domingo, 13 de dezembro de 2009

Respeitai-vos uns aos outros

Realisticamente falando, não é possível amar a humanidade toda. Não é possível nem mesmo amar a população de uma cidade. Os seres humanos são capazes de amar, num sentido mais amplo, um grupo de 150 a 200 pessoas com quem tem laços afetivos em algum grau, desde amizade e família, a um envolvimento romântico. Amor é um sentimento, portanto não temos muito controle sobre ele. O amor também é algo bem difícil de definir, as pessoas usam o termo para justificar às vezes comportamentos bem estranhos. Alguns são capazes até de matar em nome do "amor".
Por outro lado, eu nunca vi alguém matar ou se comportar de forma irracional em nome do respeito. Respeito é uma atitude que podemos decidir assumir de forma controlada de consciente.
Cheguei à conclusão há muito tempo de que para fins de convívio em sociedade, o respeito é infinitamente superior ao amor. O amor desgasta, o amor exige muito de nós, só conseguimos amar de verdade um número bem pequeno de pessoas.
Respeito podemos ter por qualquer pessoa, mesmo que seja apenas no sentido de respeitar a sua integridade física.

Um "Respeitai-vos uns aos outros" na hora certa e no lugar certo teria evitado muitas tragédias.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Entrevista ateista

Saiu no blog ATEU ATIVO de Walison Douglas, uma entrevista feita por ele ontem. Os entrevistados foram eu, o Vides Junior e Marcelo Ronconi.
Confira no link:
Entrevista ateista

Achei as perguntas bem escolhidas, e gostei de participar.

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A propósito, lembrei de uma outra entrevista em uma comunidade do Orkut. Organizei tudo no meu Multiply, aqui está na íntegra:
Entrevista na comunidade A&A, em julho de 2008

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Eu não acredito em futebol!

Estou brincando, claro, mas não deixa de ter um fundo de verdade. Futebol só existe como atividade, mas muita gente leva a sério demais. No jornal Zero Hora de hoje tem uma crônica de Martha Medeiros que me chamou atenção. O título é "Os meio honestos", e vou transcrever algumas partes que achei interessantes:
"Rivalidade tem limite. Pode ser algo divertido e infantil, no que a infantilidade tem de melhor, que é o nosso resgate dos tempos do colégio, das gincanas, das turmas de rua. Natural que, mesmo crescidos, o espírito de disputa permaneça, que se diga “bem feito” quando o lado de lá perde, que se toquem flautas, que se soltem foguetes quando nosso adversário leva um gol. Coisa de piá.

O limite da rivalidade é extrapolado quando deixamos de ser gremistas ou colorados para virar um tipo de torcedor mais agressivo: aquele que é, antes de tudo, antigremista ou anticolorado, e que torce mesmo é pela humilhação do oponente em qualquer circunstância. É o lado perverso da infantilidade: são homens e mulheres que não conseguiram transpor os ritos de passagem, não suportam se sentir inferiores e confundem o futebol com uma espécie de religião. Aí deixam de pensar."


Eu costumo dizer que nenhuma causa vale o sacrifício de uma vida sequer, porque as pessoas e suas vidas deviam estar acima de qualquer abstração. O futebol não deixa de ser uma abstração, porque não existe uma entidade física chamada "futebol". Mesmo assim tem gente que é capaz de matar os torcedores de outro time.

Vá entender...

sábado, 28 de novembro de 2009

Eu comemoro o Natal!

Muitos ateus acham que não devem comemorar o Natal por "princípio", como se fosse errado de alguma forma. Eu considero isso um equívoco.

Meus pais eram ateus, mas comemoravam o Natal. O Natal na Escandinávia deriva da antiga festa pagã Yule (Jul, em sueco), que era a festa do Solstício de Inverno. Comemora-se o retorno do Sol, é uma festa de Luz, por isso as velas e o brilho. No início não tinha conotação cristã, e pode-se dizer que a maioria das pessoas hoje não comemora o Natal com esse sentido. É uma tradição que faz parte da nossa cultura, é uma época em que as familias se reúnem e se divertem.

Eu gosto desde a decoração da casa, montar o pinheiro, criar o clima com luz suave, velas acesas e música apropriada. Tudo isso me traz uma sensação de bem estar, de tranquilidade e eu não desistiria disso de forma nenhuma.

Descobri inclusive que o próprio Richard Dawkins comemora o Natal e defende o costume. Não que eu fosse agir diferente se ele não pensasse assim, mas gostei de saber.



É claro que existem muitos que não trazem essa tradição de casa, e não gostam do Natal. Tudo bem, ninguém é obrigado. Apenas acho que atualmente podemos atribuir o sentido que quisermos a essas festividades, cada um que faça o que lhe dá prazer.

GOD JUL a todos!!

domingo, 22 de novembro de 2009

Zeitgeist: A Verdade sobre o "Espirito dos Tempos" [ou "Não basta ser ateu, tem que ser cético"]

Na minha postagem anterior eu prometi retornar ao assunto, mas em um contexto mais específico.
Eu disse que não é preciso ser ateu para ser cético e mostrei situações corriqueiras que demonstram isso. O comentário do Érick complementou bem a questão, falando em como a maioria dos católicos questiona as regras impostas pela ICAR.
Por outro lado, nem sempre um ateu é automaticamente cético. A popularidade do Zeitgeist é um ótimo exemplo. Não vou me estender na explicação ou crítica aqui, porque José Geraldo já fez isso com muita maestria em uma comunidade no Orkut. Vou colocar o link aqui , [OBS: a postagem sumiu desde então, porque o autor deletou o seu perfil] e vou tirar do texto dele algumas citações.
"Os primeiros $45$ minutos de Zeitgeist tentam explicar de forma detalhada que Jesus é um mito e o Cristianismo é uma farsa. Esta tese não é difícil de argumentar, havendo uma volumosa e inquestionável biblioteca de escritos e pesquisas das mais diversas disciplinas humanas que pode ser usada para sustentá-la. Causa-me profunda estranheza, então, que o filme pretenda defendê-la com base justamente em informações falsas, comparações anacrônicas, associações forçadas, explicações que não fazem sentido algum ou que, quando fazem, estão contaminadas na fonte pelo vício dos dados incorretos."

"Em seguida o filme se dedica a "desconstruir" as explicações oficiais sobre os atentados de 11 de setembro, recorrendo a teorias conspiratórias. De que maneira este assunto está interligado ao primeiro é algo que, inicialmente, o público de Zeitgeist demora a digerir. Mas, de alguma forma, apesar da estranheza das teorias de conspiração nesse ponto, os neo-ateus engolem esta parte, mesmo meio a contragosto, porque de bom grado consumiram a primeira. O fato de que algumas pessoas que se identificam como "engenheiros" darem depoimentos sobre como o WTC deveria ter caído é suficiente para emprestar credibilidade à tese de que os aviões foram apenas uma desculpa, de que o acontecido foi uma demolição controlada, que tudo foi um ``trabalho interno'' em nome de algum interesse escuso."

"Quando chegamos à terceira parte o filme já se tornou cansativo e os argumentos estão cada vez mais confusos e menos afirmativos. Fica-se com a impressão de que ``tudo'' faz parte de um Grande Plano executado por Certas Pessoas que têm o poder dos Estados em suas mãos e que trabalham para construir uma Nova Ordem Mundial, sabe-se lá com que interesses."


"Só porque Zeitgeist parte de uma idéia que agrada ao grosso dos ateus/agnósticos/céticos/libertários (negação da divindade de Jesus), ele atrai simpatizantes para outras idéias, estranhas à proposta inicial, mas que, estranhamente, parecem as idéias dos que mais ferrenhamente defendem a divindade de Jesus: A serpente morde o próprio rabo."

"Zeitgeist reaparece a cada semana na internet, há quase três anos. Nenhum filme realmente bom sobre a História jamais teve esta atenção. Para mim está muito claro o que ele é. Mas não é fácil convencer disso facilmente o público cativo que ele angariou porque quem é submetido pela lavagem cerebral se torna um fanático por ela. É por isso que não adianta ser ateu se você não é cético de verdade e se não tem bons conhecimentos para defendê-lo de manipulações como essa."


Recomendo que leiam todo o texto para entender melhor todo o contexto. Pessoalmente tenho a comentar que todos nós, ateus ou não, temos que tomar muito cuidado com o que aceitamos como verdade, principalmente se o desejo de acreditar é muito forte.
Só porque alguém diz o que queremos ouvir, não é garantia nenhuma de que tudo que a pessoa diz seja verdade. Temos que verificar as informações, os fatos, as fontes e a intenção da pessoa. Se não fizermos isso corremos o risco de ser enganados.

Tem um outro tópico no Orkut, mais extenso, que traz alguns argumentos mais detalhados. Está na comunidade da STR. [OBS: essa postagem também está truncada pelo fato do autor original ter deletado o seu perfil]
Vou reproduzir aqui apenas a parte que se refere às incorreções com relação a Horus:

"Em relação à parte sobre Jesus, vou citar apenas doze boçalidades retiradas de meros dois minutos do filme:

1. Hórus era o deus egípcio do Sol (16:00) ― na verdade Hórus é o deus celestial, filho de Osíris e Ísis (deuses relacionados a cultos de fertilidade). Os egípcios acreditavam que o Sol era UM DE SEUS OLHOS e a Lua o outro.
2. Seth personificava a escuridão e a noite (16:20) ― na verdade Seth representava a ausência de vida, o deserto; mas também das tempestades, das desgraças e do caos. A luta de Set contra Hórus representa a luta da humanidade e suas forças criadoras contra a hostilidade e a esterilidade de uma natureza cruel.
3. Hórus nasceu em 25 de dezembro (17:00) ― não existem referências sobre a data de nascimento de Hórus.
4. Hórus nasceu de uma virgem (17:00) ― embora haja uma versão de sua lenda que mencione ter sido concebido quando seus pais ainda estavam no útero materno, a versão mais comum é a de que Ísis o concebeu ao praticar necrofilia com o cadáver de Osíris, por ela restaurado através de artes mágicas. Na época da concepção Osíris e Ísia haviam sido marido e mulher por muito tempo.
5. O nascimento de Hórus foi acompanhado pelo aparecimento de uma estrela no leste (17:00) ― o nascimento de Hórus foi anterior à criação do mundo. Portanto, não havia “leste” onde pudesse aparecer uma estrela.
6. Hórus foi adorado por três reis (17:10) ― tendo nascido antes da criação do mundo, não havia reis para adorá-lo. De qualquer forma, teria sido muito difíceis reis irem ao mundo celestial adorá-lo, visto que Hórus é um ser espiritual ― e não material.
7. Hórus ensinou os mestres aos 12 anos (17:10) ― Hórus permaneceu escondido durante toda sua infância, somente quando se tornou adulto ele se revelou e lutou contra Seth para vingar seu pai, Osíris.
8. Batismo de Hórus aos 30 anos (17:10) ― não há nenhuma referência disso e Hórus não teve um “ministério”, ele se tornou rei após a Assembléia dos Deuses decidir apoiá-lo contra Seth.
9. Hórus tinha 12 discípulos, em cuja companhia perambulava fazendo milagres (17:10) ― Horus não era um curandeiro, mas um deus-rei do mundo celestial.
10. Títulos atribuídos a Hórus (17:25) ― apenas “Luz Celestial” e “Divino Rei” são atestados.
11. Hórus traído por Tifão e crucificado (17:30) ― Tifão era um personagem da mitologia grega e, ainda que mais tarde tivesse sido incorporado ao panteão egípcio, na época mencionada por Zeitgeist (3.000 a.C.) ele era desconhecido no Egito, principalmente porque nessa época os gregos ainda nem haviam chegado à orla do Mediterrâneo. Hórus não foi traído por ninguém, e muito menos crucificado. Ele foi, isto sim, cegado por seu inimigo Seth, e sua derrota causaria o desaparecimento de toda a vida, razão pela qual os deuses o apoiaram contra Seth.
12. Hórus esteve morto por três dias e depois ressuscitou ― Foi Osíris ressuscitou por três dias e depois voltou a estar morto."


Só por aqui já dá para ver que o filme não merece credibilidade.
Como eu disso no começo: "Não basta ser ateu, tem que ser cético"

sábado, 21 de novembro de 2009

Ceticismo para principiantes

Acredito que muito já se falou sobre esse assunto, mas eu ainda tenho a impressão de que a maioria das pessoas não tem uma idéia muito clara do que seja isso.
Dependendo do enfoque, pode parecer muito complicado, ainda mais se vamos para o lado das definições filosóficas, que nunca foi o meu forte.
Então, resolvi tentar simplificar um pouco a questão, para clarear a idéia até para mim mesma. De um ponto de vista prático, ceticismo é o velho e saudável pé atrás, pulga atrás da orelha, o "bom demais para ser verdade", e tantos outros conceitos populares semelhantes. Eu poderia até citar o "quando a esmola é muito grande, o santo desconfia", porque mostra que não é necessário ser ateu para ser cético.
A vasta maioria das pessoas são céticas, dependendo do assunto. Quando vemos uma propagando enaltecendo as qualidades de um produto, ou um político fazendo promessas de campanha, a gente normalmente fica desconfiado. Isso é ceticismo.
Cético não é aquele que desconfia de tudo, não é sinônimo de cinismo ou niilismo. O ceticismo saudável, a que estou me referindo, é a nossa capacidade de detectar o exagero, e o impulso para descobrir mais sobre o assunto, nos informando melhor para ter certeza do que estamos fazendo. Essa é uma atitude sensata, "pé-no-chão", nesse nosso mundo tão cheio de espertalhões tentando nos enrolar para tirar vantagem.

Vou voltar a esse assunto logo mais, em um contexto mais específico.

sábado, 14 de novembro de 2009

Dra. Rita Levi Montalcini

Rita Levi Montalcini
"Ela atravessou um século de conquistas e transformações, de horrores e grandes guerras e amanhã completa cem anos. Rita Levi Montalcini nasceu em 22 de abril de 1909. Médica, professora, prêmio Nobel em 1986 pela descoberta do Nerve Grown Factor.
Sobre ele ela diz: “ Cheguei ao resultado com a sorte e a intuição. Encontrei o NGF porque o procurava com grande convicção. Tinha certeza de que existisse. Aquela descoberta derrubou a ideia que o sistema nervoso fosse estático e programado geneticamente.”
Confessa nunca ter-se apaixonado. “Tive grandes amizades, profundas, mas amores verdadeiros, nunca. Meu pai, um homem vitoriano, achava que eu e minhas irmãs deveríamos ser educadas para sermos mães e esposas. No fim permitiu que freqüentasse a Universidade. Foi uma grande vitória!”
Sobre o mal afirma: “O mal é o desejo excessivo do próprio bem-estar e desinteresse pelo bem comum”.
Sobre o século XX: “ Durante este século tivemos grandes sucessos científicos, sociais e também grandes horrores. “
Sobre racismo e antisemitismo: “ Não é a consequência de um destino genético, mas de desenvolvimentos epigeneticos, culturais. Tudo começa no período formativo, nos primeiros 5 anos de vida da criança, que recebe uma série de ensinamentos e informações do tipo: você é de raça superior (ou inferior), etc… Não existem raças, só racistas. E são estas superstições que podem (como já fizeram) levar a destruição de seis milhões de pessoas. Os seres humanos são influenciados culturalmente. É por isto que o verdadeiro remédio contra o racismo é a educação.” E continua com um paradoxo: “Não podemos nos dar nunca por vencidos. Eu mesma deveria agradecer as leis raciais por terem me rotulado de “raça inferior” e assim ter me obrigado a trabalhar segregada no meu quarto, onde tinha montado um pequeno laboratório e começado as pesquisas que me levaram ao Nobel.”
Sobre sua idade: «Cem anos? É a idade ideal para fazer descobertas. Nunca aposente seu cérebro. Eu trabalho dia e noite com uma equipe extraordinária. No European Brain Research Institute (EBRI), eu e meus jovens colaboradores estamos aprofundando os estudos sobre o NGF que acompanha o desenvolvimento do ser humano do período pré-natal até a velhice. Estes trabalhos poderão ser úteis para combater as doenças neurodegenerativas e desenvolver um fármaco contra o mal de Alzheimer».

Rita Levi Montalcini sorri e comenta: «O segreto da minha vitalidade é que eu vivo continuamente ocupada na pesquisa científica e nos problemas sociais. Não tenho tempo de pensar em mim mesma.”


segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Young Girl's Lament [Mama Cass]

E na esteira desse meu momento nostalgia, um dos melhores blues que conheço. Levei muito tempo para conseguir a letra inteira.





Young girl’s lament



When I was a young girl, I used to to seek pleasure

When I was a young girl, I used to drink ale

Out of the ale house and down to a jail house

Right out of a bar room, down to my grave



Had he but told me, before he shamed me

Had he but told me about it in time

I could have had potions and salts of white mercury

But now I’m a young girl cut down in my prime



Get six gamblers to carry my coffin

Get me six young riders to sing me a song

Put bunches of roses all over my coffin

Roses to muffle the clods as they fall



When I was a young girl, I used to to seek pleasure

When I was a young girl, I used to drink ale

Out of the ale house and down, down to a jail house

My body is ruined, they left me to die

Nostalgia [assunto totalmente OFF]

Essa é a música que marcou o início do namoro qua acabaria em um casamento que dura até hoje.
O meu, claro.
People like us [Pessoas como nós]


People like us,
So much in love;
People who just trust one another.
Ooh, what a dump---
Now it's a palace.
Where a Dixie cup becomes a chalice.
For people like us (For people like us),
So much in love (So much in love)...

Lassos of love (lassos of love)
Twirling around us (twirling around us);
A magical space in the city that surrounds us.
Now is the time---
Blow out the candles.
A nursery rhyme too hot to handle.
For people like us
So much in love...

Ooh, what a dump---
Now it's a palace
Where a Dixie cup becomes a chalice
For people like us,
So much in...so much in love,
In love...

For people like us,
(For people like us)
For people like us,
(For people like us)
For people like us...

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

O Argumento do Medo

[Também conhecido como "Aposta de Pascal"]
Hoje eu tive uma experiência nada inédita. A pedido de um rapaz ateu, eu entrei em uma discussão por MSN com outra pessoa que é do tipo religiosa fundamentalista. Eu já não entro mais nesse tipo de discussão faz tempo, porque sei que não vai dar em nada, mas como foi um pedido, eu atendi. Como eu já tenho alguma experiência para detectar o que a pessoa realmente pensa, fui logo perguntando: "Você acha que eu mereço ir para o inferno simplesmente por não acreditar no deus cristão?" Ela respondeu que sim. Perguntei, " E se dependesse de você, se a decisão fosse sua, você me mandaria para o inferno?" Novamente ela respondeu que sim. (Devo dizer que foi nessa parte que ela me surpreendeu, normalmente as pessoas amenizam, saem pela tangente, dizendo que essa decisão não é delas, etc, etc.)

Quero deixar claro que eu nada tenho contra a crença de ninguém. E também sei muito bem que existem muitas maneiras de acreditar, conheço muitas pessoas que acreditam em "alguma coisa", mas são pessoas que não condenam ninguém por não pensar como eles, e levam suas vidas sem se ater a regras absurdas por medo de não merecer a "salvação". Por pessoas assim eu tenho o maior respeito e nunca me passou pela cabeça tentar convencer uma pessoa assim a mudar de idéia. Apenas explico o que penso se a pessoa perguntar, e normalmente essas pessoas não se sentem ameaçadas com isso. Assim, o convívio é tranquilo.

Mas o tipo de pessoa capaz de apontar o dedo para mim e dizer que eu sou uma péssima pessoa só por não compartilhar a sua crença me deixa perplexa. O argumento é tão infantil que me surpreende que a pessoa não tenha vergonha de usá-lo. Cheguei à conclusão de que essas pessoas carecem de empatia e compaixão, dão mais importância a um livro do que à pessoa ao seu lado. O tipo de deus em que essa pessoa acredita eu só consigo descrever como 'vaidoso, rancoroso e vingativo'. Tipo um juiz que vai me jogar na cadeia porque eu não puxei o saco dele. Na verdade isso me lembra muito os deuses gregos, eles castigavam duramente quem não lhes prestasse as devidas homenagens. Soa familiar?

Uma pessoa só poderia ser julgada pelos seus atos, e os atos só poderiam ser avaliados pelas suas consequências concretas. Não deveria importar o que a pessoa pensa ou acredita, só o que ela faz. Eu não faço coisas ruins simplesmente porque eu me importo com as pessoas e os seus sentimentos. Empatia é chave de tudo.

A importância do Estado Laico

Imaginemos que a maioria da população de um país pertença a uma organização religiosa específica. Vamos supor também que eles consigam que os preceitos religiosos específicos dessa organização se tornem obrigatórios a todos, em forma de lei, já que são maioria. Isso significaria entre outras coisas que, por exemplo, a transfusão de sangue seria proibida por lei. Agora imaginem que uma pessoa que não pertence a essa organização seja obrigada a seguir essa lei, e venha a morrer em consequência disso.
Este é um exemplo extremo, mas serve para ilustrar o absurdo de uma religião impor seus valores particulares. Por isso o Estado precisa ser laico.
Se fala muito em Estado Laico, mas as pessoas em geral não sabem muito bem o que isso significa. Em termos simples, significa que nenhuma religião pode se impor como diretriz à população como um todo através de leis.
Alguns países não são laicos, entre eles a maioria dos países da região árabe. Nestes países os preceitos religiosos devem ser seguidos por lei, deixar de cumprí-los resulta em punição, como se um crime tivesse sido cometido.
Existem também países onde há uma religião oficial, mas ela não é imposta à população. O não cumprimento não implica em punição e há liberdade para seguir qualquer outra religião, ou nenhuma. Este é o caso dos países escandinavos, e o paradoxo é que ali o número de ateus é muito grande, 85% na Suécia e 60% na Finlândia. E mesmo os que participam da igreja, o fazem por tradição, não por serem especialmente religiosos.
O Brasil é laico pela Constituição. Na prática, no entanto, não é o que realmente acontece. O divórcio só se tornou legal no Brasil em 1978; demorou por causa da pressão da Igreja Católica. Hoje temos o exemplo das bancadas evangélicas tentando impedir a aprovação da lei contra a homofobia, e eles se baseiam em suas crenças religiosas. Outro exemplo menos óbvio à primeira vista são os feriados, quase todos cristãos/católicos, e o pais (ou um estado, ou uma cidade) pára por causa deles.
Algumas pessoas alegam que já que a maioria da população é cristã, é correto que a lei seja feita de acordo com a vontade dessa maioria. Se assim fosse, não haveriam leis protegendo deficientes físicos, idosos, mulheres, crianças, etc. A verdade é que a democracia não pode se tornar uma “ditadura da maioria”. As minorias tem que ser respeitadas, desde que se mantenham dentro da lei, e a lei só pode determinar como ilegal aquilo que de fato prejudica alguém de forma concreta.
Algumas pessoas temem que um Estado Laico seja sinônimo de Estado Ateu, por pura desinformação. Nada mais longe da verdade. Além de garantir que uma religião específica não possa se impor, o Estado Laico também garante a liberdade religiosa em seu sentido mais amplo. Qualquer pessoa está livre para ter a religião que desejar, ou não ter nenhuma, como é o caso dos ateus.

Isso significa que ninguém pode ser discriminado por causa de sua postura em termos de religião, que um católico ou evangélico não tem o direito de constranger um participante do candomblé, por exemplo.
A defesa do Estado Laico efetivo é uma bandeira do movimento ateu, e significa que muitas pessoas que sofrem perseguição por pertencerem a alguma religião minoritária também terão os seus direitos respeitados. Os ateus não pretendem de forma nenhuma que todos se tornem ateus, querem apenas ser respeitados em seu direito de não precisar esconder a sua não-crença. As religiões em si não nos incomodam, nos incomodam a arrogância de alguns religiosos ao se sentir no direito de nos discriminar.
O cumprimento efetivo da Constituição na questão da laicidade é de fundamental importância para que todos, não só os ateus, tenham a sua liberdade de crença respeitada.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

"A Boa Vida" por Claudio Moreno

A boa vida

Para Berenice Giannetti, no seu aniversário

Na Grécia antiga, quase todas as esculturas eram feitas em bronze ou em mármore. Os mestres se dividiam segundo suas preferências, mas era tamanho o seu talento que, fosse com pedra, fosse com metal, nunca deixaram de produzir obras-primas de qualidade, habituando o povo grego ao convívio diário com a arte e a beleza.

Os que esculpiam o mármore, contudo, tinham uma superioridade natural sobre todos os demais. Para fazer uma estátua, o artista do bronze construía com sarrafos uma figura humana, com pernas e braços estilizados, e ia “vestindo” esse esqueleto com argila até produzir uma versão acabada da obra que imaginara, de onde então sairia o molde necessário para a fundição definitiva. Seu trabalho, semelhante ao dos pintores, era acrescentar camada por camada até atingir a forma pretendida – exatamente o inverso, portanto, do caminho seguido pelo artista do mármore, que precisava libertar, lasca após lasca, a forma que estava encerrada dentro da pedra. Essa mesma ideia foi defendida, muitos séculos depois, por Michelângelo, gênio do Renascimento: há uma escultura escondida dentro de cada bloco de mármore; para que ela possa vir à luz, o artista só precisa, com paciência e delicadeza, eliminar aquilo que está sobrando.

Pois isso que o artista faz com o mármore, dizia Epicuro, nós deveríamos fazer com nós mesmos. Como essas formas que jazem à espera da mão que as liberte, vivemos encerrados no duro granito das convenções vazias, dos desejos irrealizados e das esperanças enganadoras. “O sábio deve esculpir sua própria estátua” é um preceito que nunca esteve tão atual quanto agora, neste mundo de puro consumo e aparência. E não se trata de louvar a renúncia e o sacrifício, mas de valorizar, com alegria, aquilo que realmente importa, ou, como disse outro sábio, “não é que eu deva me conformar com pouco, mas sim, se eu não tiver muito, que este pouco me baste”.

Adeptos desse princípio, poetas e filósofos deixaram suas receitas pessoais para uma vida feliz, todas muito parecidas: uma casa cômoda, fresca no verão, aquecida no inverno; a saúde, o bom tempo, a chuva generosa - lá fora; as flores na janela, as frutas da estação, a mesa farta, com sabores simples e sinceros; a mente em paz, o sono tranquilo ao lado de quem se ama; o olhar límpido das crianças; alguns amigos, com alma semelhante à nossa; o sossego, na companhia de muitos livros e de muita música. Não esperar nada dos poderosos; querer ser o que se é, e não preferir nada mais; não temer o fim, nem desejar que ele chegue; aprender, em suma, a saborear o puro prazer de existir – isso é viver.

(na Zero Hora, segunda feira, 3 de novembro de 2009

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

"O Ateismo traz muita paz"

O empurrão final para que eu desistisse da astrologia em particular, e da minha busca em geral, foi muito por eu ter conhecido a STR. Quando cheguei nesse ponto, foi incrível a paz que eu senti. Foi uma sensação de alívio muito grande, tipo "ufa! não preciso mais me preocupar com isso."

Tem uma comunidade no Orkut que se chama "O Ateismo traz muita Paz". E quem a fez, foi porque viu essa frase em uma postagem minha em outra comunidade.
Não estou dizendo que todos vão, ou devem, se sentir assim. Para chegar a esse ponto é preciso primeiro enfrentar o lado negativo da descrença, que é o fato de não haver nenhuma força para nos proteger. Se conseguirmos superar o medo da "solidão cósmica", o que vem de bônus é uma grande liberdade. E essa liberdade tem um contraponto extremamente importante, que é a responsabilidade.
Não temos ninguém para responsabilizar exceto nós mesmos, temos que assumir totalmente tudo que fazemos. E as pessoas assumem uma importância ainda maior, porque não haverá uma segunda chance. Depois que a pessoa morre, o que não foi feito ou dito, não será mais feito ou dito, então temos que tratar bem a pessoa enquanto está aqui conosco.

Em janeiro de 2005 saiu uma matéria na Revista das Religiões, intitulada "Em que crêem os que não crêem". Foi feita uma entrevista comigo por e-mail, mas aproveitaram muito pouco de tudo que escrevi. Por isso coloquei a entrevista na íntegra à disposição no meu site do Multiply . No final da entrevista eu falei justamente nessa questão da paz que algumas pessoas encontram no ateismo.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A História das Meninas Dahlström


(contribuição da minha irmã, Synnöve)

Na foto: Meninas Dahlström em cena: Mais um Concurso Cultural na TV da Finlândia em que as meninas ganharam o prêmio máximo. Na foto, Åsa, Synnöve, Bodil e Tove sentadas à frente, tendo o apoio do irmão Yngve, Pai Klas e mãe Iris.

É de conhecimento comum que em 1970 mudou-se para o Brasil a família Dahlström, vinda de um país distante, ao norte do mundo, a Finlândia. Da família faziam parte pai e mãe ecinco filhos, dos quais apenas um, o primogênito era do sexo masculino, as demais (em todos os sentidos) eram as meninas Dahlström, que cruzaram a linha do Equador, mas deixaram para trás um país e uma cidadezinha, Jakobstad, marcados para sempre.
- Vocês estão se comportando como as meninas Dahltröm! - Era uma frase ouvida por muito tempo pelas crianças de Jakobstad e, segundo depoimentos, não de uma forma positiva. Entenda, caro leitor, que a idade das meninas em questão variava de 3 a 12
anos e nessa tenra idade que precede a adolescência nenhum comportamento é negativo.

Na verdade, o comportamento das meninas era extremamente positivo, porém mal compreendido. Líderes natas, ainda no berço conseguiam ganhar qualquer disputa cultural e intelectual sem dificuldade e tinham o hábito de conseguir provar para qualquer pessoa que estavam sempre certas, portanto, era natural que fossem obedecidas. Apenas uma questão de lógica...
Bom, estudos deduziram que, por tratar-se de uma família grande, um tanto atípica para os padrões sociais da época, em que a média de filhos por família era de 2.12 (não sei quantos filhos alguém deve ter para completar o ponto12, enfim, estatística!), os Dahlström formavam um grupo capaz de preencher todos os espaços físicos e sonoros de uma simples festinha familiar.
Somente uma das meninas, a mais velha, participava dos escoteiros (sim,na Finlândia é chamado escoteiros para meninos e meninas), mas muitos anos depois de a família ter se mudado para o Brasil os instrutores ainda aterrorizavam as pequenas lobinhas dizendo que se não se comportassem, pareceriam “as meninas Dahlström”. Ainda nos anos 80era possível escutar o suspiro de alívio dos monitores por não terem que
enfrentar as outras três...
A nova geração de meninas Dahlström se mostrou tão forte e determinada quanto a anterior e, do mesmo modo, mal compreendidas. É pena que algumas pessoas ainda insistam em confundir determinação com teimosia e convicção com autoridade...

O primeiro encontro da STR

Em novembro de 2000 eu estava passando uns dias em Porto Alegre, e conversei pelo ICQ com alguns dos outros editores da STR que também moravam lá. Combinamos de nos encontrar em um bar conhecido simplesmente para nos conhecermos, todos estavam muito curiosos. Um deles me perguntou que altura eu tinha, achava que por ser escandinava devia ser bastante alta. Respondi que eu não ia dizer que altura eu tinha, que ele ia ver isso pessoalmente, mas que eu garantia que ele iria se surpreender muito com a minha altura.
Na hora do encontro foi muito engraçado, porque ele havia deduzido que eu devia ser excepcionalmente alta. Quando me viu teve uma surpresa muito maior do que imaginava. Acontece que eu tenho 1,50m de altura.(*)

O encontro foi ótimo, e tivemos vários outros depois. Com o tempo alguns se mudaram e a gente acabou se distanciando, mas ainda tenho contato com vários deles e a amizade continua.

(*) Essa foi outra questão que eu tive que resolver intimamente quando adolescente. Com 14 anos eu entendi que mais do que isso eu não iria crescer. E eu lembro exatamente onde eu estava, pensando comigo mesma, "e agora? o que faço? aceito numa boa, ou uso salto alto e tento parecer mais alta do que sou?". E a resposta veio muito rápido, e foi bem prática. Pensei, "quer saber? não gosto de salto alto!". A partir daí sempre convivi numa boa com a minha altura (ou falta dela). É aquela coisa de aceitar aquilo que não podemos mudar.

domingo, 25 de outubro de 2009

Uma janela para o mundo

Para quem tem menos de 20 anos, pode ser difícil imaginar um mundo sem a internet. Quando surgiu ainda era algo inacessível à maioria das pessoas, ainda mais no interior, a 500 km da civilização. Eu me sentia muito isolada, muito sozinha, porque eu não tinha quase ninguém com quem pudesse trocar idéias.

A internet mudou isso. Deve ter sido em 1999 que começamos a usá-la. No início não haviam tantos recursos, a conexão era discada, cara, e não havia ainda tanto material para pesquisar. Mas foi assim que descobri a STR - Sociedade da Terra Redonda, em 2000. Um site ateu, isso era inusitado! Eu salvava as páginas para ler depois, para não ficar conectada muito tempo. Descobri que eles precisavam de editores, inclusive de inglês. Mandei um e-mail e me ofereci. Me aceitaram e comecei a traduzir textos para o site e a participar de algumas discussões. Isso tudo me ajudou muito a definir o que eu pensava, todo o processo de raciocínio que eu não tinha passado na adolescência por falta de oportunidade, passei depois dos 40.
Vários editores moravam em Porto Alegre, então nós nos reunímos várias vezes pessoalmente. Foi uma experiência enriquecedora realmente.

A STR durou uns 4 anos, e depois simplesmente estancou, porque o Presidente não tinha mais tempo para se dedicar, e não delegava a manutenção do site para mais ninguém. Foi uma pena, mas em todo caso foi um precursor de vários outros movimentos, e cumpriu o seu papel. E teve uma reportagem na Veja em 2002 sobre ateísmo onde eu apareci. http://veja.abril.com.br/050602/p_084.html

Até hoje a única forma de muitos ateus encontrar outros é pela internet. E muitas organizações virtuais se tornaram possíveis só por causa disso em um país tão grande como o Brasil. Então o Santo Google é o nosso santo padroeiro e Bill Gates é o nosso Profeta. ;-D

sábado, 24 de outubro de 2009

Minha mãe, a rebelde-mor


Minha mãe me ensinou que não precisamos aceitar as convenções, devemos sempre perguntar porquê. Se não há uma boa razão para mantê-las podemos muito bem descartá-las. Eu me lembro que desde sempre ela ensinou aos filhos que os homossexuais, por exemplo deviam ser aceitos como são. E lembro dela dizer a uma pessoa que não havia nada de errado em um casal de namorados dormir juntos, isso não era "pecado". Só era errado fazer mal a outras pessoas.

Quando ela lia histórias para a gente dormir era fascinante, porque ela fazia teatro amador, então ela fazia vozes diferentes para diferentes personagens e encenava a história de tal maneira que parecia que a gente estava vendo tudo acontecer.
Até hoje quando eu leio eu mergulho no livro de tal forma que eu sou capaz de ficar em dúvida depois se li o livro ou vi o filme.

Uma coisa é certa, em 99% das vezes o livro é infinitamente melhor que o filme.

Sofia, uma mulher de coragem


Minha bisavó viveu nos tempos em que a Finlândia pertenceu à Rússia. Os finlandeses nunca aceitaram isso e se insurgiam o quanto podiam. A Sofia viajava para Suécia e na volta trazia folhetos subversisvos em bolsos escondidos na sua saia de baixo. Também escondia chapas para imprimir propaganda subversiva no fundo da lata de biscoitos. Às vezes vinham pessoas fugindo do lado russo e encontravam abrigo na casa dos meus bisavós.

É muito interessante saber dessas coisas, e tenho orgulho de pertencer a uma família com tantas histórias de coragem para contar.

Histórias ainda mais antigas - Rebeldia herdada?

Minha vó compilou um livro a partir dos diários e cartas da minha bisavó. Por causa disso eu sei de coisas sobre os meus antepassados desde aproximadamente 1750. Um deles, devia ser o meu quintavô ou sextavô, era general no exército do rei da Suécia (a Finlândia era território sueco até 1809, quando foi conquistado pela Rússia).

Então, contam que o rei era um rapaz muito jovem, impulsivo e mimado, que só queria promover guerras. Esse meu antepassado teria perdido a paciência e dado um tapa no rei. Por causa disso ele foi condenado à morte.

A esposa dele vestiu o seu melhor vestido, o que ela havia usado para se casar, e foi pedir clemência, mas de nada adiantou. Ele foi decapitado pouco depois.

Diz a lenda familiar que o tecido desse vestido foi usado para revestir uma cadeira, e diz a minha bisavó que quando menina ela fez um furo na parte de trás do encosto da dita cadeira e viu, através de várias camadas sobrepostas, um tecido finamente bordado.

Será que a rebeldia é genética?

A importância da leitura

Cresci em uma casa cheia de livros. Meus pais tinham o costume de ler histórias para nós na hora de dormir, e isso com certeza teve um papel fundamental no fascínio que sempre tive por livros.

Quando entrei na primeira série eu aprendi a ler em tempo recorde. Fiz o meu cartão de membro na Biblioteca Municipal na minha cidade. Já naquele tempo as bibliotecas na Finlândia eram muito boas, tinham uma grande variedade de livros. Fui à seção de livros infantis, claro, e peguei 5 livros que li em dois dias, e voltei para pegar mais. Eu acho que eu tinha uns 10 anos quando simplesmete tinha esgotado tudo na seção infanto-juvenil, e comecei a pedir livros na seção para adultos.

Quando vim ao Brasil eu já falava um inglês razoável, mas não sabia falar nada em português. Uma vizinha que era professora me emprestava livros, e isso me ajudou muito a aprender a língua. Em questão de menos de dois anos eu já estava praticamente fluente, e estudava sem dificuldades na escola regular.

A leitura nos proporciona a oportunidade de aprender com a experiência de outras pessoas e nos dá elementos para comparar e decidir por nós mesmos o que parece válido. Por isso é importante ler de tudo, inclusive opiniões com as quais não concordamos.

Influência decisiva do meu pai

Meu pai quando mais jovem era muito intransigente com as coisas, e eu acabei me rebelando porque precisava de um apoio emocional que ele não conseguia me dar. Mas com o tempo ele suavizou e entendeu que o confronto, principalmente com pessoas próximas, só as afastava. Quando ele soube que eu estava envolvida com astrologia, ele não me recriminou e nem me pressionou, apenas deixou claro que não acreditava naquilo. 

Fiquei bastante surpresa quando ele me pediu que fizesse o mapa astral dele. Ele me disse que, embora não acreditasse em astrologia, ele achava que eu devia ser uma boa astróloga. Disse "Gostaria de ouvir o que viria através de um 'filtro' como você".
Esse foi um dos fatores que me levou a entender que era EU que fazia tudo, a minha intuição, empatia e conhecimento sobre a natureza humana possibilitava que eu dissesse às pessoas coisas que eram úteis a elas.
E fez com que eu entendesse que eu podia fazer tudo isso, e provavelmente bem melhor, SEM a astrologia.

E também mostrou que a gentileza dele teve resultado muito mais eficiente do que se ele tivesse me confrontado.

Mais sobre a minha experiência na igreja

Morávamos em uma cidade pequena, 500 km de Porto Alegre. A igreja cumpre uma função social porque nós somos seres gregários, e sentimos necessidade de um grupo para nos apoiar. Então eu tentei muito me “encaixar”, afinal tinhamos filhos e precisávamos desses relacionamentos que um grupo proporciona. Não haviam muitas opções, na verdade.

Mas eu sempre fui diferente, tinha idéias diferentes, e pior, eu falava sobre elas. Resultado: eu era “estranha”, “esquisita”, e nunca me senti plenamente aceita naquela cidade. E é o tipo de lugar onde todo mundo sabe da vida de todo mundo, e se a pessoa for “marcada”, vai ser de maneira geral, por todo mundo. Não ficou muito evidente para mim na época, mas hoje eu sei que os meus filhos foram discriminados por causa disso.

Nossos filhos fizeram o Ensino Confirmatório (equivale a Catecismo católico) por insistência do meu marido, que era adepto de seguir os costumes, apesar de ser intimamente ateu desde pequeno. Sei que não foi uma experiência muito agradável para eles, e lamento por isso. Mas o lado bom é que ninguém pode dizer que os privamos de ter contato com a religião e hoje são todos ateus apesar disso. Na verdade o nosso filho mais novo se rebelou e se recusou a fazer.

Enfim, chegou um momento em que resolvi me afastar da igreja, e até sugeri ao meu marido que tornassemos isso oficial. Ele não concordou, porque tinha medo da reação das pessoas. Embora ele sempre tivesse sido mais ateu que eu, ele havia aprendido desde pequeno a disfarçar para não ser visado. Considerando o grande preconceito que impera, dá para entender. Só quando nós nos mudamos de lá, uns 9 anos atrás, é que finalmente nos desligamos definitivamente.

Richard Dawkins on militant atheism - 24 Translation(s) | dotSUB

Richard Dawkins on militant atheism - 24 Translation(s) | dotSUB

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Porque a astrologia parece funcionar

Sim, ela realmente parece funcionar. Isso me confundiu durante muito tempo, e eu achava que era válida. Muita gente faz mapa astral acreditando que estão fazendo algo sério. E essa ilusão torna a astrologia uma das pseudociências mais populares que existem.

De onde vem isso? O que é que funciona?
A resposta é que a intuição tem um papel fundamental. O que "funciona" é o(a) astrólogo(a). Uma pessoa bastante intuitiva e empática capta muita coisa da pessoa que está na sua presença e consegue dar um retorno até muito preciso a ela.
Além disso, os anseios básicos das pessoas são poucos e bastante previsíveis. Quase todo mundo quer dinheiro, saúde e amor, ou alguma variação disso. Então é muito fácil fazer "leitura fria" e em pouco tempo descobrir o que aflige a pessoa.
O Efeito Fohrer também tem o seu papel, as pessoas tendem a se lembrar da análise que deu certo e esquecem aquilo que não deu. E existe o perigo de a pessoa fazer com que uma previsão se cumpra porque se comporta de forma a faze-la acontecer.

Bom, mas como foi que eu parei então? Levei muito tempo, mas me dei conta de que eu não conseguiria sustentar uma argumentação coerente perante um cético. Isso me fez pensar e chegar à conclusão de que não tinha validade.
As pessoas em geral precisam desesperadamente de respostas, de alguém que as escute, algum tipo de segurança. A ilusão de que podemos em alguma medida prever o futuro, ou nos conhecer melhor, descobrindo aspectos "ocultos" da nossa personalidade), nos dá um falso senso de controle sobre as nossas vidas.

Mas não precisamos disso. O fato de podermos simplesmente nos abrir e desabafar com um bom amigo ou amiga já é muito reconfortante. E alguém de fora pode muitas vezes nos dar uma visão mais objetiva dos problemas que estamos enfrentando.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Como foi que entrei para a igreja

É, gente, fiz isso.
(Sei que estou devendo a explicação sobre astrologia, mas quero explicar essa parte primeiro.)
Antes, alguns esclarecimentos. Eu já disse que até hoje a Finlândia tem uma religião oficial, que é a Igreja Evangélica Luterana, uma das chamadas "históricas" derivada diretamente da Reforma de Martinho Lutero. Eu a considerava uma das mais 'light', e era essa mesma igreja à qual a família do meu marido pertencia, IECLB (Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil).
Morávamos na época em uma cidadezinha no interior do RS. Nossos vizinhos, e donos da casa que alugávamos, eram dessa mesma igreja. Como a área rural era grande, a ida à igreja aos domingos se tornava um evento social para muita gente. Eu já estava nessa fase deísta da qual falei antes, meu marido era membro, nosos filhos haviam sido batizados, tudo parte da tradição. Também pensei que através de uma organização como essa eu poderia ajudar a fazer algum trabalho social, então resolvi me batizar e "entrar para o clube". Também pesou o fato de termos na época um pastor muito progressista, com uma mentalidade muito avançada, que dava margem para discussões interessantes e atuais.
Mas o pastor foi embora e veio outro mais de acordo com a mentalidade do lugar. E eu logo percebi que as reuniões das senhoras tinha pouco cunho prático, era praticamente só chazinho e conversa. Me decepcionei.

A busca que levou 20 anos

Como eu cresci em uma família atéia e sempre encarei o ateismo como algo muito natural, eu nunca estudei ou pensei muito a respeito do assunto. Pode-se dizer que eu não tinha uma base sólida em termos de conhecimento e opiniões.
Por isso, aos 21 anos, eu comecei a questionar se não existia mesmo alguma coisa. É engraçado pensar que eu trilhei o caminho inverso da maioria dos ateus, e não descarto que fiz isso como uma ato de rebeldia contra meu pai.

Evidentemente o deus cristão, antropomórfico estava fora de questão, esse eu descartei aos 8 anos de idade, mas comecei a estudar Rosacrucianismo junto com meu marido, que apresentava o conceito deus = energia. Essa era uma idéia que eu conseguia aceitar, e comecei uma longa busca por causa disso. Em pouco tempo abandonamos o Rosacrucianismo, porque percebemos que havia muita enrolação nesses "ensinamentos" e que era uma organização bastante comercial, querendo vender correntinhas, incensos, etc.
Depois disso fizemos um daqueles cursos de "Poder Mental", e pesquisei Gnose e coisas desse tipo.

Mas o que realmente me pegou foi a astrologia. Estudei muito, comprei muito livros, aprendi a fazer mapa astral e acreditava realmente no que fazia. Isso é importante entender, nem todos os astrólogos(as) são charlatões. E também é muito importante analisar porque a astrologia parece funcionar. Mas isso fica para o próximo post.

Mudança total


Quando eu tinha 13 anos, isso foi em 1970, minha família toda veio de mudança para o Brasil. Foi uma viagem no tempo também, porque a mentalidade aqui correspondia à mentalidade da Finlândia na década de 50. A virgindade até o casamento, por exemplo, era ainda um assunto tabu.
Talvez por ser estrangeira a questão do ateismo a princípio nunca me causou problemas, mas eu também não falava muito sobre isso. Para mim era muito natural ser atéia e eu não via motivo para levantar o assunto.

Conheci o meu futuro marido apenas dois anos depois. Fazia pouco tempo que estavamos namorando quando, por influência de uma amiga, fui a uma cartomante. Essa mulher me disse que o namoro do momento não daria em nada e que eu conheceria o homem com quem casaria aos 19 anos (eu estava com 15). Agora, imaginem se eu acreditasse nisso! Acabou que a gente se casou 3 anos depois, e estamos casados até hoje. Em dezembro completamos 35 anos de casados.

Para casar houve uma certa polêmica. Eu não era batizada, e deixei bem claro que se eu tivesse que fazer isso para casar na igreja, então o casamento seria só no civil.
Resultado, o meu sogro tinha um parente pastor que concordou em nos casar assim mesmo. A verdade é que a família do meu marido não era particularmente religiosa, como muitos outros eles pertenciam à igreja por formalidade.
E eu continuei atéia ainda por um bom tempo depois disso.

Aprendendo a enfrentar a vida


Nada a ver com ateismo, mas eu creio que tem a ver com a capacidade de enfrentar coisas não muito agradáveis.

Quando eu tinha 9 anos, fui ao dentista pela primeira vez. Eu estava muito nervosa e com medo por causa de todas as histórias que tinha ouvido sobre como era horrível ir ao dentista. Na hora de fazer a anestesia senti muita dor, e empurrei a mão da atendente, não deixei fazer. Comecei a chorar, mas tanto a atendente quanto o dentista foram muito gentis e me disseram que quem sabe eu voltava outro dia então.

Até hoje eu não entendo como é que com essa idade fui capaz de um raciocínio desses, mas eu pensei: "Se eu sair daqui agora, eu não vou conseguir voltar". Juntei toda a minha coragem e deixei que fizessem a anestesia e arrumassem o meu dente. Eu entendi que se eu não fizesse isso naquele momento, eu ia passar a vida inteira fugindo.

Isso tem um precedente. Aos 7 anos eu não permiti que me vacinassem na escola, e eu senti muita vergonha depois por não ter sido capaz de enfrentar aquilo. Ter sido capaz de enfrentar o medo dois anos depois fez com que eu me sentisse muito melhor, e com certeza teve reflexos nas minhas atitudes futuras.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Uma família atéia

Meus pais se casaram só no civil também, e nunca mencionaram o assunto religião com os filhos. Mas quando eu comecei a frequentar o Jardim de Infância o assunto apareceu. Eu, com 4 anos, é claro que fiquei encantada com as historinhas tão bonitinhas que a Tia contava sobre aquele homem tão bonzinho que gostava tanto de crianças. Lembro que fiquei decepcionadíssima quando me explicaram que não tinha como eu conhecê-lo, porque ele já tinha morrido.

Eu cheguei a ir algumas vezes à Escola Dominical com alguma amiga, e meus pais nunca se opuseram. Só lembro que meu pai me disse que "deuses" existiram muitos e que esse era apenas mais uma das muitas mitologias que haviam. Durante 4 anos da minha infância eu fui teista, mas aos 8 anos me bateu uma angústia enorme, e eu senti que não conseguia mais acreditar naquilo. Isso é meio pesado para a cabeça de uma criança, e eu rezei como se tivesse que dar uma explicação àquele deus no qual tinham me ensinado a acreditar. Até decidi mentalmente que quando eu tivesse 16 anos eu ia pensar no assunto novamente. Acabei fazendo isso só aos 21.

A outra atéia de bom humor


Minha vó, Greta Dahlström, se desligou da igreja para casar com o meu avô. Como a maioria das pessoas, ela só estava cadastrada na igreja por tradição, costume, coisa que acontece até hoje.
Ela era uma pessoa muito calma, tímida e tinha um jeito muito bem humorado de se expressar. Uma vez umas Testemunhas de Jeová bateram na porta dela para tentar convencê-la a entrar para a seita deles com o argumento de que as vagas no céu eram limitadas (eles realmente pensam assim) e que ela devia garantir a dela. Ela calmamente respondeu que preferia deixar o lugar dela para alguém mais "ansioso".

Dizem que sou muito parecida com ela. Bom, pelo menos o bom humor é certo que eu herdei.

O primeiro casamento civil da Finlândia

(na imagem: meu avô, Svante Dahlström)

Então, eu prometi contar uma história interessante sobre um amigo do meu avô. Como eu disse na postagem anterior, até 1921 não havia Registro Civil na Finlândia, a única opção era casar na igreja e batizar os filhos. Isso contava como registro oficial e continua até hoje, ou as pessoas casam na igreja ou no cartório. E os filhos são ou batizados ou inscritos no Registro Civil.


A história se passa em 1914, antes de instituirem o tal Registro Civil. O amigo se chamava Rolf Lagerborg e eles pertenciam a uma organização de livres-pensadores, a Associação Estudantil Prometheus (http://www.dlc.fi/~etkirja/AtheismInFinland.htm), que foi fundada em 1905-1906 e lutava pelo direito à liberdade religiosa. Ele tinha uma noiva, mas não admitia se casar na igreja. Então os dois combinaram um esquema que gerou grande escândalo na época, mas funcionou.

A noiva o processou por ter "coabitado" com ela, sendo que depois se recusava a "levá-la para diante do pastor". Ele disse para o juiz que de fato ele se recusava a fazer isso, mas que se o juiz assim decidisse, e o "condenasse" a estar casado com ela, isso ele aceitaria. E foi isso mesmo que aconteceu.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Uma longa tradição


Eu sou atéia de terceira ou quarta geração. De terceira eu tenho certeza, os meus avós paternos eram ateus declarados. No entanto eu tenho quase certeza de que os meus bisavós também eram (imagem ao lado: minha bisavó). Nasci na Finlândia onde morei até os meus 13 anos. O ateismo lá creio que tem sua origem principalmente no Iluminismo Francês. Digo isso porque muita gente supõe, errôneamente, que o ateismo deriva do comunismo.

Meu avô paterno fazia parte de um grupo de livres-pensadores no início do século passado. Esse grupo lutava pelo direito de não ter que casar na igreja e batizar os filhos, pois essa era a única opção na Finlândia até 1921. Até hoje existe uma igreja estatal lá, por incrível que pareça a Finlândia não é um país laico. No entanto a religião lá não interfere em assuntos de estado da mesma forma que no Brasil. Parece paradoxal, e é. Creio que é muito mais uma questão de mentalidade do que o que consta na Constituição.

Quanto ao meu avô, existe uma história interessante sobre um amigo dele, participante desse mesmo grupo. Mas isso eu conto na próxima postagem.