sábado, 28 de novembro de 2009

Eu comemoro o Natal!

Muitos ateus acham que não devem comemorar o Natal por "princípio", como se fosse errado de alguma forma. Eu considero isso um equívoco.

Meus pais eram ateus, mas comemoravam o Natal. O Natal na Escandinávia deriva da antiga festa pagã Yule (Jul, em sueco), que era a festa do Solstício de Inverno. Comemora-se o retorno do Sol, é uma festa de Luz, por isso as velas e o brilho. No início não tinha conotação cristã, e pode-se dizer que a maioria das pessoas hoje não comemora o Natal com esse sentido. É uma tradição que faz parte da nossa cultura, é uma época em que as familias se reúnem e se divertem.

Eu gosto desde a decoração da casa, montar o pinheiro, criar o clima com luz suave, velas acesas e música apropriada. Tudo isso me traz uma sensação de bem estar, de tranquilidade e eu não desistiria disso de forma nenhuma.

Descobri inclusive que o próprio Richard Dawkins comemora o Natal e defende o costume. Não que eu fosse agir diferente se ele não pensasse assim, mas gostei de saber.



É claro que existem muitos que não trazem essa tradição de casa, e não gostam do Natal. Tudo bem, ninguém é obrigado. Apenas acho que atualmente podemos atribuir o sentido que quisermos a essas festividades, cada um que faça o que lhe dá prazer.

GOD JUL a todos!!

domingo, 22 de novembro de 2009

Zeitgeist: A Verdade sobre o "Espirito dos Tempos" [ou "Não basta ser ateu, tem que ser cético"]

Na minha postagem anterior eu prometi retornar ao assunto, mas em um contexto mais específico.
Eu disse que não é preciso ser ateu para ser cético e mostrei situações corriqueiras que demonstram isso. O comentário do Érick complementou bem a questão, falando em como a maioria dos católicos questiona as regras impostas pela ICAR.
Por outro lado, nem sempre um ateu é automaticamente cético. A popularidade do Zeitgeist é um ótimo exemplo. Não vou me estender na explicação ou crítica aqui, porque José Geraldo já fez isso com muita maestria em uma comunidade no Orkut. Vou colocar o link aqui , [OBS: a postagem sumiu desde então, porque o autor deletou o seu perfil] e vou tirar do texto dele algumas citações.
"Os primeiros $45$ minutos de Zeitgeist tentam explicar de forma detalhada que Jesus é um mito e o Cristianismo é uma farsa. Esta tese não é difícil de argumentar, havendo uma volumosa e inquestionável biblioteca de escritos e pesquisas das mais diversas disciplinas humanas que pode ser usada para sustentá-la. Causa-me profunda estranheza, então, que o filme pretenda defendê-la com base justamente em informações falsas, comparações anacrônicas, associações forçadas, explicações que não fazem sentido algum ou que, quando fazem, estão contaminadas na fonte pelo vício dos dados incorretos."

"Em seguida o filme se dedica a "desconstruir" as explicações oficiais sobre os atentados de 11 de setembro, recorrendo a teorias conspiratórias. De que maneira este assunto está interligado ao primeiro é algo que, inicialmente, o público de Zeitgeist demora a digerir. Mas, de alguma forma, apesar da estranheza das teorias de conspiração nesse ponto, os neo-ateus engolem esta parte, mesmo meio a contragosto, porque de bom grado consumiram a primeira. O fato de que algumas pessoas que se identificam como "engenheiros" darem depoimentos sobre como o WTC deveria ter caído é suficiente para emprestar credibilidade à tese de que os aviões foram apenas uma desculpa, de que o acontecido foi uma demolição controlada, que tudo foi um ``trabalho interno'' em nome de algum interesse escuso."

"Quando chegamos à terceira parte o filme já se tornou cansativo e os argumentos estão cada vez mais confusos e menos afirmativos. Fica-se com a impressão de que ``tudo'' faz parte de um Grande Plano executado por Certas Pessoas que têm o poder dos Estados em suas mãos e que trabalham para construir uma Nova Ordem Mundial, sabe-se lá com que interesses."


"Só porque Zeitgeist parte de uma idéia que agrada ao grosso dos ateus/agnósticos/céticos/libertários (negação da divindade de Jesus), ele atrai simpatizantes para outras idéias, estranhas à proposta inicial, mas que, estranhamente, parecem as idéias dos que mais ferrenhamente defendem a divindade de Jesus: A serpente morde o próprio rabo."

"Zeitgeist reaparece a cada semana na internet, há quase três anos. Nenhum filme realmente bom sobre a História jamais teve esta atenção. Para mim está muito claro o que ele é. Mas não é fácil convencer disso facilmente o público cativo que ele angariou porque quem é submetido pela lavagem cerebral se torna um fanático por ela. É por isso que não adianta ser ateu se você não é cético de verdade e se não tem bons conhecimentos para defendê-lo de manipulações como essa."


Recomendo que leiam todo o texto para entender melhor todo o contexto. Pessoalmente tenho a comentar que todos nós, ateus ou não, temos que tomar muito cuidado com o que aceitamos como verdade, principalmente se o desejo de acreditar é muito forte.
Só porque alguém diz o que queremos ouvir, não é garantia nenhuma de que tudo que a pessoa diz seja verdade. Temos que verificar as informações, os fatos, as fontes e a intenção da pessoa. Se não fizermos isso corremos o risco de ser enganados.

Tem um outro tópico no Orkut, mais extenso, que traz alguns argumentos mais detalhados. Está na comunidade da STR. [OBS: essa postagem também está truncada pelo fato do autor original ter deletado o seu perfil]
Vou reproduzir aqui apenas a parte que se refere às incorreções com relação a Horus:

"Em relação à parte sobre Jesus, vou citar apenas doze boçalidades retiradas de meros dois minutos do filme:

1. Hórus era o deus egípcio do Sol (16:00) ― na verdade Hórus é o deus celestial, filho de Osíris e Ísis (deuses relacionados a cultos de fertilidade). Os egípcios acreditavam que o Sol era UM DE SEUS OLHOS e a Lua o outro.
2. Seth personificava a escuridão e a noite (16:20) ― na verdade Seth representava a ausência de vida, o deserto; mas também das tempestades, das desgraças e do caos. A luta de Set contra Hórus representa a luta da humanidade e suas forças criadoras contra a hostilidade e a esterilidade de uma natureza cruel.
3. Hórus nasceu em 25 de dezembro (17:00) ― não existem referências sobre a data de nascimento de Hórus.
4. Hórus nasceu de uma virgem (17:00) ― embora haja uma versão de sua lenda que mencione ter sido concebido quando seus pais ainda estavam no útero materno, a versão mais comum é a de que Ísis o concebeu ao praticar necrofilia com o cadáver de Osíris, por ela restaurado através de artes mágicas. Na época da concepção Osíris e Ísia haviam sido marido e mulher por muito tempo.
5. O nascimento de Hórus foi acompanhado pelo aparecimento de uma estrela no leste (17:00) ― o nascimento de Hórus foi anterior à criação do mundo. Portanto, não havia “leste” onde pudesse aparecer uma estrela.
6. Hórus foi adorado por três reis (17:10) ― tendo nascido antes da criação do mundo, não havia reis para adorá-lo. De qualquer forma, teria sido muito difíceis reis irem ao mundo celestial adorá-lo, visto que Hórus é um ser espiritual ― e não material.
7. Hórus ensinou os mestres aos 12 anos (17:10) ― Hórus permaneceu escondido durante toda sua infância, somente quando se tornou adulto ele se revelou e lutou contra Seth para vingar seu pai, Osíris.
8. Batismo de Hórus aos 30 anos (17:10) ― não há nenhuma referência disso e Hórus não teve um “ministério”, ele se tornou rei após a Assembléia dos Deuses decidir apoiá-lo contra Seth.
9. Hórus tinha 12 discípulos, em cuja companhia perambulava fazendo milagres (17:10) ― Horus não era um curandeiro, mas um deus-rei do mundo celestial.
10. Títulos atribuídos a Hórus (17:25) ― apenas “Luz Celestial” e “Divino Rei” são atestados.
11. Hórus traído por Tifão e crucificado (17:30) ― Tifão era um personagem da mitologia grega e, ainda que mais tarde tivesse sido incorporado ao panteão egípcio, na época mencionada por Zeitgeist (3.000 a.C.) ele era desconhecido no Egito, principalmente porque nessa época os gregos ainda nem haviam chegado à orla do Mediterrâneo. Hórus não foi traído por ninguém, e muito menos crucificado. Ele foi, isto sim, cegado por seu inimigo Seth, e sua derrota causaria o desaparecimento de toda a vida, razão pela qual os deuses o apoiaram contra Seth.
12. Hórus esteve morto por três dias e depois ressuscitou ― Foi Osíris ressuscitou por três dias e depois voltou a estar morto."


Só por aqui já dá para ver que o filme não merece credibilidade.
Como eu disso no começo: "Não basta ser ateu, tem que ser cético"

sábado, 21 de novembro de 2009

Ceticismo para principiantes

Acredito que muito já se falou sobre esse assunto, mas eu ainda tenho a impressão de que a maioria das pessoas não tem uma idéia muito clara do que seja isso.
Dependendo do enfoque, pode parecer muito complicado, ainda mais se vamos para o lado das definições filosóficas, que nunca foi o meu forte.
Então, resolvi tentar simplificar um pouco a questão, para clarear a idéia até para mim mesma. De um ponto de vista prático, ceticismo é o velho e saudável pé atrás, pulga atrás da orelha, o "bom demais para ser verdade", e tantos outros conceitos populares semelhantes. Eu poderia até citar o "quando a esmola é muito grande, o santo desconfia", porque mostra que não é necessário ser ateu para ser cético.
A vasta maioria das pessoas são céticas, dependendo do assunto. Quando vemos uma propagando enaltecendo as qualidades de um produto, ou um político fazendo promessas de campanha, a gente normalmente fica desconfiado. Isso é ceticismo.
Cético não é aquele que desconfia de tudo, não é sinônimo de cinismo ou niilismo. O ceticismo saudável, a que estou me referindo, é a nossa capacidade de detectar o exagero, e o impulso para descobrir mais sobre o assunto, nos informando melhor para ter certeza do que estamos fazendo. Essa é uma atitude sensata, "pé-no-chão", nesse nosso mundo tão cheio de espertalhões tentando nos enrolar para tirar vantagem.

Vou voltar a esse assunto logo mais, em um contexto mais específico.

sábado, 14 de novembro de 2009

Dra. Rita Levi Montalcini

Rita Levi Montalcini
"Ela atravessou um século de conquistas e transformações, de horrores e grandes guerras e amanhã completa cem anos. Rita Levi Montalcini nasceu em 22 de abril de 1909. Médica, professora, prêmio Nobel em 1986 pela descoberta do Nerve Grown Factor.
Sobre ele ela diz: “ Cheguei ao resultado com a sorte e a intuição. Encontrei o NGF porque o procurava com grande convicção. Tinha certeza de que existisse. Aquela descoberta derrubou a ideia que o sistema nervoso fosse estático e programado geneticamente.”
Confessa nunca ter-se apaixonado. “Tive grandes amizades, profundas, mas amores verdadeiros, nunca. Meu pai, um homem vitoriano, achava que eu e minhas irmãs deveríamos ser educadas para sermos mães e esposas. No fim permitiu que freqüentasse a Universidade. Foi uma grande vitória!”
Sobre o mal afirma: “O mal é o desejo excessivo do próprio bem-estar e desinteresse pelo bem comum”.
Sobre o século XX: “ Durante este século tivemos grandes sucessos científicos, sociais e também grandes horrores. “
Sobre racismo e antisemitismo: “ Não é a consequência de um destino genético, mas de desenvolvimentos epigeneticos, culturais. Tudo começa no período formativo, nos primeiros 5 anos de vida da criança, que recebe uma série de ensinamentos e informações do tipo: você é de raça superior (ou inferior), etc… Não existem raças, só racistas. E são estas superstições que podem (como já fizeram) levar a destruição de seis milhões de pessoas. Os seres humanos são influenciados culturalmente. É por isto que o verdadeiro remédio contra o racismo é a educação.” E continua com um paradoxo: “Não podemos nos dar nunca por vencidos. Eu mesma deveria agradecer as leis raciais por terem me rotulado de “raça inferior” e assim ter me obrigado a trabalhar segregada no meu quarto, onde tinha montado um pequeno laboratório e começado as pesquisas que me levaram ao Nobel.”
Sobre sua idade: «Cem anos? É a idade ideal para fazer descobertas. Nunca aposente seu cérebro. Eu trabalho dia e noite com uma equipe extraordinária. No European Brain Research Institute (EBRI), eu e meus jovens colaboradores estamos aprofundando os estudos sobre o NGF que acompanha o desenvolvimento do ser humano do período pré-natal até a velhice. Estes trabalhos poderão ser úteis para combater as doenças neurodegenerativas e desenvolver um fármaco contra o mal de Alzheimer».

Rita Levi Montalcini sorri e comenta: «O segreto da minha vitalidade é que eu vivo continuamente ocupada na pesquisa científica e nos problemas sociais. Não tenho tempo de pensar em mim mesma.”


segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Young Girl's Lament [Mama Cass]

E na esteira desse meu momento nostalgia, um dos melhores blues que conheço. Levei muito tempo para conseguir a letra inteira.





Young girl’s lament



When I was a young girl, I used to to seek pleasure

When I was a young girl, I used to drink ale

Out of the ale house and down to a jail house

Right out of a bar room, down to my grave



Had he but told me, before he shamed me

Had he but told me about it in time

I could have had potions and salts of white mercury

But now I’m a young girl cut down in my prime



Get six gamblers to carry my coffin

Get me six young riders to sing me a song

Put bunches of roses all over my coffin

Roses to muffle the clods as they fall



When I was a young girl, I used to to seek pleasure

When I was a young girl, I used to drink ale

Out of the ale house and down, down to a jail house

My body is ruined, they left me to die

Nostalgia [assunto totalmente OFF]

Essa é a música que marcou o início do namoro qua acabaria em um casamento que dura até hoje.
O meu, claro.
People like us [Pessoas como nós]


People like us,
So much in love;
People who just trust one another.
Ooh, what a dump---
Now it's a palace.
Where a Dixie cup becomes a chalice.
For people like us (For people like us),
So much in love (So much in love)...

Lassos of love (lassos of love)
Twirling around us (twirling around us);
A magical space in the city that surrounds us.
Now is the time---
Blow out the candles.
A nursery rhyme too hot to handle.
For people like us
So much in love...

Ooh, what a dump---
Now it's a palace
Where a Dixie cup becomes a chalice
For people like us,
So much in...so much in love,
In love...

For people like us,
(For people like us)
For people like us,
(For people like us)
For people like us...

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

O Argumento do Medo

[Também conhecido como "Aposta de Pascal"]
Hoje eu tive uma experiência nada inédita. A pedido de um rapaz ateu, eu entrei em uma discussão por MSN com outra pessoa que é do tipo religiosa fundamentalista. Eu já não entro mais nesse tipo de discussão faz tempo, porque sei que não vai dar em nada, mas como foi um pedido, eu atendi. Como eu já tenho alguma experiência para detectar o que a pessoa realmente pensa, fui logo perguntando: "Você acha que eu mereço ir para o inferno simplesmente por não acreditar no deus cristão?" Ela respondeu que sim. Perguntei, " E se dependesse de você, se a decisão fosse sua, você me mandaria para o inferno?" Novamente ela respondeu que sim. (Devo dizer que foi nessa parte que ela me surpreendeu, normalmente as pessoas amenizam, saem pela tangente, dizendo que essa decisão não é delas, etc, etc.)

Quero deixar claro que eu nada tenho contra a crença de ninguém. E também sei muito bem que existem muitas maneiras de acreditar, conheço muitas pessoas que acreditam em "alguma coisa", mas são pessoas que não condenam ninguém por não pensar como eles, e levam suas vidas sem se ater a regras absurdas por medo de não merecer a "salvação". Por pessoas assim eu tenho o maior respeito e nunca me passou pela cabeça tentar convencer uma pessoa assim a mudar de idéia. Apenas explico o que penso se a pessoa perguntar, e normalmente essas pessoas não se sentem ameaçadas com isso. Assim, o convívio é tranquilo.

Mas o tipo de pessoa capaz de apontar o dedo para mim e dizer que eu sou uma péssima pessoa só por não compartilhar a sua crença me deixa perplexa. O argumento é tão infantil que me surpreende que a pessoa não tenha vergonha de usá-lo. Cheguei à conclusão de que essas pessoas carecem de empatia e compaixão, dão mais importância a um livro do que à pessoa ao seu lado. O tipo de deus em que essa pessoa acredita eu só consigo descrever como 'vaidoso, rancoroso e vingativo'. Tipo um juiz que vai me jogar na cadeia porque eu não puxei o saco dele. Na verdade isso me lembra muito os deuses gregos, eles castigavam duramente quem não lhes prestasse as devidas homenagens. Soa familiar?

Uma pessoa só poderia ser julgada pelos seus atos, e os atos só poderiam ser avaliados pelas suas consequências concretas. Não deveria importar o que a pessoa pensa ou acredita, só o que ela faz. Eu não faço coisas ruins simplesmente porque eu me importo com as pessoas e os seus sentimentos. Empatia é chave de tudo.

A importância do Estado Laico

Imaginemos que a maioria da população de um país pertença a uma organização religiosa específica. Vamos supor também que eles consigam que os preceitos religiosos específicos dessa organização se tornem obrigatórios a todos, em forma de lei, já que são maioria. Isso significaria entre outras coisas que, por exemplo, a transfusão de sangue seria proibida por lei. Agora imaginem que uma pessoa que não pertence a essa organização seja obrigada a seguir essa lei, e venha a morrer em consequência disso.
Este é um exemplo extremo, mas serve para ilustrar o absurdo de uma religião impor seus valores particulares. Por isso o Estado precisa ser laico.
Se fala muito em Estado Laico, mas as pessoas em geral não sabem muito bem o que isso significa. Em termos simples, significa que nenhuma religião pode se impor como diretriz à população como um todo através de leis.
Alguns países não são laicos, entre eles a maioria dos países da região árabe. Nestes países os preceitos religiosos devem ser seguidos por lei, deixar de cumprí-los resulta em punição, como se um crime tivesse sido cometido.
Existem também países onde há uma religião oficial, mas ela não é imposta à população. O não cumprimento não implica em punição e há liberdade para seguir qualquer outra religião, ou nenhuma. Este é o caso dos países escandinavos, e o paradoxo é que ali o número de ateus é muito grande, 85% na Suécia e 60% na Finlândia. E mesmo os que participam da igreja, o fazem por tradição, não por serem especialmente religiosos.
O Brasil é laico pela Constituição. Na prática, no entanto, não é o que realmente acontece. O divórcio só se tornou legal no Brasil em 1978; demorou por causa da pressão da Igreja Católica. Hoje temos o exemplo das bancadas evangélicas tentando impedir a aprovação da lei contra a homofobia, e eles se baseiam em suas crenças religiosas. Outro exemplo menos óbvio à primeira vista são os feriados, quase todos cristãos/católicos, e o pais (ou um estado, ou uma cidade) pára por causa deles.
Algumas pessoas alegam que já que a maioria da população é cristã, é correto que a lei seja feita de acordo com a vontade dessa maioria. Se assim fosse, não haveriam leis protegendo deficientes físicos, idosos, mulheres, crianças, etc. A verdade é que a democracia não pode se tornar uma “ditadura da maioria”. As minorias tem que ser respeitadas, desde que se mantenham dentro da lei, e a lei só pode determinar como ilegal aquilo que de fato prejudica alguém de forma concreta.
Algumas pessoas temem que um Estado Laico seja sinônimo de Estado Ateu, por pura desinformação. Nada mais longe da verdade. Além de garantir que uma religião específica não possa se impor, o Estado Laico também garante a liberdade religiosa em seu sentido mais amplo. Qualquer pessoa está livre para ter a religião que desejar, ou não ter nenhuma, como é o caso dos ateus.

Isso significa que ninguém pode ser discriminado por causa de sua postura em termos de religião, que um católico ou evangélico não tem o direito de constranger um participante do candomblé, por exemplo.
A defesa do Estado Laico efetivo é uma bandeira do movimento ateu, e significa que muitas pessoas que sofrem perseguição por pertencerem a alguma religião minoritária também terão os seus direitos respeitados. Os ateus não pretendem de forma nenhuma que todos se tornem ateus, querem apenas ser respeitados em seu direito de não precisar esconder a sua não-crença. As religiões em si não nos incomodam, nos incomodam a arrogância de alguns religiosos ao se sentir no direito de nos discriminar.
O cumprimento efetivo da Constituição na questão da laicidade é de fundamental importância para que todos, não só os ateus, tenham a sua liberdade de crença respeitada.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

"A Boa Vida" por Claudio Moreno

A boa vida

Para Berenice Giannetti, no seu aniversário

Na Grécia antiga, quase todas as esculturas eram feitas em bronze ou em mármore. Os mestres se dividiam segundo suas preferências, mas era tamanho o seu talento que, fosse com pedra, fosse com metal, nunca deixaram de produzir obras-primas de qualidade, habituando o povo grego ao convívio diário com a arte e a beleza.

Os que esculpiam o mármore, contudo, tinham uma superioridade natural sobre todos os demais. Para fazer uma estátua, o artista do bronze construía com sarrafos uma figura humana, com pernas e braços estilizados, e ia “vestindo” esse esqueleto com argila até produzir uma versão acabada da obra que imaginara, de onde então sairia o molde necessário para a fundição definitiva. Seu trabalho, semelhante ao dos pintores, era acrescentar camada por camada até atingir a forma pretendida – exatamente o inverso, portanto, do caminho seguido pelo artista do mármore, que precisava libertar, lasca após lasca, a forma que estava encerrada dentro da pedra. Essa mesma ideia foi defendida, muitos séculos depois, por Michelângelo, gênio do Renascimento: há uma escultura escondida dentro de cada bloco de mármore; para que ela possa vir à luz, o artista só precisa, com paciência e delicadeza, eliminar aquilo que está sobrando.

Pois isso que o artista faz com o mármore, dizia Epicuro, nós deveríamos fazer com nós mesmos. Como essas formas que jazem à espera da mão que as liberte, vivemos encerrados no duro granito das convenções vazias, dos desejos irrealizados e das esperanças enganadoras. “O sábio deve esculpir sua própria estátua” é um preceito que nunca esteve tão atual quanto agora, neste mundo de puro consumo e aparência. E não se trata de louvar a renúncia e o sacrifício, mas de valorizar, com alegria, aquilo que realmente importa, ou, como disse outro sábio, “não é que eu deva me conformar com pouco, mas sim, se eu não tiver muito, que este pouco me baste”.

Adeptos desse princípio, poetas e filósofos deixaram suas receitas pessoais para uma vida feliz, todas muito parecidas: uma casa cômoda, fresca no verão, aquecida no inverno; a saúde, o bom tempo, a chuva generosa - lá fora; as flores na janela, as frutas da estação, a mesa farta, com sabores simples e sinceros; a mente em paz, o sono tranquilo ao lado de quem se ama; o olhar límpido das crianças; alguns amigos, com alma semelhante à nossa; o sossego, na companhia de muitos livros e de muita música. Não esperar nada dos poderosos; querer ser o que se é, e não preferir nada mais; não temer o fim, nem desejar que ele chegue; aprender, em suma, a saborear o puro prazer de existir – isso é viver.

(na Zero Hora, segunda feira, 3 de novembro de 2009