sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Aborto - porque sou favorável à sua legalização

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Antes de qualquer outra coisa, não, nunca fiz um aborto, e não, nunca teria sido capaz de fazer um, pelo menos não nas circunstâncias em que me encontrava. Tenho três filhos, e engravidei sem planejar de cada um deles, por falha do método (camisinha rompida, DIU que não funcionou como devia) ou por não saber usar devidamente o método (o tal do "cálculo", achei que a ovulação já tinha passado, mas não tinha).

O importante mesmo é que em cada ocasião, eu tive escolha. Todo mundo sabia que era possível abortar, era só ter dinheiro, que alguém indicava um médico de confiança, e olha que era a década de 70. Existia até mesmo um medicamento que funcionava como "pílula do dia seguinte", e todo mundo sabia como usar. Quando engravidei pela primeira vez ainda não era casada, tinha apenas 18 anos, e todas as justificativas para considerar o aborto uma opção.

Mas eu tive a sorte de me encontrar em uma situação em que ter o filho era uma opção viável, o pai deles sempre esteve do meu lado e tinhamos condições de sustentá-los. Casamos e estamos juntos até hoje, 36 anos depois (mas mesmo que isso não tivesse acontecido, eu estava decidida a ter meu filho nem que fosse sozinha). Além disso, e o mais importante, eu queria os filhos. Ser mãe para mim foi uma grande realização, adorava as minhas barrigas e os meus bebês, e não me arrependi um milímetro sequer de tê-los tido.

Se eu fosse partir da minha própria experiência e usar isso como parâmetro, o lógico seria que eu fosse contra a legalização do aborto. Era importante dizer tudo isso para deixar claro que eu não estou "advogando em causa própria", nem tenho interesse pessoal no assunto.

Então, nunca fiz, e também nunca aconselhei, nem incentivei ninguém a fazer um aborto, MAS, sou totalmente favorável à legalização total do aborto até 12 a 13 semanas de gestação (aproximadamente 3 meses). Os meus motivos para considerar que isso é válido é que até então o feto ainda não possui sistema nervoso central formado, não sente dor, nem tem consciência de nada. Ainda não é uma pessoa, com uma história de vida e desejos, ao contrário da mulher, cuja vida será radicalmente transformada ao levar a gravidez adiante e ter um filho, por quem será responsável pelo menos por uns 20 anos, provavelmente mais. Essa não é uma decisão a ser tomada levianamente; um filho é uma enorme responsabilidade e é absurdo impor isso a uma mulher como se fosse um castigo (argumento extremamente comum por parte dos homens que vejo opinar sobre o assunto; muito fácil, já que não é “no deles” que arde).

Eu não posso julgar ninguém pela minha própria experiência, nem tenho o direito de impor o meu pensamento a mais ninguém. Tem mulheres que não querem ou não podem assumir um filho àquela altura de suas vidas. Tem mulheres que não desejam ser mães nunca. Por outro lado, elas tem todo direito de ter uma vida sexual ativa, dizer o contrário seria moralismo. E aí, se o método anticoncepcional falha, é justo obrigar uma mulher a parir contra a sua vontade? Mesmo não tendo sido irresponsável, mesmo tendo tomado todas as precauções? Falhas acontecem muito mais do que se pensa.

E eu ainda não cheguei no assunto das mulheres sem a mínima condição, mulheres sem estudo, sem perspectiva, sem nenhum conhecimento muitas vezes de como se cuidar devidamente, mulheres que no desespero enfiam agulhas de tricô na vagina, tomam chás tóxicos, e outras coisas mais que não são segredo para ninguém.

Nenhuma mulher optaria pelo aborto se tivesse outra opção, o aborto não é uma coisa fácil nem boa de fazer, é quase sempre uma decisão muito difícil. Se engana quem pensa que o aborto se tornaria uma alternativa aos anticoncepcionais se fosse legalizado. Se essas mulheres tivessem acesso a um atendimento legal e decente, elas seriam encaminhadas a alguém que pudesse ajudá-las a evitar futuras gestações, diminuindo assim com o tempo, o número de abortos.

Gostaria de dizer que qualquer mulher que, por razões de foro íntimo dela, quiser levar adiante uma gravidez em quaisquer circunstâncias, mesmo sendo resultado de um estupro ou que ela corra sérios riscos de saúde ou até de morrer, tem todo o direito de assim fazer. A legalização do aborto não o torna obrigatório, mas permite àquelas que não comungam dessa mesma crença, a tomar as suas próprias decisões, com base em suas próprias convicções.

Outra coisa que gostaria de propor é uma reflexão quanto à reais consequências do aborto. Imagine que você fique sabendo depois de um ano, por exemplo, que uma mulher que você conhece fez um aborto. Na época foi como se nada tivesse acontecido, se não lhe contassem, nunca saberia. Não houve nenhum reflexo no mundo externo, foi como se ela nunca tivesse engravidado. Por essas e outras coisas é que eu não entendo porque o aborto dos outros é tão importante para certas pessoas.

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Sei muito bem que há muitos outros aspectos envolvidos, mas isso é uma postagem de blog e não uma tese, então me restringi àquilo que me pareceu mais pertinente. O meu objetivo é apenas colocar aqui a minha opinião.

Eu sei o também quanto esse assunto suscita reações quase violentas, principalmente entre aqueles que acreditam na existência da "alma".

Por isso a postagem de hoje, excepcionalmente, não está aberta a comentários. Nem contra, nem a favor.

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Saúde da Mulher http://delas.ig.com.br/saudedamulher/aborto-supera-cancer-de-mama-em-internacoes-pelo-sus/n1237794630553.html


A favor de que vida: http://blogs.estadao.com.br/marcelo-rubens-paiva/a-favor-de-que-vida/

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