quarta-feira, 28 de outubro de 2009

"O Ateismo traz muita paz"

O empurrão final para que eu desistisse da astrologia em particular, e da minha busca em geral, foi muito por eu ter conhecido a STR. Quando cheguei nesse ponto, foi incrível a paz que eu senti. Foi uma sensação de alívio muito grande, tipo "ufa! não preciso mais me preocupar com isso."

Tem uma comunidade no Orkut que se chama "O Ateismo traz muita Paz". E quem a fez, foi porque viu essa frase em uma postagem minha em outra comunidade.
Não estou dizendo que todos vão, ou devem, se sentir assim. Para chegar a esse ponto é preciso primeiro enfrentar o lado negativo da descrença, que é o fato de não haver nenhuma força para nos proteger. Se conseguirmos superar o medo da "solidão cósmica", o que vem de bônus é uma grande liberdade. E essa liberdade tem um contraponto extremamente importante, que é a responsabilidade.
Não temos ninguém para responsabilizar exceto nós mesmos, temos que assumir totalmente tudo que fazemos. E as pessoas assumem uma importância ainda maior, porque não haverá uma segunda chance. Depois que a pessoa morre, o que não foi feito ou dito, não será mais feito ou dito, então temos que tratar bem a pessoa enquanto está aqui conosco.

Em janeiro de 2005 saiu uma matéria na Revista das Religiões, intitulada "Em que crêem os que não crêem". Foi feita uma entrevista comigo por e-mail, mas aproveitaram muito pouco de tudo que escrevi. Por isso coloquei a entrevista na íntegra à disposição no meu site do Multiply . No final da entrevista eu falei justamente nessa questão da paz que algumas pessoas encontram no ateismo.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A História das Meninas Dahlström


(contribuição da minha irmã, Synnöve)

Na foto: Meninas Dahlström em cena: Mais um Concurso Cultural na TV da Finlândia em que as meninas ganharam o prêmio máximo. Na foto, Åsa, Synnöve, Bodil e Tove sentadas à frente, tendo o apoio do irmão Yngve, Pai Klas e mãe Iris.

É de conhecimento comum que em 1970 mudou-se para o Brasil a família Dahlström, vinda de um país distante, ao norte do mundo, a Finlândia. Da família faziam parte pai e mãe ecinco filhos, dos quais apenas um, o primogênito era do sexo masculino, as demais (em todos os sentidos) eram as meninas Dahlström, que cruzaram a linha do Equador, mas deixaram para trás um país e uma cidadezinha, Jakobstad, marcados para sempre.
- Vocês estão se comportando como as meninas Dahltröm! - Era uma frase ouvida por muito tempo pelas crianças de Jakobstad e, segundo depoimentos, não de uma forma positiva. Entenda, caro leitor, que a idade das meninas em questão variava de 3 a 12
anos e nessa tenra idade que precede a adolescência nenhum comportamento é negativo.

Na verdade, o comportamento das meninas era extremamente positivo, porém mal compreendido. Líderes natas, ainda no berço conseguiam ganhar qualquer disputa cultural e intelectual sem dificuldade e tinham o hábito de conseguir provar para qualquer pessoa que estavam sempre certas, portanto, era natural que fossem obedecidas. Apenas uma questão de lógica...
Bom, estudos deduziram que, por tratar-se de uma família grande, um tanto atípica para os padrões sociais da época, em que a média de filhos por família era de 2.12 (não sei quantos filhos alguém deve ter para completar o ponto12, enfim, estatística!), os Dahlström formavam um grupo capaz de preencher todos os espaços físicos e sonoros de uma simples festinha familiar.
Somente uma das meninas, a mais velha, participava dos escoteiros (sim,na Finlândia é chamado escoteiros para meninos e meninas), mas muitos anos depois de a família ter se mudado para o Brasil os instrutores ainda aterrorizavam as pequenas lobinhas dizendo que se não se comportassem, pareceriam “as meninas Dahlström”. Ainda nos anos 80era possível escutar o suspiro de alívio dos monitores por não terem que
enfrentar as outras três...
A nova geração de meninas Dahlström se mostrou tão forte e determinada quanto a anterior e, do mesmo modo, mal compreendidas. É pena que algumas pessoas ainda insistam em confundir determinação com teimosia e convicção com autoridade...

O primeiro encontro da STR

Em novembro de 2000 eu estava passando uns dias em Porto Alegre, e conversei pelo ICQ com alguns dos outros editores da STR que também moravam lá. Combinamos de nos encontrar em um bar conhecido simplesmente para nos conhecermos, todos estavam muito curiosos. Um deles me perguntou que altura eu tinha, achava que por ser escandinava devia ser bastante alta. Respondi que eu não ia dizer que altura eu tinha, que ele ia ver isso pessoalmente, mas que eu garantia que ele iria se surpreender muito com a minha altura.
Na hora do encontro foi muito engraçado, porque ele havia deduzido que eu devia ser excepcionalmente alta. Quando me viu teve uma surpresa muito maior do que imaginava. Acontece que eu tenho 1,50m de altura.(*)

O encontro foi ótimo, e tivemos vários outros depois. Com o tempo alguns se mudaram e a gente acabou se distanciando, mas ainda tenho contato com vários deles e a amizade continua.

(*) Essa foi outra questão que eu tive que resolver intimamente quando adolescente. Com 14 anos eu entendi que mais do que isso eu não iria crescer. E eu lembro exatamente onde eu estava, pensando comigo mesma, "e agora? o que faço? aceito numa boa, ou uso salto alto e tento parecer mais alta do que sou?". E a resposta veio muito rápido, e foi bem prática. Pensei, "quer saber? não gosto de salto alto!". A partir daí sempre convivi numa boa com a minha altura (ou falta dela). É aquela coisa de aceitar aquilo que não podemos mudar.

domingo, 25 de outubro de 2009

Uma janela para o mundo

Para quem tem menos de 20 anos, pode ser difícil imaginar um mundo sem a internet. Quando surgiu ainda era algo inacessível à maioria das pessoas, ainda mais no interior, a 500 km da civilização. Eu me sentia muito isolada, muito sozinha, porque eu não tinha quase ninguém com quem pudesse trocar idéias.

A internet mudou isso. Deve ter sido em 1999 que começamos a usá-la. No início não haviam tantos recursos, a conexão era discada, cara, e não havia ainda tanto material para pesquisar. Mas foi assim que descobri a STR - Sociedade da Terra Redonda, em 2000. Um site ateu, isso era inusitado! Eu salvava as páginas para ler depois, para não ficar conectada muito tempo. Descobri que eles precisavam de editores, inclusive de inglês. Mandei um e-mail e me ofereci. Me aceitaram e comecei a traduzir textos para o site e a participar de algumas discussões. Isso tudo me ajudou muito a definir o que eu pensava, todo o processo de raciocínio que eu não tinha passado na adolescência por falta de oportunidade, passei depois dos 40.
Vários editores moravam em Porto Alegre, então nós nos reunímos várias vezes pessoalmente. Foi uma experiência enriquecedora realmente.

A STR durou uns 4 anos, e depois simplesmente estancou, porque o Presidente não tinha mais tempo para se dedicar, e não delegava a manutenção do site para mais ninguém. Foi uma pena, mas em todo caso foi um precursor de vários outros movimentos, e cumpriu o seu papel. E teve uma reportagem na Veja em 2002 sobre ateísmo onde eu apareci. http://veja.abril.com.br/050602/p_084.html

Até hoje a única forma de muitos ateus encontrar outros é pela internet. E muitas organizações virtuais se tornaram possíveis só por causa disso em um país tão grande como o Brasil. Então o Santo Google é o nosso santo padroeiro e Bill Gates é o nosso Profeta. ;-D

sábado, 24 de outubro de 2009

Minha mãe, a rebelde-mor


Minha mãe me ensinou que não precisamos aceitar as convenções, devemos sempre perguntar porquê. Se não há uma boa razão para mantê-las podemos muito bem descartá-las. Eu me lembro que desde sempre ela ensinou aos filhos que os homossexuais, por exemplo deviam ser aceitos como são. E lembro dela dizer a uma pessoa que não havia nada de errado em um casal de namorados dormir juntos, isso não era "pecado". Só era errado fazer mal a outras pessoas.

Quando ela lia histórias para a gente dormir era fascinante, porque ela fazia teatro amador, então ela fazia vozes diferentes para diferentes personagens e encenava a história de tal maneira que parecia que a gente estava vendo tudo acontecer.
Até hoje quando eu leio eu mergulho no livro de tal forma que eu sou capaz de ficar em dúvida depois se li o livro ou vi o filme.

Uma coisa é certa, em 99% das vezes o livro é infinitamente melhor que o filme.

Sofia, uma mulher de coragem


Minha bisavó viveu nos tempos em que a Finlândia pertenceu à Rússia. Os finlandeses nunca aceitaram isso e se insurgiam o quanto podiam. A Sofia viajava para Suécia e na volta trazia folhetos subversisvos em bolsos escondidos na sua saia de baixo. Também escondia chapas para imprimir propaganda subversiva no fundo da lata de biscoitos. Às vezes vinham pessoas fugindo do lado russo e encontravam abrigo na casa dos meus bisavós.

É muito interessante saber dessas coisas, e tenho orgulho de pertencer a uma família com tantas histórias de coragem para contar.

Histórias ainda mais antigas - Rebeldia herdada?

Minha vó compilou um livro a partir dos diários e cartas da minha bisavó. Por causa disso eu sei de coisas sobre os meus antepassados desde aproximadamente 1750. Um deles, devia ser o meu quintavô ou sextavô, era general no exército do rei da Suécia (a Finlândia era território sueco até 1809, quando foi conquistado pela Rússia).

Então, contam que o rei era um rapaz muito jovem, impulsivo e mimado, que só queria promover guerras. Esse meu antepassado teria perdido a paciência e dado um tapa no rei. Por causa disso ele foi condenado à morte.

A esposa dele vestiu o seu melhor vestido, o que ela havia usado para se casar, e foi pedir clemência, mas de nada adiantou. Ele foi decapitado pouco depois.

Diz a lenda familiar que o tecido desse vestido foi usado para revestir uma cadeira, e diz a minha bisavó que quando menina ela fez um furo na parte de trás do encosto da dita cadeira e viu, através de várias camadas sobrepostas, um tecido finamente bordado.

Será que a rebeldia é genética?

A importância da leitura

Cresci em uma casa cheia de livros. Meus pais tinham o costume de ler histórias para nós na hora de dormir, e isso com certeza teve um papel fundamental no fascínio que sempre tive por livros.

Quando entrei na primeira série eu aprendi a ler em tempo recorde. Fiz o meu cartão de membro na Biblioteca Municipal na minha cidade. Já naquele tempo as bibliotecas na Finlândia eram muito boas, tinham uma grande variedade de livros. Fui à seção de livros infantis, claro, e peguei 5 livros que li em dois dias, e voltei para pegar mais. Eu acho que eu tinha uns 10 anos quando simplesmete tinha esgotado tudo na seção infanto-juvenil, e comecei a pedir livros na seção para adultos.

Quando vim ao Brasil eu já falava um inglês razoável, mas não sabia falar nada em português. Uma vizinha que era professora me emprestava livros, e isso me ajudou muito a aprender a língua. Em questão de menos de dois anos eu já estava praticamente fluente, e estudava sem dificuldades na escola regular.

A leitura nos proporciona a oportunidade de aprender com a experiência de outras pessoas e nos dá elementos para comparar e decidir por nós mesmos o que parece válido. Por isso é importante ler de tudo, inclusive opiniões com as quais não concordamos.

Influência decisiva do meu pai

Meu pai quando mais jovem era muito intransigente com as coisas, e eu acabei me rebelando porque precisava de um apoio emocional que ele não conseguia me dar. Mas com o tempo ele suavizou e entendeu que o confronto, principalmente com pessoas próximas, só as afastava. Quando ele soube que eu estava envolvida com astrologia, ele não me recriminou e nem me pressionou, apenas deixou claro que não acreditava naquilo. 

Fiquei bastante surpresa quando ele me pediu que fizesse o mapa astral dele. Ele me disse que, embora não acreditasse em astrologia, ele achava que eu devia ser uma boa astróloga. Disse "Gostaria de ouvir o que viria através de um 'filtro' como você".
Esse foi um dos fatores que me levou a entender que era EU que fazia tudo, a minha intuição, empatia e conhecimento sobre a natureza humana possibilitava que eu dissesse às pessoas coisas que eram úteis a elas.
E fez com que eu entendesse que eu podia fazer tudo isso, e provavelmente bem melhor, SEM a astrologia.

E também mostrou que a gentileza dele teve resultado muito mais eficiente do que se ele tivesse me confrontado.

Mais sobre a minha experiência na igreja

Morávamos em uma cidade pequena, 500 km de Porto Alegre. A igreja cumpre uma função social porque nós somos seres gregários, e sentimos necessidade de um grupo para nos apoiar. Então eu tentei muito me “encaixar”, afinal tinhamos filhos e precisávamos desses relacionamentos que um grupo proporciona. Não haviam muitas opções, na verdade.

Mas eu sempre fui diferente, tinha idéias diferentes, e pior, eu falava sobre elas. Resultado: eu era “estranha”, “esquisita”, e nunca me senti plenamente aceita naquela cidade. E é o tipo de lugar onde todo mundo sabe da vida de todo mundo, e se a pessoa for “marcada”, vai ser de maneira geral, por todo mundo. Não ficou muito evidente para mim na época, mas hoje eu sei que os meus filhos foram discriminados por causa disso.

Nossos filhos fizeram o Ensino Confirmatório (equivale a Catecismo católico) por insistência do meu marido, que era adepto de seguir os costumes, apesar de ser intimamente ateu desde pequeno. Sei que não foi uma experiência muito agradável para eles, e lamento por isso. Mas o lado bom é que ninguém pode dizer que os privamos de ter contato com a religião e hoje são todos ateus apesar disso. Na verdade o nosso filho mais novo se rebelou e se recusou a fazer.

Enfim, chegou um momento em que resolvi me afastar da igreja, e até sugeri ao meu marido que tornassemos isso oficial. Ele não concordou, porque tinha medo da reação das pessoas. Embora ele sempre tivesse sido mais ateu que eu, ele havia aprendido desde pequeno a disfarçar para não ser visado. Considerando o grande preconceito que impera, dá para entender. Só quando nós nos mudamos de lá, uns 9 anos atrás, é que finalmente nos desligamos definitivamente.

Richard Dawkins on militant atheism - 24 Translation(s) | dotSUB

Richard Dawkins on militant atheism - 24 Translation(s) | dotSUB

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Porque a astrologia parece funcionar

Sim, ela realmente parece funcionar. Isso me confundiu durante muito tempo, e eu achava que era válida. Muita gente faz mapa astral acreditando que estão fazendo algo sério. E essa ilusão torna a astrologia uma das pseudociências mais populares que existem.

De onde vem isso? O que é que funciona?
A resposta é que a intuição tem um papel fundamental. O que "funciona" é o(a) astrólogo(a). Uma pessoa bastante intuitiva e empática capta muita coisa da pessoa que está na sua presença e consegue dar um retorno até muito preciso a ela.
Além disso, os anseios básicos das pessoas são poucos e bastante previsíveis. Quase todo mundo quer dinheiro, saúde e amor, ou alguma variação disso. Então é muito fácil fazer "leitura fria" e em pouco tempo descobrir o que aflige a pessoa.
O Efeito Fohrer também tem o seu papel, as pessoas tendem a se lembrar da análise que deu certo e esquecem aquilo que não deu. E existe o perigo de a pessoa fazer com que uma previsão se cumpra porque se comporta de forma a faze-la acontecer.

Bom, mas como foi que eu parei então? Levei muito tempo, mas me dei conta de que eu não conseguiria sustentar uma argumentação coerente perante um cético. Isso me fez pensar e chegar à conclusão de que não tinha validade.
As pessoas em geral precisam desesperadamente de respostas, de alguém que as escute, algum tipo de segurança. A ilusão de que podemos em alguma medida prever o futuro, ou nos conhecer melhor, descobrindo aspectos "ocultos" da nossa personalidade), nos dá um falso senso de controle sobre as nossas vidas.

Mas não precisamos disso. O fato de podermos simplesmente nos abrir e desabafar com um bom amigo ou amiga já é muito reconfortante. E alguém de fora pode muitas vezes nos dar uma visão mais objetiva dos problemas que estamos enfrentando.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Como foi que entrei para a igreja

É, gente, fiz isso.
(Sei que estou devendo a explicação sobre astrologia, mas quero explicar essa parte primeiro.)
Antes, alguns esclarecimentos. Eu já disse que até hoje a Finlândia tem uma religião oficial, que é a Igreja Evangélica Luterana, uma das chamadas "históricas" derivada diretamente da Reforma de Martinho Lutero. Eu a considerava uma das mais 'light', e era essa mesma igreja à qual a família do meu marido pertencia, IECLB (Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil).
Morávamos na época em uma cidadezinha no interior do RS. Nossos vizinhos, e donos da casa que alugávamos, eram dessa mesma igreja. Como a área rural era grande, a ida à igreja aos domingos se tornava um evento social para muita gente. Eu já estava nessa fase deísta da qual falei antes, meu marido era membro, nosos filhos haviam sido batizados, tudo parte da tradição. Também pensei que através de uma organização como essa eu poderia ajudar a fazer algum trabalho social, então resolvi me batizar e "entrar para o clube". Também pesou o fato de termos na época um pastor muito progressista, com uma mentalidade muito avançada, que dava margem para discussões interessantes e atuais.
Mas o pastor foi embora e veio outro mais de acordo com a mentalidade do lugar. E eu logo percebi que as reuniões das senhoras tinha pouco cunho prático, era praticamente só chazinho e conversa. Me decepcionei.

A busca que levou 20 anos

Como eu cresci em uma família atéia e sempre encarei o ateismo como algo muito natural, eu nunca estudei ou pensei muito a respeito do assunto. Pode-se dizer que eu não tinha uma base sólida em termos de conhecimento e opiniões.
Por isso, aos 21 anos, eu comecei a questionar se não existia mesmo alguma coisa. É engraçado pensar que eu trilhei o caminho inverso da maioria dos ateus, e não descarto que fiz isso como uma ato de rebeldia contra meu pai.

Evidentemente o deus cristão, antropomórfico estava fora de questão, esse eu descartei aos 8 anos de idade, mas comecei a estudar Rosacrucianismo junto com meu marido, que apresentava o conceito deus = energia. Essa era uma idéia que eu conseguia aceitar, e comecei uma longa busca por causa disso. Em pouco tempo abandonamos o Rosacrucianismo, porque percebemos que havia muita enrolação nesses "ensinamentos" e que era uma organização bastante comercial, querendo vender correntinhas, incensos, etc.
Depois disso fizemos um daqueles cursos de "Poder Mental", e pesquisei Gnose e coisas desse tipo.

Mas o que realmente me pegou foi a astrologia. Estudei muito, comprei muito livros, aprendi a fazer mapa astral e acreditava realmente no que fazia. Isso é importante entender, nem todos os astrólogos(as) são charlatões. E também é muito importante analisar porque a astrologia parece funcionar. Mas isso fica para o próximo post.

Mudança total


Quando eu tinha 13 anos, isso foi em 1970, minha família toda veio de mudança para o Brasil. Foi uma viagem no tempo também, porque a mentalidade aqui correspondia à mentalidade da Finlândia na década de 50. A virgindade até o casamento, por exemplo, era ainda um assunto tabu.
Talvez por ser estrangeira a questão do ateismo a princípio nunca me causou problemas, mas eu também não falava muito sobre isso. Para mim era muito natural ser atéia e eu não via motivo para levantar o assunto.

Conheci o meu futuro marido apenas dois anos depois. Fazia pouco tempo que estavamos namorando quando, por influência de uma amiga, fui a uma cartomante. Essa mulher me disse que o namoro do momento não daria em nada e que eu conheceria o homem com quem casaria aos 19 anos (eu estava com 15). Agora, imaginem se eu acreditasse nisso! Acabou que a gente se casou 3 anos depois, e estamos casados até hoje. Em dezembro completamos 35 anos de casados.

Para casar houve uma certa polêmica. Eu não era batizada, e deixei bem claro que se eu tivesse que fazer isso para casar na igreja, então o casamento seria só no civil.
Resultado, o meu sogro tinha um parente pastor que concordou em nos casar assim mesmo. A verdade é que a família do meu marido não era particularmente religiosa, como muitos outros eles pertenciam à igreja por formalidade.
E eu continuei atéia ainda por um bom tempo depois disso.

Aprendendo a enfrentar a vida


Nada a ver com ateismo, mas eu creio que tem a ver com a capacidade de enfrentar coisas não muito agradáveis.

Quando eu tinha 9 anos, fui ao dentista pela primeira vez. Eu estava muito nervosa e com medo por causa de todas as histórias que tinha ouvido sobre como era horrível ir ao dentista. Na hora de fazer a anestesia senti muita dor, e empurrei a mão da atendente, não deixei fazer. Comecei a chorar, mas tanto a atendente quanto o dentista foram muito gentis e me disseram que quem sabe eu voltava outro dia então.

Até hoje eu não entendo como é que com essa idade fui capaz de um raciocínio desses, mas eu pensei: "Se eu sair daqui agora, eu não vou conseguir voltar". Juntei toda a minha coragem e deixei que fizessem a anestesia e arrumassem o meu dente. Eu entendi que se eu não fizesse isso naquele momento, eu ia passar a vida inteira fugindo.

Isso tem um precedente. Aos 7 anos eu não permiti que me vacinassem na escola, e eu senti muita vergonha depois por não ter sido capaz de enfrentar aquilo. Ter sido capaz de enfrentar o medo dois anos depois fez com que eu me sentisse muito melhor, e com certeza teve reflexos nas minhas atitudes futuras.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Uma família atéia

Meus pais se casaram só no civil também, e nunca mencionaram o assunto religião com os filhos. Mas quando eu comecei a frequentar o Jardim de Infância o assunto apareceu. Eu, com 4 anos, é claro que fiquei encantada com as historinhas tão bonitinhas que a Tia contava sobre aquele homem tão bonzinho que gostava tanto de crianças. Lembro que fiquei decepcionadíssima quando me explicaram que não tinha como eu conhecê-lo, porque ele já tinha morrido.

Eu cheguei a ir algumas vezes à Escola Dominical com alguma amiga, e meus pais nunca se opuseram. Só lembro que meu pai me disse que "deuses" existiram muitos e que esse era apenas mais uma das muitas mitologias que haviam. Durante 4 anos da minha infância eu fui teista, mas aos 8 anos me bateu uma angústia enorme, e eu senti que não conseguia mais acreditar naquilo. Isso é meio pesado para a cabeça de uma criança, e eu rezei como se tivesse que dar uma explicação àquele deus no qual tinham me ensinado a acreditar. Até decidi mentalmente que quando eu tivesse 16 anos eu ia pensar no assunto novamente. Acabei fazendo isso só aos 21.

A outra atéia de bom humor


Minha vó, Greta Dahlström, se desligou da igreja para casar com o meu avô. Como a maioria das pessoas, ela só estava cadastrada na igreja por tradição, costume, coisa que acontece até hoje.
Ela era uma pessoa muito calma, tímida e tinha um jeito muito bem humorado de se expressar. Uma vez umas Testemunhas de Jeová bateram na porta dela para tentar convencê-la a entrar para a seita deles com o argumento de que as vagas no céu eram limitadas (eles realmente pensam assim) e que ela devia garantir a dela. Ela calmamente respondeu que preferia deixar o lugar dela para alguém mais "ansioso".

Dizem que sou muito parecida com ela. Bom, pelo menos o bom humor é certo que eu herdei.

O primeiro casamento civil da Finlândia

(na imagem: meu avô, Svante Dahlström)

Então, eu prometi contar uma história interessante sobre um amigo do meu avô. Como eu disse na postagem anterior, até 1921 não havia Registro Civil na Finlândia, a única opção era casar na igreja e batizar os filhos. Isso contava como registro oficial e continua até hoje, ou as pessoas casam na igreja ou no cartório. E os filhos são ou batizados ou inscritos no Registro Civil.


A história se passa em 1914, antes de instituirem o tal Registro Civil. O amigo se chamava Rolf Lagerborg e eles pertenciam a uma organização de livres-pensadores, a Associação Estudantil Prometheus (http://www.dlc.fi/~etkirja/AtheismInFinland.htm), que foi fundada em 1905-1906 e lutava pelo direito à liberdade religiosa. Ele tinha uma noiva, mas não admitia se casar na igreja. Então os dois combinaram um esquema que gerou grande escândalo na época, mas funcionou.

A noiva o processou por ter "coabitado" com ela, sendo que depois se recusava a "levá-la para diante do pastor". Ele disse para o juiz que de fato ele se recusava a fazer isso, mas que se o juiz assim decidisse, e o "condenasse" a estar casado com ela, isso ele aceitaria. E foi isso mesmo que aconteceu.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Uma longa tradição


Eu sou atéia de terceira ou quarta geração. De terceira eu tenho certeza, os meus avós paternos eram ateus declarados. No entanto eu tenho quase certeza de que os meus bisavós também eram (imagem ao lado: minha bisavó). Nasci na Finlândia onde morei até os meus 13 anos. O ateismo lá creio que tem sua origem principalmente no Iluminismo Francês. Digo isso porque muita gente supõe, errôneamente, que o ateismo deriva do comunismo.

Meu avô paterno fazia parte de um grupo de livres-pensadores no início do século passado. Esse grupo lutava pelo direito de não ter que casar na igreja e batizar os filhos, pois essa era a única opção na Finlândia até 1921. Até hoje existe uma igreja estatal lá, por incrível que pareça a Finlândia não é um país laico. No entanto a religião lá não interfere em assuntos de estado da mesma forma que no Brasil. Parece paradoxal, e é. Creio que é muito mais uma questão de mentalidade do que o que consta na Constituição.

Quanto ao meu avô, existe uma história interessante sobre um amigo dele, participante desse mesmo grupo. Mas isso eu conto na próxima postagem.