domingo, 20 de junho de 2010

Nem só de meninos....

Tem-se falado muito ultimamente sobre os casos de abusos sexuais de jovens e meninos na ICAR. Sem dúvida o assunto é muito grave, ainda mais pela forma sistemática que a ICAR tem agido para esconder os fatos, sem resolver realmente nada. Agora que a onda maior já passou, gostaria de abordar os casos de abusos de mulheres e meninas que também acontecem, e também são graves.

No blog Index saiu uma matéria a respeito, Violência Clerical: http://index.opsblog.org/04/2010/violencia-clerical/, sobre a tese da socióloga Regina Soares Jurkewicz sobre o assunto.

O PDF de quase duzentas páginas pode ser acessado aqui:
Violência clerical: Abuso sexual de mulheres por padres no Brasil

A revista Época fez uma entrevista com ela em maio deste ano.

Socióloga lança pesquisa que mostra como a Igreja Católica encobre os crimes sexuais cometidos por padres contra mulheres

A socióloga da religião Regina Soares Jurkewicz é católica. Mas do tipo que provoca calafrios na ala conservadora. Ela passou os últimos dois anos e meio dedicando-se a investigar as estratégias usadas pela cúpula da Igreja para silenciar vítimas, proteger agressores e encobrir crimes sexuais cometidos por sacerdotes. A pesquisa, financiada pelo Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem), é parte de sua tese de doutorado em Ciências da Religião desenvolvida na PUC de São Paulo. Ao se debruçar sobre 21 casos denunciados pela imprensa e esmiuçar dois deles em profundidade, Regina concluiu que a Igreja Católica no Brasil se coloca acima das leis do Estado ao tentar - e em geral conseguir - manter os casos de violência sexual dentro de suas sólidas paredes.

ÉPOCA - A senhora escolheu investigar a violência sexual de padres contra mulheres em vez concentrar a pesquisa na pedofilia, que é o tema mais em evidência. Acha mais difícil identificar e punir a violência contra mulheres?
Regina Soares Jurkewicz - É muito mais fácil, no senso comum, aceitar a criança como vítima. Mas quando se fala que uma mulher sofreu um abuso ou foi estuprada, a primeira idéia é de que ela seduziu o agressor. Quando as mulheres denunciam, acredita-se menos nelas, pior ainda se forem adultas. E muito pior se o agressor for um padre, um homem envolto em aura de santidade. De vítima ela vira culpada.

ÉPOCA - A senhora diz que a Igreja brasileira usa estratégias para encobrir crimes e criminosos, colocando-se acima do Estado. Como é isso?
Regina - O padre que abusa tem uma proteção institucional que os outros homens não têm. Homens não-padres estão mais sujeitos às leis civis. O padre também está, porque antes de ser padre é um cidadão. Mas o que acontece na prática é que a Igreja brasileira fez a escolha do silêncio. E, assim, acoberta fortemente o sacerdote.

A entrevista completa aqui: O pecado do silêncio

Vale a pena ler toda a entrevista, assim como vale muito a pena dar uma lida na tese. É comprida, mas preste atenção em depoimentos de mulheres abusadas, para entender como funciona a psicologia da dominação dentro do contexto da Igreja Católica.

A verdade é que a ICAR conseguiu produzir uma sociedade com uma mentalidade extremamente anti-mulher, e isso está melhorando aos poucos, graças ao fato de o secularismo estar mais forte, e a religião está perdendo poder. Espero que essa tendência continue e avançe o mais rápido possível.

Tem também um artigo em um blog de Secularismo da Inglaterra (em inglês): http://www.secularism.org.uk/child-abuse-overshadows-another.html
e outro aqui:
http://tessera2009.blogspot.com/2010/03/sexual-abuse-of-women-in-church.html
"Tem havido uma cobertura geral do abuso de crianças por padres católicos e poucas pessoas hoje ignoram o assunto.
Não tem havido quase nenhuma publicidade quanto aos abuso de mulheres por membros masculinos do clero e, apesar das evidências, a Igreja parece não ter feito nada.
[....]"

o que demonstra bem que o problema é mundial.


[PS: Algumas coisas conseguem me deixar de mau humor...]

6 comentários:

  1. A Igreja Católica, por si só, silencia sobre tudo. Estudei num colégio das Irmãs da Divina Providência e, assim como muitos outros, sofri bullying. Mas ao invés de fazer algo contra os agressores, a coordenação silenciava.
    Pior, quando minha mãe foi tirar satisfação pelo silêncio, a culpa caiu sobre mim.
    Odeio esse silêncio da Igreja, odeio!!!

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  2. @Mandy
    Parece que o silêncio é política geral da igreja mesmo, como se o sofrimento tivesse que ser aceito sem questionar, como se fosse "bom" sofrer; pior, como se quem sofre fosse porque "merece". Exceto, é claro, se quem sofre é alguém que faz doações generosas...

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  3. .... e meu pai vive defendendo a igreja católica com o seguinte argumento:

    "padre só é pedófilo quando não tem vocação pro trabalho"

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  4. @Ivan
    E onde estão as autoridades da ICAR que tomam providências contra esses que "não tem vocação". Essa é a grande pergunta.

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  5. Em 1962 e 1963, estudei interno num colégio de padres em Taquari-RS. E existia pedofilia. O pior é que as vítimas, todos alunos, nos contavam que se confessavam porque se achavam "pecadores'. Então os padres superiores sabiam sim.

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  6. Carlos
    Isso não me surpreende, porque a atitude da ICAR sempre foi a de proteger a instituição antes de mais nada. Isso é uma das coisas que torna as religiões más, desprezam o bem estar das pessoas, dando mais importância a dogmas e às autoridades.

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