele escreve para os católicos sobre religião é um assunto entre eles. Mas a igreja católica também opera dentro da sociedade civil, age como um quasi-Estado nas Nações Unidas e envia embaixadores para Estados reais.

E a carta do papa inclui afirmações sobre a sociedade secular que são factualmente erradas.

Tendo lido toda a carta, o seguinte me parece claro:

1. A principal prioridade do papa é proteger a igreja, e não as vítimas
2. O papa erroneamente culpa o secularismo pelos estupros de crianças pelos padres
3. Os pedidos de desculpas do papa são incompletos e seus apelos são em causa própria
4. As "iniciativas concretas" do papa são uma distração, não uma solução
5. O papa está se esquivando das responsabilidades da igreja para com a sociedade


1. A principal prioridade do papa é proteger a igreja, e não as vítimas

Em uma carta de aproximadamente 5 mil palavras, a expressão "abuso sexual" aparece apenas 3 vezes, e em lugar algum ela é usada como um verbo ativo descrevendo uma ação que os padres católicos fizeram às crianças. Ao invés disso, ela é descrita duas vezes abstratamente como "o problema do abuso sexual infantil", e uma vez passivamente como "as vítimas do abuso sexual infantil". Em contraste, a palavra "igreja" aparece mais de 50 vezes. Nada surpreendente o fato das palavras "estupro" e "encobrir" (o caso) não aparecerem nenhuma vez na carta.

Um dos três usos da expressão "abuso sexual" é: "Desde o momento em que a gravidade e extensão do problema do abuso sexual infantil nas instituições católicas começaram a ser compreendidos, a igreja tem trabalhado bastante em muitas partes do mundo com o intuito de chamar a atenção para o problema e remediá-lo." Esta afirmação é falsa. A igreja católica sabe há séculos que alguns padres têm estuprado crianças, e eles sabem há séculos que estuprar crianças é gravemente errado, tanto como pecado na religião deles como um crime na sociedade civil.

O papa nem mesmo reconhece (desculpar-se muito menos) a política da igreja católica de os bispos repetidamente encobrirem os caso de estupro de crianças por padres. Ao invés disso ele eufemisticamente se refere a "erros" por parte dos bispos quando responde as alegações, e nem sequer inclui o Vaticano ou ele mesmo como responsáveis por tais "erros". Ao usar este linguajar evasivo, ele está na verdade regredindo em relação a dezembro passado, quando bispos Irlandeses admitiram que o relatório Murphy indicava uma cultura generalizada na igreja de encobrir os casos de abuso sexual.

Em uma declaração emitida durante o encontro em Maynooth, em novembro de 2009, os bispos irlandeses disseram: "Nós estamos profundamente chocados com a escala e depravação dos abusos, como descritos no relatório. Estamos envergonhados pela extensão do encobrimento dos abusos na arquidiocese de Dublin e reconhecemos que isto indica um hábito que estava alastrado dentro da igreja. O ato de evitar escândalos, a preservação das reputações de indivíduos e da igreja teve prioridade sobre a segurança e saúde das crianças. Isto nunca deveria ter acontecido e não dever ser permitido que aconteça de novo. Nós humildemente pedimos por perdão."

Apesar desta explícita admissão em dezembro passado pelos bispos irlandeses, a carta pastoral do papa contém algumas dicas subliminares sobre o que preocupa ele mais sobre este assunto. Na Seção 1, o papa escreve: "Eu estou profundamente perturbado com a informação que veio à luz com respeito ao abuso de crianças...". Como seria mais forte esta sentença de abertura da carta se ele tivesse simplesmente dito: "Eu estou profundamente perturbado com o abuso de crianças...". Como teria sido mais impactante se ele tivesse usado o mesmo modo de falar que os bispos irlandeses usaram em dezembro.

Em vez disso, na Seção 2, o papa diz que: "Para se recuperar desta dolorosa ferida, a igreja na Irlanda deve primeiro reconhecer perante o Senhor e perante as pessoas os sérios pecados cometidos contra crianças indefesas. Tal reconhecimento, acompanhado pela sincera mágoa pelo dano causado a estas vítimas e suas famílias, deve conduzir a um esforço combinado para garantir que as crianças estejam protegidas de crimes similares no futuro."

À primeira vista, isto parece louvável. Mas leia novamente para ver as nuances. A razão pela qual pecados contra crianças devem ser reconhecidos é para permitir que a igreja (e não as vítimas) se recupere desta "dolorosa ferida". É apenas como um ponto subsequente que isto deve ser acompanhado de mágoa pelo dano causado às vítimas. Se você analisar o modo de falar no decorrer da carta, as mesmas prioridades são repetidas. A prioridade desta carta é revitalizar a igreja católica, e não buscar justiça ou buscar reparação para suas vítimas.


2. O papa erroneamente culpa o secularismo pelos estupros de crianças pelos padres

A Seção 3 é uma breve história estapafúrdia, da perspectiva do papa, do catolicismo irlandês e do impacto dos missionários católicos irlandeses na Europa e em outros continentes. Para uma visão geral, ele sugere que, por séculos, clérigos irlandeses "dedicaram suas vidas à Cristo, compartilhando a dádiva da fé com outros, e colocando está fé em ação em amar o 'servir a Deus' e o próximo."

Na seção 4, o papa diz que isto tudo mudou em décadas recentes, por causa de "novos e sérios desafios à fé surgindo da rápida transformação e secularização da sociedade irlandesa." Ele escreve que "o ritmo acelerado da mudança social" fez com que católicos irlandeses se confessassem e rezassem com menos frequência, e que padres irlandeses "avaliassem as realidades seculares sem referências suficientes às escrituras." Isto inclui "uma bem-intencionada mas equivocada tendência em evitar confrontos penais em situações canonicamente irregulares."

Isto, o papa escreve, é o "contexto geral" no qual "devemos tentar entender o perturbador problema do abuso sexual infantil, que contribuiu muito para o enfraquecimento da fé e a perda do respeito pela igreja e seus ensinamentos." Olhe de novo para as nuances deste linguajar. O papa está sugerindo que a secularização da sociedade é o contexto no qual devemos julgar padres estuprando crianças, o que consequentemente enfraquece a fé e o respeito pela igreja. Isto é baboseira egoísta. A realidade é quase exatamente o oposto.

Padres católicos estavam estuprando crianças, e bispos católicos e o Vaticano estavam encobrindo estes crimes muito antes da sociedade irlandesa se tornar mais secular. O que a secularização fez foi capacitar as vítimas destes crimes a falar sobre suas experiências, e mais importante, serem escutadas e acreditadas. E a secularização ajudou a revelar os métodos tradicionais usados pela hierarquia católica para encobrir estes crimes, como obrigar as crianças a jurarem segredo e transferir os criminosos para outras paróquias, dioceses ou países, onde eles poderiam estuprar mais crianças.

Esta alegação falsa sobre o secularismo é parte de um padrão da igreja católica de negação da responsabilidade por seus atos. No início deste mês, o exorcista oficial (!) do Vaticano culpou "Satã agindo no Vaticano" por padres estuprarem crianças. E em setembro do ano passado, o representante do Vaticano nas Nações Unidas argumentou que o abuso sexual infantil era comum entre judeus; que menos de 5% do clero católico eram estupradores; e que a maioria deles eram na verdade efebófilos e não pedófilos, porque eles se sentiam atraídos por garotos adolescentes. Este "rodeio" tem que parar. Está na hora da igreja católica parar de botar a culpa de seus crimes nos outros.


3. Os pedidos de desculpas do papa são incompletos e seus apelos são em causa própria

Na Seção 5, o papa diz que se encontrou com vítimas de abuso sexual, e está pronto para fazer isso de novo (?). Ele diz que já pediu aos bispos irlandeses para revelarem a verdade sobre o que aconteceu no passado, para prevenir que isto ocorra de novo e para trazer justiça e cura às vítimas destes crimes. Ele então introduz uma série de parágrafos direcionados diretamente às vítimas, seus abusadores, pais, crianças e jovens, padres e religiosos, bispos e todos os fieis da Irlanda. Nada disto serve como propósito para trazer justiça e cura para as vítimas destes crimes.

3(a) Vítimas e os padres que abusaram delas

Na Seção 6, o papa finalmente fala às vítimas de abuso e suas famílias. Ele pede desculpas pelo seu sofrimento, mas descreve os abusos na voz passiva: "Vocês sofreram... a injúria que vocês suportaram... Sua confiança foi traída... Sua dignidade foi violada..." Ele parece ser incapaz de alegar direta responsabilidade pelo que a igreja fez. Isto seria dito como: "Nós fizemos vocês sofrerem... nós traímos sua confiança...", etc. O papa então se afasta do mundo real, dizendo às vítimas que Jesus compreende a dor delas, pois ele também foi uma vítima de injustiça, mas que as feridas de Jesus romperam o poder do mal e as pessoas renasceram. Ele conclui dizendo que as vítimas podem encontrar a paz "se aproximando de Cristo e participando na vida de Sua igreja." Dois pontos surgem aqui: primeiro, o papa deveria ter se desculpado com as vítimas no começo da carta, e não no tópico número 6. E segundo, a sugestão de que elas podem encontrar paz participando na igreja que ainda está escondendo os crimes contra elas e contra outras crianças ao redor do mundo é profundamente ofensivo.

Na Seção 7, o papa fala aos padres e religiosos que abusaram de crianças. Ele diz que eles traíram a confiança depositada neles pelas crianças, e "devem responder por isso diante de Deus Todo Poderoso e diante de tribunais devidamente constituídos." Ele não especifica o que a ambígua frase "tribunais devidamente constituídos" significa. Ele diz a eles que eles fizeram grandes danos à igreja e à percepção pública do sacerdócio. Ele diz que Cristo pode perdoá-los pelo mais grave dos pecados, mas a "justiça de Deus" exige que eles não escondam nada sobre suas ações. Ele os incita a "abertamente reconhecer sua culpa, submeterem-se às exigências da justiça, mas não se desanimarem da misericórdia de Deus." Dado que a sentença anterior se refere à "justiça de Deus", é incerto se "submeterem-se às exigências da justiça" significa se entregar para a polícia ou não.

3(b) Outros padres e bispos irlandeses

Na Seção 10, o papa se dirige aos padres e religiosos irlandeses. Ele diz a eles: "Todos estamos sofrendo como resultado dos pecados de nossos confrades que traíram uma confiança sagrada ou falharam em lidar justamente e responsavelmente com as alegações de abuso." Notavelmente, o papa não inclui ele mesmo entre aqueles que "falharam em lidar justamente e responsavelmente com as alegações de abuso.". Esta é talvez a mais significativa frase da carta, com um ponto crucial oculto indiretamente na construção de um ponto diferente. Porque, até que o papa aceite que ele tem a responsabilidade definitiva pelo encobrimento destes crimes, tanto como papa como em seu antigo cargo de cardeal e bispo, ele será incapaz de falar sobre esse assunto na forma que deve ser falado.

Na Seção 11, o papa final se volta aos seus "bispos irmãos" na Irlanda. Esta devia ser a Seção 2, depois do pedido de desculpas às vítimas, que deveria ter sido a Seção 1. Nesta seção o papa escreve que alguns bispos "falharam, algumas vezes gravemente", em aplicar a lei canônica (presumivelmente a lei canônica) ao crime de abuso à criança. Ele acrescenta que: "Eu reconheço que como foi difícil compreender a extensão e a complexidade do problema, obter informação confiável e tomar decisões corretas à luz de conselhos conflitantes de especialistas." Isto é completamente sem sentido. O "problema" não era de forma alguma complexo. Se você está ciente que um homem está estuprando crianças com frequência, e você tem uma bússola moral minimamente funcional, você sabe que esse é um crime sério que deve ser comunicado à polícia.

O papa então diz aos bispos irlandeses: "Além de cumprir em sua totalidade as normas da lei canônica nos casos de abuso infantil, continuem a cooperar com as autoridades civis em suas áreas de competência." Podemos notar aqui a ordem de prioridade: lei canônica primeiro, autoridades civis em segundo, e as autoridades civis ainda são qualificadas com a frase condescendente "em suas áreas de competência." A priorização da lei canônica aparece novamente na próxima sentença: "bispos devem assegurar que as leis de segurança às crianças sejam inteiramente e imparcialmente aplicadas 'em conformidade com a lei canônica'." Não há referência paralela para "em conformidade com a lei civil." O papa então pede por "ações decisivas, cumpridas com completa honestidade e transparência", mas o propósito estabelecido destas ações decisivas não é para trazer justiça e/ou reparação, mas para restaurar a reputação da igreja.

O papa não repete aos bispos as coisas que ele disse aos padres, cujos crimes foram acobertados pelos bispos. Ele não diz aos bispos que eles traíram a confiança que lhes foi depositada pelas crianças, e que "devem responder por isso perante Deus Todo Poderoso e perante tribunais adequadamente constituídos." Ele não diz aos bispos que a "Justiça de Deus" exige que eles não escondam nada de seus atos. Ele não diz aos bispos para "abertamente reconhecerem sua culpa e submeterem-se às exigências da justiça." Isto é porque o papa vê o "problema de abuso sexual infantil" como sendo causado por padres individuais, e ele claramente não aceita as descobertas de investigações independentes que a igreja, num nível institucional acobertou esses crimes horrendos.

3(c) Pais, crianças e fiéis

Nas seções 8 e 9, o papa se dirige aos pais e aos jovens. Ele diz que os pais são os principais responsáveis por criar e educar seus filhos em autênticos valores morais, e inspirá-los com a verdade da fé católica. Ele diz que pais deviam fazer isto enquanto a igreja "continua a implementar as medidas adotados nos últimos anos para proteger os jovens nas paróquias e nos ambientes escolares." E ele pede às crianças e jovens para buscarem uma relação pessoal com Jesus dentro da igreja, porque Jesus nunca irá traí-los. Ele conclui pedindo aos jovens para serem discípulos fiéis na reconstrução e renovação da igreja.

Nas seções 12 e 13 o papa se dirige aos fiéis católicos na Irlanda. De novo ele ataca nossa "sociedade cada vez mais secularizada, aonde até nós cristãos frequentemente temos dificuldades para falar sobre as dimensões transcendentes da nossa existência." Isto não é verdade. E o papa deve saber disso. Uma sociedade secular não impede as pessoas de falarem sobre quaisquer crenças transcendentes que elas tenham. Ela somente previne que tais crenças se tornem a base na qual a política civil é formulada. O papa então escreve que mesmo que "medidas para lidar justamente com crimes individuais são essenciais, sozinhas elas não são suficientes.", e por isso devem ser aumentadas com uma nova visão baseada em seguir os mandamentos das escrituras. O papa conclui dizendo que ele está rezando solidariamente por todos seus irmãos e irmãs em Cristo.


4. As "iniciativas concretas" do papa são uma distração, não uma solução

Na seção 14, de longe a mais comprida, o papa propõe o que ele chama de "algumas iniciativas concretas para remediar a situação." Essas iniciativas vêm a ser: pedir a todos os católicos irlandeses para rezarem e irem à confissão com mais frequência em um período de um ano; fazer uma visitação apostólica a algumas dioceses e seminários na Irlanda; criar uma Missão para bispos e padres irlandeses através da intercessão de um padre francês do século 19 que pregou total obediência à hierarquia e que se engajou a flagelação corporal; e escrever uma nova prece para a igreja da Irlanda. Esta é a soma total de todas as "iniciativas concretas" do papa.

4(a) Mais oração e mais confissão
A primeira “iniciativa concreta” do Papa é pedir para que todos Católicos irlandeses, pelo período de um ano, entre agora e a Páscoa de 2011, dediquem suas penitências de sexta-feira a uma “expansão da misericórdia de Deus e dos dons e força do Espírito Santo” sobre a igreja da Irlanda. Ele pede para os Católicos irlandeses jejuarem, rezarem, lerem a escritura e façam obras de misericórdia para esse propósito específico; irem à Confissão mais frequentemente; e venerarem a Eucaristia Santa fora da Missa. O Papa diz que, através dessa intensa oração, todos os Católicos irlandeses “podem trazer reparação pelos pecados de abuso que fizeram tanto mal”.
Vamos examinar cada aspecto dessa proposta. Pede-se a todos os Católicos irlandeses que rezem com mais frequência e intensidade, não pelas crianças que foram estupradas por padres Católicos, mas por um renascimento da igreja Católica na Irlanda. Pede-se que ofereçam obras de misericórdia, não pelo propósito de ser misericordioso, mas novamente pelo renascimento da igreja Católica. O Papa diz que isso, somado a mais Confissão e mais adoração da Eucaristia, pode “trazer reparação pelos pecados de abuso”. Mas por que os Católicos irlandeses devem ser responsáveis por trazer reparação para padres estuprando crianças e bispos acobertando esses estupros?
Essa não é de fato uma iniciativa concreta, mas um apelo abstrato a todos Católicos irlandeses para dividir a culpa pelos crimes dos padres e os acobertamentos dos bispos. Estudos científicos mostraram que orações não têm impacto no mundo natural. As orações propostas pelo Papa têm um horário arbitrário de “um período de um ano”, o qual coincidentemente combina com sua arbitrária oferta de um ano de livres indulgências plenárias a católicos que visitaram Lourdes em 2009. E o foco em adorar a Santa Eucaristia fora da missa ressalta o mais supersticioso aspecto do ensino Católico.


4(b) Uma visitação apostólica e uma missão
A segunda “iniciativa concreta” do Papa é que os oficiais do Vaticano visitem certos seminários, dioceses e instituições religiosas na Irlanda. O propósito estabelecido não é trazer reparação às crianças estupradas por padres, mas sim “assistir a igreja local em seu caminho à renovação”. A terceira “iniciativa concreta” do Papa é que todos os bispos, padres e religiosos Irlandeses devem atender a uma Missão nacional na qual podem reaprender suas vocações e recentes ensinamentos pontífices. Aqui o Papa sugere que os padres e bispos irlandeses sigam o exemplo de São John Vianney, e diz que a Missão proposta deve operar através da intercessão de Vianney.

E quem é esse santo modelo cujo exemplo o Papa sugere aos padres e bispos irlandeses? Uma carta circular do Papa João XXIII diz que Vianney foi “excelente na virtude da obediência... estamos oferecendo aos clérigos essa total obediência como um modelo... a eficiência de qualquer apostolado deve-se à constante e fiel obediência na hierarquia de sua sólida fundação”. A mesma carta diz que Vianney foi “excelente de uma maneira única na flagelação de seu corpo... isso o levou à quase completa abstinência de comida e de sono [e] a cumprir os mais severos tipos de penitências... ele levou seu corpo à submissão através de flagelação voluntária”. Esse tipo de fundamentalismo é realmente a fundação sob a qual revitalizar a igreja Católica hoje?

O Papa conclui sua carta com uma oração pela igreja na Irlanda. Ele quer que os Católicos irlandeses façam uso dessa oração em suas famílias, paróquias e comunidades. A oração pede a Deus para renovar os Católicos irlandeses com fé, esperança e caridade. Ela pede a Jesus para ajudar a igreja Católica na Irlanda a educar jovens no caminho da verdade e bondade. Pede ao Espírito Santo para inspirar uma nova primavera de santidade e fervor apostólico na Irlanda. Ela pede que a mágoa e as lágrimas dos Católicos irlandeses, enquanto tentam corrigir erros do passado, tragam graça, que irá aprofundar a fé católica na Irlanda. E termina confiando ao Deus Trino “nós, nossas crianças, e as necessidades da igreja na Irlanda”. Em nenhum lugar nessa oração as palavras “vítima”, “abuso sexual”, “estupro”, “crime”, “encobrimento”, ou “desculpas” aparecem. Não surpreendentemente, em sintonia o tom de toda a carta, a oração é concluída enfocando as “necessidades da igreja”.
5. O papa está se esquivando das responsabilidades da igreja para com a sociedade

Tendo lido toda a carta, o seguinte me parece claro:

1. A principal prioridade do papa é proteger a igreja, e não as vítimas
2. O papa erroneamente culpa o secularismo pelos estupros de crianças pelos padres
3. Os pedidos de desculpas do papa são incompletos e seus apelos são em causa própria
4. As "iniciativas concretas" do papa são uma distração, não uma solução
5. O papa está se esquivando das responsabilidades da igreja para com a sociedade

Todas as iniciativas propostas pelo Papa são uma distração dos tipos de iniciativa que poderiam realmente fazer diferença. Estas poderiam incluir: reconhecer voluntariamente que a igreja está sujeita às mesmas leis civis democráticas do que todos nós; aceitar abertamente os resultados das várias investigações Irlandesas; reconhecer voluntariamente que a igreja Católica, a um nível institucional, encobriu crimes de padres contra crianças; voluntariamente tornar públicos todos os arquivos da igreja que as vítimas desejarem sobre esses crimes e sobre o acobertamento desses crimes; vender voluntariamente propriedades da igreja para voluntariamente recompensar vítimas; voluntariamente denunciar à polícia todos os padres que cometeram crimes e todos os bispos que encobriram esses crimes, e voluntariamente declarar-se culpada por quaisquer crimes cometidos.

O Papa conclui sua carta com uma oração, mas sua igreja continua a alternar entre ser uma religião ou um Estado, dependendo do que for mais conveniente ao momento. O mecanismo para isso é seu quasi-Estado na cidade do Vaticano, que não possui nenhum dos atributos de um Estado, como cidadãos, território e economia, entretanto envia embaixadores a Estados reais e é tratado quase como um Estado real pelas Nações Unidas. O que a igreja Católica faz como uma religião é da sua própria conta. Mas ela ainda está claramente em profunda negação do impacto de seu comportamento na sociedade mais ampla, então o resto de nós deveria reconhecer isso em nossas interações com essa igreja.

A DDP e polícia irlandesa devem tomar providências agora para garantir que bispos que encobriram crimes sérios contra crianças sejam levados à justiça. O Governo irlandês deve tomar providências para remover a influência da igreja Católica em nosso sistema de educação e de saúde. Particularmente, os direitos humanos de pais não-religiosos de terem um sistema de educação secular devem ser reivindicados em todas as regiões do país. O Governo deve rever sua relação com o quasi-Estado da igreja Católica na Cidade do Vaticano. O Governo deve procurar fazer com que as Nações Unidas tratem a igreja Católica como qualquer outra religião, dando ouvidos a ela como uma organização não-governamental, e não a tratando como um quasi-Estado.

Se a igreja Católica não vai encarar voluntariamente suas responsabilidades na sociedade cívica, as instituições do Estado devem certificar-se de que ela o faça. E nós, o povo, devemos pressionar nossos políticos a fazerem com que isso aconteça o mais rápido possível.